Sobrevivência milagrosa no Everest expõe falhas na indústria de turismo de montanha

Hillary Dawa Sherpa ficou preso sozinho a 7.500m de altitude por seis dias sem oxigênio suplementar, sofrendo queimaduras por frio extremo e desnutrição antes de ser resgatado.
Ele foi deixado sozinho e se salvou por conta própria
Alpinista polonês descreve como a empresa abandonou seu guia durante descida do Everest.

Hillary Dawa Sherpa, contratado como cozinheiro, foi designado como guia de escalada e abandonado a 7.500m durante descida em tempestade de neve. Empresa HTA oferecia pacotes abaixo do preço de mercado; buscas só iniciaram três dias após desaparecimento, diferente do protocolo para clientes pagantes.

  • Hillary Dawa Sherpa, 57 anos, contratado como cozinheiro, foi designado como guia de escalada
  • Desapareceu a 7.500m durante descida em 29 de maio; buscas só começaram em 2 de junho
  • Sobreviveu seis dias sozinho sem oxigênio suplementar em condições extremas
  • Empresa HTA cobrava US$ 37,5 mil por pessoa, entre os preços mais baixos do mercado

Guia nepalês sobrevive seis dias sozinho no Everest após ser deixado para trás, levantando questões sobre negligência empresarial, falta de protocolos de segurança e exploração de trabalhadores na indústria do turismo de alta altitude.

Uma equipe de limpeza percorria as encostas superiores do Monte Everest no início de junho quando avistou um homem em um macacão azul brilhante deslizando lentamente perto da Cascata de Gelo do Khumbu. Era Hillary Dawa Sherpa, um guia de montanha de 57 anos que havia desaparecido seis dias antes durante a descida. Quando reapareceu, sua família já havia iniciado os rituais funerários. Apesar das queimaduras causadas pelo frio extremo e do estado de exaustão total, ele ainda conseguia conversar com as pessoas que o encontraram antes de ser levado de helicóptero para Katmandu. Sua sobrevivência surpreendente ganhou manchetes internacionais, mas também expôs falhas profundas na indústria do turismo de alta altitude do Nepal.

O caso levanta questões perturbadoras sobre como a empresa Himalayan Traverse Adventure (HTA) operava. Dawa Sherpa havia sido contratado como cozinheiro de acampamento para trabalhar no Acampamento 2, a 6.000 metros de altitude. Mas quando um guia adoeceu no acampamento-base, ele foi designado como substituto para acompanhar dois clientes — o alpinista britânico Chris Thrall e o polonês Mariusz Chmielewski — até o topo da montanha de 8.849 metros. Dawa Sherpa aceitou a mudança porque queria ganhar dinheiro extra. A empresa cobrava cerca de US$ 37,5 mil por pessoa pela expedição, um dos preços mais baixos do mercado, enquanto outras empresas cobravam valores de seis dígitos por viagens semelhantes.

No dia 29 de maio, o grupo começou a descer do Acampamento 4, situado a 7.920 metros. Pasang Kaji Sherpa e Chmielewski seguiram à frente porque Chmielewski estava ficando sem oxigênio. Thrall vinha atrás com Dawa Sherpa. Segundo Thrall, o guia parou para descansar sobre a mochila logo acima do Acampamento 3, a cerca de 7.500 metros, como havia feito centenas de vezes antes. Quando Thrall perguntou se ele estava bem, Dawa Sherpa respondeu que sim e pediu para que continuasse em frente. Thrall enfrentou um dilema: voltar para buscar o guia ou ajudar Chmielewski, que estava sem oxigênio e com congelamento nos dedos. Ele escolheu continuar descendo com Chmielewski em meio a uma forte tempestade de neve. Os dois chegaram ao acampamento-base após cerca de 38 horas, acreditando que Dawa Sherpa estivesse morto.

Dawa Sherpa afirma que foi forçado a ficar para trás porque havia ficado sem oxigênio e não conseguia mais andar. Sem oxigênio suplementar, um alpinista totalmente aclimatado normalmente sobreviveria apenas dois ou três dias naquela altitude. Ele passou os dois primeiros dias sem comer nada, depois começou a mastigar gelo, o que machucava seus dentes. Encontrou chocolates no bolso e conseguiu beber um pouco de gelo derretido. Segundo pessoas que conversaram com ele sobre sua experiência, Dawa Sherpa desceu lentamente até cair em uma fenda no gelo. Uma avalanche que lançou neve para dentro da fenda lhe deu a primeira esperança em dias. Pisando na neve acumulada, conseguiu se levantar e escapar. Depois encontrou cordas que o ajudaram a avançar mais na descida até ser encontrado pela equipe de limpeza.

O que torna o caso ainda mais preocupante é o atraso nas buscas. Pasang Kaji Sherpa avisou a empresa em 30 de maio que Dawa Sherpa estava desaparecido, mas nenhuma operação de busca foi iniciada até dias depois. O fundador da HTA afirmou que as buscas foram atrasadas apenas por causa das condições climáticas adversas, não por negligência. Ele disse que teria sido impossível enviar um helicóptero imediatamente porque havia neve profunda continuamente. A empresa também afirmou que a 8K Expeditions, empresa parceira que emitiu as licenças de escalada, deveria ser responsável pelo resgate. A 8K Expeditions, porém, afirmou que não era responsável pela logística operacional daquela expedição específica, mas que tentou várias vezes entrar em contato com a HTA para coordenar as ações. Segundo a 8K Expeditions, a HTA estava inacessível até que conseguiram contato com a família de Dawa Sherpa em 2 de junho e coordenaram uma operação de busca aérea que não encontrou nada.

Chmielewski, o alpinista polonês, acusou a HTA de negligência grave. Ele afirma que Dawa Sherpa foi deixado sozinho e se salvou por conta própria, o que mostra como a empresa trata seus funcionários. Thrall, por sua vez, defendeu sua decisão de continuar descendo, argumentando que tentar voltar teria consumido praticamente todo seu oxigênio restante e que no Everest as coisas são muito diferentes. Ele dividiu o pouco oxigênio que restava com Chmielewski enquanto continuavam a descer em meio à tempestade. Os dois chegaram a gravar mensagens de despedida para suas famílias, acreditando que talvez não sobrevivessem.

A família de Dawa Sherpa apresentou uma queixa à polícia acusando a HTA de negligência, e o Departamento de Turismo do Nepal investiga o caso. Especialistas no Everest apontam que cozinheiros de acampamento raramente estão preparados para escalar a montanha. Ben Ayers, repórter da Outside Magazine que cobre o Everest há muitos anos, afirma que guias locais que levam clientes ao cume de montanhas de 8.000 metros são treinados especificamente para essa função. Dawa Sherpa tinha experiência em anos anteriores, mas já estava em uma fase avançada da carreira. Familiares e amigos dele cobram que os responsáveis sejam levados à Justiça. Seu amigo de longa data Pasang Dawa Sherpa disse que o problema ocorreu porque o contrataram como cozinheiro mas o usaram como guia, e questionou por que uma busca não foi iniciada logo depois que ele ficou preso. Enquanto Dawa Sherpa se recupera no hospital, transferido da UTI para uma enfermaria no início da semana, o caso permanece como um espelho das falhas estruturais na indústria do turismo de alta altitude do Nepal.

Dawa Sherpa foi deixado sozinho; ele se salvou por conta própria. Isso mostra a triste verdade sobre a forma como a Himalayan Traverse trata os seus funcionários.
— Mariusz Chmielewski, alpinista polonês
Acredito que esse problema ocorreu porque eles o contrataram como cozinheiro, mas o usaram como guia. Por que uma busca não foi iniciada logo depois que ele ficou preso?
— Pasang Dawa Sherpa, amigo de longa data de Hillary Dawa Sherpa
The Hearth Conversation Another angle on the story
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Por que um cozinheiro estava guiando clientes até o topo do Everest?

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A empresa disse que o guia original adoeceu no acampamento-base, então Dawa Sherpa foi designado como substituto. Ele aceitou porque queria ganhar dinheiro extra. Mas isso levanta a questão: por que não havia um guia de backup adequadamente treinado?

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E quanto ao atraso nas buscas? Três dias parece muito tempo.

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A empresa diz que as condições climáticas impossibilitaram o resgate imediato. Mas há um padrão preocupante aqui: se Dawa Sherpa fosse um cliente pagante, não um funcionário, as buscas teriam começado mais cedo?

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Como ele sobreviveu sozinho a 7.500 metros por seis dias?

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Sem oxigênio suplementar, ele deveria ter durado apenas dois ou três dias. Ele não comeu nada nos primeiros dois dias, depois mastigou gelo. Encontrou chocolates no bolso, bebeu gelo derretido, caiu em uma fenda e uma avalanche o enterrou parcialmente — mas a neve acumulada o ajudou a escapar.

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Os clientes sabiam que ele não era um guia qualificado?

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Chmielewski diz que a empresa disse que o guia original tinha problemas com álcool e saúde. Ele e Thrall pagaram milhares de dólares adicionais esperando um guia de escalada qualificado. Em vez disso, receberam um cozinheiro improvisado.

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A empresa assumiu responsabilidade?

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Não. A HTA culpou as condições climáticas e depois apontou para a 8K Expeditions como responsável pelo resgate. A 8K Expeditions disse que tentou coordenar as buscas, mas a HTA estava inacessível. Ninguém quer ser o culpado.

Inventor

E agora? Haverá consequências?

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A família apresentou queixa à polícia por negligência, e o Departamento de Turismo do Nepal está investigando. Chmielewski pediu que a empresa perca sua licença. Mas a indústria continua operando com padrões frouxos e preços que incentivam cortes de segurança.

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