Por que algumas pessoas 'precisam' de doce e outras nem ligam

O que foi aprendido pode ser desaprendido ao longo da vida
Especialistas explicam que hábitos alimentares não são determinados apenas por genética, mas podem ser modificados através de estratégias comportamentais.

Ao fim de uma refeição, alguns sentem uma atração quase magnética pelo doce; outros, nenhuma. Essa diferença não é fraqueza nem virtude — é o resultado de uma conversa silenciosa entre genes, hormônios, memórias da infância e o sistema de recompensa do cérebro. A ciência revela que o desejo por açúcar é real, mas maleável: moldado pela história de cada um e, em grande parte, passível de ser reescrito ao longo da vida.

  • O cérebro libera dopamina ao contato com o açúcar, criando um ciclo de recompensa que se intensifica com a repetição — e que varia de pessoa para pessoa conforme a sensibilidade genética individual.
  • Hormônios como a grelina, o estresse, a ansiedade e a privação de sono funcionam como amplificadores silenciosos, transformando o doce em refúgio emocional para quem já é mais suscetível.
  • A preferência começa antes do nascimento: a alimentação materna durante a gestação e os hábitos dos primeiros anos de vida constroem uma base de paladar que pode durar décadas.
  • Pesquisadores e especialistas convergem para uma conclusão: o comportamento alimentar ligado ao açúcar é aprendido — e o que foi aprendido pode, com estratégia e consciência, ser gradualmente modificado.

Ao terminar o almoço, algumas pessoas sentem uma vontade quase automática de comer algo doce. Outras saem da mesa sem pensar no assunto. Essa diferença tem explicação científica — e ela começa no cérebro.

Quando consumimos açúcar, o sistema de recompensa cerebral libera dopamina, gerando prazer e bem-estar. O problema é que esse ciclo se retroalimenta: quanto mais doce se come, mais intenso tende a ser o desejo. Mas nem todos respondem da mesma forma a esse estímulo. Diferenças genéticas determinam, em parte, o quanto cada pessoa é sensível ao efeito do açúcar. Um estudo britânico de 2015 com quase dois mil jovens identificou que 75% compartilhavam um fator genético ligado à preferência por doces — e que essa preferência era mais intensa nos mais jovens.

Especialistas ouvidos pelo tema deixam claro, porém, que não existe necessidade fisiológica real de consumir doces. O que existe é hábito reforçado. A endocrinologista Lorena Lima Amato, da USP, ressalta que, se fosse uma dependência verdadeira, a ausência do açúcar causaria sintomas físicos de abstinência — o que não ocorre. Já a psicóloga Joana Pereira de Carvalho Ferreira, da Unicamp, lembra que o córtex pré-frontal participa ativamente da decisão de comer ou não um doce: trata-se de um comportamento planejado, não apenas uma reação química.

Além da genética, hormônios e emoções entram em cena. Mulheres no período pré-menstrual frequentemente relatam desejo acentuado por açúcar. O estresse e a ansiedade transformam o doce em recompensa psicológica. A privação de sono eleva a grelina — o hormônio da fome —, que por sua vez intensifica o apetite por alimentos açucarados.

Talvez o fator mais profundo, porém, seja o ambiental. A endocrinologista Clarissa Silva Martins, da UFMS, explica que as preferências alimentares começam ainda no útero: o paladar do feto é influenciado pela alimentação da mãe através do líquido amniótico. Crianças expostas a muito açúcar nos primeiros anos crescem com essa preferência enraizada, o que dificulta a aceitação de sabores amargos e azedos mais tarde.

A boa notícia é que nenhum desses fatores é definitivo. Um estudo publicado em 2021 no International Journal of Obesity confirmou que o comportamento de consumo de açúcar é aprendido — e pode ser modificado. Reduzir a exposição diária a doces diminui a ativação do sistema de recompensa ao longo do tempo. O objetivo não é eliminar o doce da vida, mas cultivar consciência sobre frequência e contexto. O controle, dizem os especialistas, não é sobre privação — é sobre atenção.

Você termina o almoço e sente aquela vontade quase irresistível: um docinho para fechar a refeição. Nem todos sentem isso. Enquanto algumas pessoas saem da mesa satisfeitas, outras carregam uma fissura que parece automática, inevitável. A ciência explica por quê — e a resposta começa no cérebro.

Quando você come algo doce, seu cérebro ativa o que os neurocientistas chamam de sistema de recompensa. Esse mecanismo libera dopamina, um mensageiro químico que produz prazer e bem-estar. Quanto mais você come doce hoje, mais intenso tende a ser o desejo amanhã. Os doces funcionam particularmente bem nesse sistema porque são hiperpaláveis — adaptam-se rapidamente ao paladar, disparando a recompensa com facilidade. Mas aqui está o detalhe crucial: nem todas as pessoas respondem com a mesma intensidade a esse estímulo. Algumas são naturalmente mais sensíveis aos efeitos do açúcar, outras menos. Essa variação individual explica por que seu colega de trabalho pode passar dias sem doce enquanto você sente a ausência como uma lacuna no dia.

Não é tudo automático, porém. Joana Pereira de Carvalho Ferreira, psicóloga especialista em comportamento alimentar da Unicamp, aponta que o córtex pré-frontal — a região do cérebro responsável pela tomada de decisão — participa ativamente dessa escolha. Comer ou não um doce é um comportamento planejado, não apenas uma reação química. Lorena Lima Amato, endocrinologista pela USP, vai além: não existe uma necessidade fisiológica real de consumir doces. O que existe é hábito. Alguns estudos sugerem que o prazer do açúcar poderia ser semelhante ao de certas drogas, mas se fosse vício de verdade, você sentiria sintomas de abstinência — dores de cabeça, tremores — quando deixasse de consumir. Isso não acontece. Ninguém passa mal por pular a sobremesa.

Os genes carregam peso considerável nessa história. Um estudo britânico de 2015 acompanhou quase dois mil adolescentes e adultos jovens entre 12 e 26 anos. Os pesquisadores descobriram que 75% dos participantes compartilhavam um fator genético comum relacionado à preferência por doces. Quanto mais jovem a pessoa, mais intensa era essa preferência — sugerindo que a genética estabelece uma base, mas o tempo muda a intensidade. Além dos genes, hormônios entram em jogo. Mulheres no período pré-menstrual frequentemente experimentam um desejo acentuado por açúcar. Estresse e ansiedade também amplificam a vontade, transformando o doce em uma recompensa psicológica: "eu mereço porque tive um dia difícil". Problemas com o sono elevam a grelina, o hormônio da fome, que por sua vez aumenta o desejo por açúcar.

Mas talvez o fator mais profundo seja o ambiental. Clarissa Silva Martins, endocrinologista da UFMS, explica que nossas preferências alimentares começam ainda no útero materno. Durante a gestação, o paladar e o olfato se desenvolvem, e a alimentação da mãe influencia o que o feto experimenta através do líquido amniótico. Quando uma criança consome muito açúcar nos primeiros anos de vida, cresce com essa preferência enraizada. Isso dificulta depois a aceitação de alimentos amargos e azedos — como folhas verde-escuras — essenciais para um crescimento saudável. O ambiente continua moldando hábitos ao longo de toda a vida. Uma família que não tem o costume de consumir doces reduz o risco de que a criança desenvolva esse hábito, embora não o elimine completamente.

A boa notícia é que nenhum desses fatores é totalmente determinante. É possível melhorar hábitos ao longo da vida e aprender a consumir o que gostamos com moderação. Um estudo publicado em julho de 2021 no International Journal of Obesity reforçou que o comportamento de consumo de açúcar é aprendido — e o que é aprendido pode ser modificado. Reduzir a exposição diária a doces, por exemplo, diminui a ativação do sistema de recompensa. Estratégias comportamentais funcionam mesmo em pessoas mais susceptíveis. O ponto não é demonizar o doce ou eliminá-lo completamente do cardápio. A alimentação também serve ao bem-estar e à satisfação. O que importa é estar atento à frequência, fazer boas escolhas nos momentos oportunos, e reconhecer que uma mesma pessoa pode ter períodos de intensa vontade alternados com períodos de desinteresse. O controle não é sobre privação — é sobre consciência.

Não existe uma necessidade fisiológica de consumir doces. É hábito, e doce não vicia
— Lorena Lima Amato, endocrinologista pela USP
O comportamento de consumo de doces é associado ao aprendizado — a pessoa aprende a consumir doces
— Pesquisa publicada no International Journal of Obesity, julho de 2021
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o doce afeta algumas pessoas tão intensamente e outras praticamente não?

Model

Tem a ver com como o cérebro responde. Quando você come algo doce, libera dopamina — prazer puro. Mas nem todo mundo sente isso com a mesma força. É como volume: alguns têm o receptor de recompensa no máximo, outros no mínimo.

Inventor

Então é só genética? Nasci assim e pronto?

Model

Genética é importante — 75% das pessoas compartilham um gene relacionado a isso. Mas é só o começo. Hormônios, estresse, sono ruim, o que você comeu quando criança — tudo isso esculpe o hábito ao longo do tempo.

Inventor

Espera, você está dizendo que não é vício de verdade?

Model

Exatamente. Parece vício porque o prazer é real e o desejo é forte. Mas vício tem sintomas de abstinência — dor de cabeça, tremores. Doce não causa isso. É hábito, aprendizado, recompensa psicológica.

Inventor

E se eu cresci comendo muito doce? Estou condenado?

Model

Não. O que foi aprendido pode ser desaprendido. Reduzir a exposição — não deixar doce à vista todos os dias — já diminui a vontade. Estratégias comportamentais funcionam mesmo em pessoas mais sensíveis.

Inventor

Então o segredo é nunca deixar doce em casa?

Model

Não é sobre privação total. É sobre frequência e consciência. Você pode comer doce, deve comer se gosta. Apenas não como rotina automática. A diferença é estar no controle, não o doce estar no seu controle.

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