A transação está fechada, mas a recuperação judicial é condição precedente
Cencosud fechou acordo para comprar 100% do St Marche, condicionado à homologação da recuperação judicial solicitada pela varejista. A rede expandiu de 21 para 32 lojas entre 2021 e 2024, mas foi impactada pela alta dos juros que saiu de 2% para 15%, afetando seu fluxo de caixa.
- Cencosud fechou acordo para comprar 100% do St Marche, condicionado à homologação da recuperação judicial
- St Marche expandiu de 21 para 32 lojas entre 2021 e 2024, mas foi impactada pela alta dos juros de 2% para 15%
- Dívida de R$ 528 milhões levou a recuperação extrajudicial em outubro de 2025
- Cencosud registrou US$ 17,4 bilhões em vendas globais em 2025 e opera 1.440 lojas em seis países
- Processo de recuperação judicial pode levar cerca de nove meses
O St Marche pediu recuperação judicial como condição para ser adquirido pela chilena Cencosud. A medida visa resolver incertezas com credores e garantir a conclusão da transação.
A rede de supermercados St Marche, que atende consumidores de alto poder aquisitivo nas classes A e B do Estado de São Paulo, pediu recuperação judicial na madrugada de quarta-feira como condição prévia para ser adquirida pela empresa chilena Cencosud. O acordo entre as duas companhias já estava fechado, mas sua conclusão depende agora da homologação desse processo judicial. O valor da transação não foi divulgado.
Bernardo Ouro Preto, cofundador e CEO da St Marche há 24 anos, explicou que a decisão de entrar em recuperação judicial foi motivada pelas incertezas criadas por um dos credores da empresa, que pediu o fim da recuperação extrajudicial anterior. Esse movimento ampliou as dificuldades no fluxo de caixa da rede e atrasava a conclusão da venda. "A transação com o Cencosud está fechada e acordada, mas tem a condição precedente que é o fim da recuperação judicial", disse Ouro Preto em entrevista.
A aquisição representa um ponto de virada para a varejista. A Cencosud é um dos maiores players globais do varejo, com vendas de US$ 17,4 bilhões em 2025 e mais de 1.440 lojas em seis países. No Brasil, o grupo chileno já opera marcas como Prezunic, Giga Atacado, GBarbosa e Bretas. Segundo Ouro Preto, a compra garante que o St Marche continue existindo e crescendo sob o guarda-chuva de uma empresa de escala global.
O caminho até aqui foi turbulento. Entre 2021 e 2024, o St Marche expandiu de 21 para 32 lojas, aumentando seu faturamento de R$ 700 milhões para R$ 1,3 bilhão. Essa expansão foi possível durante o período pós-pandemia, quando a taxa Selic estava em mínimas históricas de 2%. Mas quando os juros começaram a subir — chegando a 15% — o modelo financeiro da empresa desabou. A rede precisou atrasar pagamentos a fornecedores e enfrentou desabastecimento. Com uma dívida de R$ 528 milhões, o St Marche entrou em recuperação extrajudicial em outubro do ano passado, recebendo uma capitalização de R$ 90 milhões através de um DIP (empréstimo para empresas em dificuldade financeira). O fundo americano L Catterton, que detém 70% da rede, aportou R$ 45 milhões, e o BTG contribuiu com o restante.
Ouro Preto permanecerá como CEO da St Marche pelo menos até a conclusão do processo de recuperação judicial, que pode levar cerca de nove meses. Nos próximos dias, R$ 25 milhões em capital adicional serão aportados para reforçar o caixa e manter a operação funcionando. Enquanto isso, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) começará a analisar a aquisição. A transação só será concluída com a aprovação do órgão federal. O fato de o St Marche ter pedido recuperação judicial apenas oito meses após concluir uma recuperação extrajudicial anterior ilustra a velocidade com que as circunstâncias mudaram para a empresa — e a complexidade de resolver uma venda quando credores e incertezas jurídicas entram em jogo.
Notable Quotes
A transação com o Cencosud está fechada e acordada, mas tem a condição precedente que é o fim da recuperação judicial— Bernardo Ouro Preto, CEO do St Marche
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o St Marche precisou pedir recuperação judicial agora, se já tinha saído de uma recuperação extrajudicial há apenas oito meses?
Um dos credores pediu o fim da recuperação extrajudicial anterior, o que criou incertezas e piorou o fluxo de caixa. A recuperação judicial era a forma de resolver isso e permitir que a venda para o Cencosud avançasse.
Então a recuperação judicial é na verdade uma ferramenta para facilitar a venda, não um sinal de que o negócio está piorando?
Exatamente. O acordo com o Cencosud já estava fechado. A recuperação judicial é uma condição precedente — um pré-requisito legal para que a transação seja concluída. É um jeito de limpar a bagunça jurídica e credora.
Como uma empresa que cresceu de 21 para 32 lojas em três anos chegou a esse ponto?
A expansão aconteceu quando os juros estavam em 2%. Quando subiram para 15%, o modelo financeiro não resistiu. A empresa precisava pagar muito mais pelos empréstimos que havia contraído para expandir. Os fornecedores não foram pagos, as prateleiras ficaram vazias.
E agora? O Cencosud vai resolver isso?
Teoricamente sim. Eles têm escala global, operações em seis países, mais de 1.400 lojas. Conseguem absorver uma rede de 32 lojas premium em São Paulo. Mas primeiro precisa passar pelo CADE, e o processo de recuperação judicial pode levar nove meses.
Bernardo Ouro Preto continua no comando?
Sim, pelo menos até o fim da recuperação judicial. Ele fundou a empresa há 24 anos. Mesmo com a venda, ele segue como CEO durante essa transição.