Quase não recebemos informação sobre essas doenças. Como não sabemos, as descartamos.
Por 14 anos, especialistas, cientistas e pacientes de todo o mundo trabalharam para que uma condição que afeta 170 milhões de mulheres fosse chamada pelo que realmente é. Em junho de 2026, a síndrome dos ovários policísticos tornou-se a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina — um nome que reconhece, finalmente, que o sofrimento dessas mulheres vai muito além dos ovários. A mudança é pequena em letras, mas carrega décadas de invisibilidade médica e a esperança de que nomear corretamente seja o primeiro passo para cuidar com mais dignidade.
- Até 70% das mulheres com a síndrome nunca recebem diagnóstico, vivendo anos com exaustão, infertilidade e crescimento de pelos sem saber a causa — ou sendo mandadas embora com anticoncepcionais e pouca explicação.
- O nome antigo reforçava um equívoco duplo: os 'cistos' não são cistos, e a condição não é apenas ovariana — ela afeta o metabolismo, os hormônios, o coração, a pele e a saúde mental.
- Médicos e famílias historicamente normalizaram sintomas graves, dizendo a meninas que sangramento intenso e ciclos irregulares 'fazem parte de ser mulher', adiando diagnósticos por anos ou décadas.
- Após 14 anos de pressão internacional liderada por pacientes e especialistas, o novo nome SOMP foi adotado para romper a paralisia científica e atrair investimento em pesquisa e políticas públicas.
- Organizações de apoio e pesquisadoras esperam que a renomeação abra caminho para tratamentos mais abrangentes — que incluam, além do físico, suporte emocional para mulheres que convivem com a síndrome por toda a vida.
Chelle Robotham, 30 anos, carrega uma fadiga que molda cada decisão do seu dia. Jenef Ngombo descobriu pelos faciais aos 12 anos e passou a questionar sua própria feminilidade. As duas histórias ilustram a face plural de uma síndrome que afeta entre 10% e 13% das mulheres em idade reprodutiva — cerca de 170 milhões de pessoas — e que, até junho de 2026, ainda carregava um nome que a definia mal.
Depois de 14 anos de esforço global, a síndrome dos ovários policísticos foi renomeada para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). É a terceira vez que a condição muda de nome desde sua descrição em 1935. O problema com o nome anterior era duplo: os folículos observados nos ovários não são cistos, e a síndrome vai muito além dos ovários — envolve resistência à insulina, excesso de andrógenos, riscos cardiovasculares, impactos na saúde mental e reprodutiva.
A pesquisadora Susana Lozano Esparza, que estuda as experiências de mulheres mexicanas com a síndrome, identificou um padrão perturbador: sintomas graves eram constantemente minimizados por famílias e médicos. Menstruações incapacitantes eram chamadas de normais. Mulheres que chegavam aos consultórios ouviam que o problema só seria sério se quisessem engravidar. Algumas chegaram a ouvir de profissionais de saúde que jamais conseguiriam ter filhos ou encontrar parceiros.
Helena Teede, endocrinologista que liderou o processo de renomeação em Melbourne, destaca que foram as próprias pacientes que pressionaram pela mudança, cansadas de um nome que não traduzia o que viviam. Para ela, a reclassificação é também uma tentativa de romper décadas de subinvestimento em pesquisa. Kate Morris, da organização britânica Verity SOMP, acredita que o novo nome dará às pacientes palavras para exigir cuidado adequado.
Lozano resume três prioridades para o futuro: conscientizar a população e os médicos sobre a gravidade da síndrome, engajar formuladores de políticas públicas e garantir um tratamento que inclua suporte emocional. Quando perguntou a mulheres diagnosticadas o que teriam desejado na adolescência, a resposta foi quase unânime: apoio emocional da equipe médica. Essas mulheres convivem com a síndrome por toda a vida — e precisam de ferramentas para isso.
Chelle Robotham, aos 30 anos, vive na Flórida com uma exaustão que a segue como uma sombra. Ela descreve como essa fadiga constante drena sua energia de forma tão profunda que acaba moldando quase todas as suas decisões. Para Jenef Ngombo, a experiência foi diferente, mas igualmente devastadora: aos 12 ou 13 anos, quando começou a notar pelos faciais, uma dúvida se instalou em sua mente sobre quem ela era, sobre sua própria feminilidade. Agora, preocupa-se com a fertilidade, com a possibilidade de ter filhos.
Essas duas histórias contêm, em seus detalhes, a diversidade perturbadora de uma síndrome que afeta entre 10% e 13% das mulheres em idade reprodutiva — aproximadamente 170 milhões de pessoas no planeta. A Organização Mundial da Saúde estima que até 70% dos casos nunca são diagnosticados. Exaustão, crescimento excessivo de pelos, ganho de peso, dificuldade ou impossibilidade de engravidar: esses são apenas alguns dos sintomas possíveis. A síndrome também aumenta o risco de diabetes tipo 2, hipertensão e câncer de endométrio. Mas durante décadas, a maioria das mulheres que a carregavam não sabia que a tinham.
Em junho de 2026, após 14 anos de luta internacional envolvendo especialistas clínicos, sociedades científicas e organizações de pacientes, a síndrome dos ovários policísticos recebeu um novo nome: Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). Essa é, na verdade, a terceira vez que a condição muda de nome desde sua descrição inicial em 1935 pelos ginecologistas Irving Stein e Michael Leventhal. O que começou como síndrome de Stein-Leventhal tornou-se síndrome dos ovários policísticos — um termo que persistiu apesar de ser fundamentalmente enganoso. Os pesquisadores originais observaram pequenos sacos cheios de líquido nos ovários, mas logo ficou claro que não eram cistos, e sim folículos contendo óvulos em desenvolvimento. Em mulheres com a síndrome, alguns desses folículos param de se desenvolver, e frequentemente nenhum amadurece o suficiente para liberar um óvulo.
Mas o problema maior era conceitual. O nome sugeria que tudo girava em torno do ovário, reforçando a ideia de que se tratava de uma condição exclusivamente ginecológica. Pesquisas subsequentes demonstraram que a síndrome afeta múltiplos sistemas do corpo, associada a desequilíbrios hormonais e metabólicos que vão muito além dos ovários. No cerne estão a resistência à insulina e o excesso de andrógenos, com repercussões na saúde cardiovascular, da pele, mental e reprodutiva. Susana Lozano Esparza, médica e doutora em epidemiologia, observa que as doenças não são apenas biológicas — são moldadas pelo contexto social em que as pessoas vivem. Historicamente, as doenças que afetam apenas mulheres não recebem o investimento em pesquisa que merecem. "É triste, mas é assim que as coisas são", afirma ela.
Essa realidade se reflete em lacunas enormes no conhecimento. Embora vários fatores associados tenham sido identificados, a causa da SOMP ainda não é totalmente compreendida. Não há cura, apenas tratamentos que aliviam sintomas. Mas a sociedade também desempenha um papel mais íntimo: decidir quais sintomas são preocupantes e quais são normalizados. Lozano pesquisa a condição há anos e é co-investigadora de um estudo sobre as experiências de mulheres mexicanas com a síndrome. Conversando com elas, percebeu a minimização constante do impacto de seus sintomas — menstruações intermitentes, imprevisíveis ou inexistentes, fluxos intensos, prolongados e dolorosos. Muitas relataram que, quando eram meninas, suas famílias diziam: "Isso faz parte de ser mulher". Sangramento tão intenso que as levava ao hospital ou as fazia desmaiar era considerado normal. Quando finalmente consultavam um médico, ouviam: "Não é nada. A menos que você queira ter filhos, não é tão sério. Tome anticoncepcionais orais e pronto". Se não tinham certeza sobre maternidade ou não toleravam bem os anticoncepcionais, sentiam que os médicos não as levavam a sério.
A SOMP está intimamente ligada ao conceito social do que significa ser mulher. "Uma mulher tem que ter filhos, ser depilada, ser magra", observa Lozano. "É muito complicado, não só do ponto de vista médico, mas também por causa desse aspecto social de associar sintomas a coisas que não têm nada a ver com a doença". Ela relata ter ouvido histórias de médicos e enfermeiras dizendo a meninas: "Você nunca vai conseguir engravidar" ou "Vamos ver quem vai querer casar com você". Os médicos têm responsabilidade na forma como tratam e falam sobre doenças. Mas, segundo sua experiência, "quase não recebemos nenhuma informação sobre as condições de saúde dessas mulheres. Como não sabemos muito sobre elas, as descartamos, as minimizamos. Dizemos: 'Ah, ela só está reclamando demais!'"
A mudança de nome representa mais do que uma questão semântica. Helena Teede, endocrinologista e diretora do Centro Monash de Pesquisa e Implementação em Saúde em Melbourne, liderou esse esforço global sem precedentes. Foram os pacientes, ressalta ela, que pressionaram pela mudança, já que o nome anterior não refletia o impacto multissistêmico sofrido. "Mas isso também implica uma reclassificação dessa condição, para que possamos nos libertar da paralisia em que vivemos por décadas, onde quase nenhum dinheiro é investido em pesquisas sobre uma condição que afeta tantas mulheres", afirma Teede. Kate Morris, da organização britânica de apoio Verity SOMP, expressa esperança de que essa mudança leve a maior encaminhamento de mulheres a especialistas que reconheçam a natureza da síndrome. "Isso dará às pacientes a oportunidade de dizer: 'Como o nome sugere, o que eu tenho é metabólico e endócrino'", afirma. Lozano espera que a mudança de nome traga mudança de foco, levando a mais pesquisas voltadas para a melhoria da qualidade de vida. Ela identificou três prioridades: maior conscientização pública entre a população geral e médicos sobre a importância da doença e seu diagnóstico; maior conscientização entre formuladores de políticas para criar políticas públicas que melhorem diagnóstico e tratamento; e um tratamento abrangente que inclua suporte emocional. Quando perguntou a mulheres mexicanas diagnosticadas o que gostariam de ter tido na adolescência, quase todas responderam: "Eu gostaria de ter tido um tratamento abrangente que também incluísse apoio emocional da equipe médica". Essas mulheres conviverão com a síndrome por toda a vida, e ela está associada a muitos estigmas. Elas precisam de ferramentas para lidar com a situação.
Citações Notáveis
Sinto que poderia ter feito muito mais na vida se não estivesse constantemente exausta, porque isso drena minha energia de uma forma ou de outra— Chelle Robotham, 30 anos, Flórida
Isso também implica uma reclassificação dessa condição, para que possamos nos libertar da paralisia em que vivemos por décadas, onde quase nenhum dinheiro é investido em pesquisas— Helena Teede, endocrinologista e líder do esforço de renomeação
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um nome importa tanto? Parece apenas uma questão de terminologia.
Um nome carrega uma história sobre como entendemos uma doença. O nome antigo sugeria que tudo era sobre os ovários — uma questão ginecológica. Mas a síndrome afeta o coração, o metabolismo, a saúde mental, tudo. O novo nome diz: isso é multissistêmico. Muda como os médicos pensam sobre ela, como os pacientes falam sobre ela.
E isso muda o tratamento?
Não imediatamente. Mas muda o investimento em pesquisa, as políticas de diagnóstico, como as mulheres são ouvidas. Se você chama de "problema dos ovários", é fácil ignorar quando uma mulher diz que está exausta o tempo todo. Se você chama de síndrome metabólica, é mais difícil ignorar.
Você mencionou que 70% dos casos não são diagnosticados. Como isso acontece?
Porque os sintomas são normalizados. Uma menina menstrua muito, dói muito, e a família diz: "Isso é ser mulher". Ela cresce acreditando que é normal estar exausta, ter pelos faciais, ganhar peso. Quando finalmente vê um médico, ele diz: "Tome anticoncepcionais e pronto". Ninguém conecta os pontos.
E as mulheres que sabem que têm?
Muitas vezes levou anos para descobrir. E mesmo depois, o tratamento é fragmentado. Um médico trata o peso, outro trata a infertilidade, ninguém trata a exaustão ou a depressão que vem junto. As mulheres dizem que queriam ter tido alguém que as ouvisse, que reconhecesse que isso é uma doença crônica que vai afetar toda a sua vida.
O novo nome resolve isso?
Não resolve, mas abre a porta. Diz aos médicos: olhem para o quadro todo. Diz aos formuladores de políticas: invistam em pesquisa. Diz às mulheres: o que você tem é real, é complexo, merece ser tratado como tal.