Quando não temos tempo para pensar, somos altruístas
Pesquisas recentes indicam que pessoas intervêm em crises em 9 de cada 10 casos, contrariando o mito do 'efeito do espectador' popularizado há décadas. Crianças desde 14-18 meses demonstram comportamento altruísta natural, e voluntariado está associado a melhor saúde mental, autoestima e menor risco de hipertensão.
- Em 9 de cada 10 ataques violentos, uma ou mais pessoas tentaram ajudar
- Crianças de 14-18 meses demonstram comportamento altruísta natural, sem recompensa
- Voluntários regulares têm 40% menos propensão a desenvolver hipertensão
- Doadores de órgãos têm amígdalas direitas maiores que o grupo controle
Estudos científicos desafiam a visão de que humanos são intrinsecamente egoístas, mostrando que altruísmo é programado em nosso cérebro e influenciado por cultura, experiências e contexto.
Toda vez que você entra em um avião, ouve a mesma instrução antes da decolagem: coloque primeiro sua máscara de oxigênio antes de ajudar os demais. É um conselho prático, até óbvio — se você desmaiar por falta de ar, não conseguirá socorrer ninguém. Mas em um mundo que parece cada vez mais recompensar o narcisismo e a autopromoção, essa frase pode soar como permissão oficial para colocar a si mesmo em primeiro lugar, sempre. A questão que persegue pesquisadores há anos é simples: somos realmente tão egoístas quanto acreditamos ser?
Por décadas, a ciência nos vendeu uma história sombria. Elementos da psicologia, economia e biologia — incluindo a ideia dos genes egoístas e o neodarwinismo — normalizaram a premissa de que os humanos são intrinsecamente cruéis e implacáveis. O psicólogo Steve Taylor, da Universidade Leeds Beckett, no Reino Unido, passou anos estudando como certos comportamentos humanos causam problemas sociais. Mas suas pesquisas mais recentes traçam um quadro bem diferente. Elas questionam a noção de que sempre priorizamos apenas a nós mesmos.
Um exemplo clássico é o chamado "efeito do espectador", conceito que nasceu nos anos 1960 após o assassinato de Kitty Genovese, uma garçonete de 28 anos morta em Nova York. A história que circulou por décadas dizia que cerca de 40 testemunhas viram o crime sem fazer nada. Tornou-se uma parábola moderna sobre a indiferença humana. Mas investigações posteriores revelaram que essa narrativa era fundamentalmente falsa. Um estudo de 2007 concluiu que não havia evidência de que qualquer pessoa tivesse presenciado o assassinato sem agir. A história serviu para limitar o escopo de como entendemos o comportamento em emergências — e estava errada.
Pesquisas mais recentes pintam um retrato bem diferente. Um estudo de 2020 analisou gravações de câmeras de segurança de ataques violentos no Reino Unido, Holanda e África do Sul. A conclusão foi surpreendente: em nove de cada dez ataques, uma ou mais pessoas tentaram ajudar. E quanto maior o grupo presente, maior era a probabilidade de intervenção — o oposto exato do que o "efeito do espectador" sugeria. Um estudo de 2014 sobre pessoas agraciadas com a Medalha Carnegie do Herói, concedida a quem arriscou sua vida pelos demais, descobriu algo ainda mais revelador: esses altruístas extremos descreviam suas ações como intuitivas, não deliberadas. Seu altruísmo era uma reação automática, um reflexo — algo que somos quando não temos tempo para pensar.
Taylor explica que existe um nível superficial no qual operamos egoisticamente com frequência, mas isso ocorre no nível do ego ou da identidade socialmente construída. Os humanos também têm a capacidade de serem altruístas por impulso. Quando um homem-bomba atacou um concerto de Ariana Grande em Manchester em maio de 2017, matando 22 pessoas e ferindo mais de mil, uma análise independente destacou "centenas, quando não milhares de atos de bravura individual e abnegação" entre os sobreviventes. Casos similares foram documentados no 11 de Setembro e nos ataques terroristas de Paris em 2015. Parece que os humanos estão programados para ajudar os demais.
A razão evolutiva é clara. Na maior parte da nossa história, vivemos em tribos como caçadores-coletores, em grupos altamente cooperativos. Não havia motivo para que os primeiros humanos fossem competitivos ou individualistas — isso teria colocado a espécie em risco. Estudos antropológicos mostram que grupos que ainda vivem de forma similar aos nossos ancestrais permanecem igualitários no compartilhamento de recursos. Pesquisas com crianças indicam que nascemos altruístas. Crianças de apenas 14 a 18 meses se afastam do seu caminho para ajudar os demais e cooperar para atingir objetivos comuns, mesmo sem recompensa à vista. Uma análise de 2013 sugeriu que o comportamento pró-social das crianças é intrinsecamente motivado pela preocupação com o bem-estar dos demais.
A gentileza também nos faz bem. O voluntariado foi relacionado à melhoria da saúde mental, autoestima e autoeficácia, além da redução de solidão. Um estudo de 2013 descobriu que 40% dos voluntários regulares apresentavam menor propensão a desenvolver hipertensão do que os que não praticavam trabalho voluntário com frequência. A própria estrutura do nosso cérebro pode definir nossa predisposição ao altruísmo. A neurocientista Abigail Marsh, da Universidade de Georgetown, analisou varreduras cerebrais de pessoas que doaram um rim para um estranho. Os doadores tinham amígdalas direitas maiores que o grupo controle, e demonstraram maior atividade nessa região ao observarem expressões faciais temerosas. Esse aumento de atividade cerebral pode torná-los mais receptivos aos sentimentos dos demais.
Mas a história não é tão simples quanto "somos todos altruístas". O pesquisador de Filosofia da Ética Tony Milligan, do King's College de Londres, argumenta que a maioria de nós é "moralmente medíocre" — e isso não é tão desestimulante quanto parece. As pessoas tendem a superestimar sua própria bondade moral, o que pode impactar decisões deliberadas sobre prioridades. Milligan defende que não é realista para a maioria tentar copiar a vida de altruístas extremos como Mandela ou Gandhi. "Estamos ali no meio", diz ele. Superestimar nossa bondade pode causar culpa e decepção quando inevitavelmente falhamos. A questão real não é "o que faria Buda?", mas "o que eu sou capaz de fazer?"
Cultura também molda profundamente nosso comportamento. Países como EUA e Reino Unido são mais individualistas, enquanto muitos países asiáticos são mais coletivistas, priorizando o bem do grupo. Durante a pandemia de covid-19, pessoas em culturas coletivistas eram mais propensas a usar máscaras do que aquelas em países individualistas. Ching-Yu Huang, diretora de pesquisa em Cambridge, vivenciou essas diferenças pessoalmente. Criada em Taiwan, um contexto coletivista, ela aprendeu a colocar os demais em primeiro lugar. Quando se mudou para os EUA e Reino Unido, percebeu que se priorizar era mais aceitável. Sua pesquisa mostrou que crianças taiwanesas demonstravam muito mais obediência situacional — priorizando instruções dos pais sobre seus próprios desejos — do que filhos de imigrantes chineses e ingleses criados no Reino Unido. Mas isso não significa que existe uma forma certa de fazer as coisas. O altruísmo pode beneficiar a nós mesmos e aos demais, mas precisamos ter consciência de nossas próprias necessidades e de como experiências passadas, contexto e cultura influenciam nosso comportamento. A maioria de nós é capaz de atos extraordinários de desprendimento, e essa capacidade ajudou nossa espécie a alcançar o sucesso que atingimos. Mas também somos influenciados por uma enorme quantidade de fatores. Em outras palavras, é ótimo ajudar os outros. Mas é preciso reconhecer que também é bom cuidar de nós mesmos.
Citações Notáveis
Existe um nível superficial no qual podemos operar egoisticamente, o que fazemos com frequência. Mas isso ocorre no nível do ego ou da identidade socialmente construída.— Steve Taylor, psicólogo da Universidade Leeds Beckett
A questão que você precisa fazer para si mesmo não é 'o que faria Buda?', mas 'o que eu sou capaz de fazer? Isso está ao meu alcance?'— Tony Milligan, pesquisador de Filosofia da Ética do King's College de Londres
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que levou tanto tempo para a ciência questionar essa ideia de que somos fundamentalmente egoístas?
Porque ela era reconfortante de uma forma perversa. Se somos animais egoístas por natureza, então não podemos ser responsabilizados moralmente por não fazer mais pelos outros. A culpa desaparece.
E o que mudou?
Os dados. Quando você realmente observa o que as pessoas fazem em crises — não o que dizem que fariam, mas o que realmente fazem — a história é diferente. Nove em cada dez ataques violentos têm alguém intervindo.
Mas isso não é apenas autossatisfação? Ganhar aprovação do grupo?
Talvez em alguns casos. Mas quando você entrevista pessoas que doaram um rim para um estranho, elas dizem que foi intuitivo. Não pensaram. Apenas fizeram. Isso sugere algo mais profundo do que cálculo social.
E as crianças pequenas — elas realmente ajudam sem esperar nada em troca?
Sim. Crianças de 14 meses se afastam do seu caminho para entregar objetos que outras pessoas não conseguem alcançar. Sem recompensa. Sem plateia. Apenas porque alguém precisa.
Então por que nos sentimos tão egoístas?
Porque vivemos em culturas que nos ensinam a nos priorizar. E porque confundimos o nível superficial — as decisões deliberadas que tomamos — com quem realmente somos. Quando não há tempo para pensar, somos diferentes.
Qual é o perigo de superestimar nossa bondade?
Culpa. Decepção. Você se compara a Gandhi e falha. Mas se reconhecer que é moralmente medíocre — que está ali no meio — pode realmente fazer mais bem. Porque então você trabalha com o que realmente é capaz de fazer.