Acordo EUA-Irã cria dilema político e de segurança para Netanyahu

Mais de 73 mil pessoas mortas em Gaza segundo Ministério da Saúde administrado pelo Hamas, com território ainda parcialmente controlado pelo grupo palestino.
O principal inimigo de Israel parece ser quem tem mais influência sobre seu principal aliado
Netanyahu enfrenta uma situação inédita: sua maior ameaça não vem de Teerã, mas de Washington.

Trump criticou publicamente Netanyahu por ataque a Beirute, marginalizando o premiê que se apresentava como influente em Washington. Exigência de cessar-fogo com Hezbollah no Líbano enfraquece promessa central de Netanyahu como garantidor da segurança de Israel.

  • Trump criticou publicamente Netanyahu por ataque a Beirute no domingo
  • Mais de 73 mil pessoas mortas em Gaza segundo Ministério da Saúde administrado pelo Hamas
  • Eleições gerais em Israel previstas antes do fim de outubro
  • Acordo exige cessar-fogo com Hezbollah no Líbano, incluindo operações militares em todas as frentes

O acordo de cessar-fogo entre Trump e Irã deixa Netanyahu preso entre pressões dos EUA e demandas domésticas, ameaçando sua narrativa de segurança antes das eleições israelenses.

O acordo de cessar-fogo que Donald Trump negociou com o Irã criou uma encruzilhada política para Benjamin Netanyahu — e não é o tipo de problema que um primeiro-ministro pode resolver com retórica ou força militar. Na segunda-feira, Trump criticou publicamente Netanyahu por ter ordenado um ataque a Beirute no fim de semana, acusando-o de falta de discernimento. Para um líder que construiu sua carreira em torno da ideia de ser o homem mais influente de Israel em Washington, com acesso direto aos círculos de poder americanos, essa repreensão pública foi humilhante. Pior ainda: ela veio do seu principal aliado.

O dilema que Netanyahu enfrenta agora é tríplice. Como pode ele, que fez do confronto ao Irã o eixo central da política de segurança israelense, terminar uma guerra com Teerã em posição de força? Como sua imagem de garantidor da segurança de Israel sobrevive a uma exigência de Washington e Teerã para que Israel cesse os ataques ao Hezbollah no Líbano — meses antes de eleições gerais? E como ele negocia tudo isso sem parecer que está capitulando aos interesses americanos? O líder da oposição, Yair Lapid, resumiu as opções de Netanyahu com clareza brutal: confronto direto e destrutivo com o maior aliado de Israel, ou rendição submissa dos interesses israelenses. Não há terceira via.

A pressão sobre Netanyahu vem de todos os lados. Seus rivais políticos exploram a crítica de Trump para questionar sua competência. Mas o verdadeiro problema está dentro de sua própria coalizão. Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional e expoente da direita radical, declarou nas redes sociais que o acordo de Trump não obriga Israel a cessar os ataques — que Israel não é parceiro de um acordo que não garante sua segurança. Parlamentares do Likud, o partido de Netanyahu, falam em continuar se defendendo, embora evitem ser explícitos sobre o que isso significa. A mensagem é clara: qualquer recuo será visto como fraqueza pelos aliados domésticos mais radicais.

Especialistas em segurança israelense questionam a própria lógica do acordo. Sima Shine, ex-integrante do Mossad, disse que é difícil entender por que os americanos aceitaram permitir que o Irã decida o que acontecerá no Líbano. Ao fazer isso, os EUA estão dando ao Irã a possibilidade de continuar apoiando o Hezbollah e garantindo que o grupo permaneça como ator político importante no cenário libanês. Netanyahu não está satisfeito — nem o setor de segurança, nem o político.

Quando questionado sobre o fracasso, Netanyahu reagiu com irritação. Disse que dedicou a maior parte de sua vida adulta a um objetivo: impedir que o Irã obtenha armas nucleares. Que fará o que for necessário para alcançar isso. Que não se limita em relação a esse objetivo. Mas também admitiu que ele e Trump tiveram visões diferentes em alguns casos. Expressou suas opiniões nas discussões, mas reconheceu que cada um tem seus próprios interesses. Netanyahu insistiu que criou uma zona-tampão no Líbano e permanecerá lá pelo tempo que for necessário — que o Irã queria que Israel se retirasse, mas isso não aconteceu porque ele se manteve firme. Que seus aliados americanos respeitam essa determinação. Que Israel preservará sua liberdade operacional: se for atacado ou ameaçado, responderá.

Mas Netanyahu costuma ser rápido em declarar vitórias, e agora enfrenta uma tarefa difícil ao decidir seus próximos passos. A segurança foi o pilar central de suas promessas aos eleitores por décadas. Essa é uma mensagem cada vez mais difícil de sustentar. Sua resposta aos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 foi mudar a política de segurança de Israel para uma abordagem mais agressiva — antecipando ameaças em vez de contê-las. Sua proposta para solucionar a crise era mudar o Oriente Médio, eliminando as ameaças enfrentadas por Israel. Mas embora as forças israelenses tenham destruído grande parte de Gaza e matado mais de 73 mil pessoas segundo o Ministério da Saúde administrado pelo Hamas, o grupo palestino ainda controla metade do território. Um plano de paz mediado pelos EUA e uma administração para Gaza nomeada pelos EUA permanecem em impasse, oito meses após Israel e o Hamas terem concordado com um cessar-fogo.

A nova estratégia de segurança de Netanyahu levou forças israelenses a ocupar amplas áreas de Gaza, do Líbano e da Síria. É popular entre muitos israelenses e tende a se estender até a eleição, mas pressiona ao limite os recursos militares do país e seus reservistas, sem uma saída diplomática clara. Ciclos sucessivos de conflito com o Hezbollah e o regime iraniano não eliminaram os principais inimigos de Israel, mas deixaram Teerã nas mãos de líderes mais linha-dura, com menos medo do poder dos EUA e de Israel. Agora, o principal inimigo de Israel parece ser quem tem mais influência sobre o principal aliado de Israel. Danny Citrinowicz, pesquisador sobre o Irã no Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, disse que qualquer movimento militar israelense percebido em Washington como uma tentativa de sabotar o acordo enfrentará uma resposta dura dos EUA. Ao contrário do governo Obama, quando Netanyahu tentou contornar a Casa Branca mobilizando apoio no Congresso e na opinião pública americana, essas opções quase não existem agora.

A promessa de Netanyahu aos eleitores israelenses tem sido, há muito tempo, a de que suas políticas e habilidades políticas são a melhor proteção contra ameaças regionais. Essa promessa parece cada vez mais superada pela realidade dos fatos. Uma mudança de regime no Irã poderia ter resgatado sua imagem política e sua narrativa eleitoral. Em vez disso, sua nova abordagem de segurança o deixou diante da escolha entre confronto ou rendição — não frente a um inimigo, mas sim a um aliado.

Ou um confronto direto e destrutivo com nosso maior aliado, ou uma rendição submissa dos interesses de Israel
— Yair Lapid, líder da oposição israelense
Dediquei a maior parte da minha vida adulta a um objetivo — impedir que o Irã obtenha armas nucleares. Faremos o que for necessário.
— Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Como Netanyahu, que sempre se apresentou como o homem que tinha Washington na palma da mão, acaba sendo criticado publicamente por Trump?

Model

Porque a dinâmica mudou. Netanyahu construiu sua carreira em torno da ideia de ser indispensável aos americanos — o homem que entendia o Irã, que sabia o que fazer. Mas Trump fez um acordo que Netanyahu não queria, e agora Netanyahu não tem poder para mudar isso.

Inventor

Então Trump simplesmente o ignorou?

Model

Pior que ignorou. Criticou publicamente. Disse que Netanyahu não teve discernimento. Para um líder que passou décadas dizendo aos eleitores que ele é o garantidor da segurança de Israel, ser repreendido assim pelo seu maior aliado é devastador.

Inventor

E internamente, em Israel, como está a reação?

Model

Dividida e tensa. A direita radical diz que não vai aceitar o acordo, que Israel continuará atacando o Hezbollah no Líbano. Mas Netanyahu não pode ignorar Trump sem arriscar a relação com os EUA. É um impasse.

Inventor

Qual é a saída para Netanyahu?

Model

Não há uma boa. Ele pode confrontar Trump e parecer irresponsável, ou pode ceder e parecer fraco antes das eleições. Seus próprios ministros já estão sinalizando que não vão aceitar um recuo.

Inventor

E quanto ao Irã? Ele realmente saiu fortalecido?

Model

Sim. O acordo permite que o Irã continue apoiando o Hezbollah no Líbano. Netanyahu queria eliminar as ameaças iranianas, mas em vez disso, o Irã agora tem mais influência sobre o que Israel pode fazer — porque tem influência sobre Trump.

Inventor

Então Netanyahu perdeu?

Model

Não é tão simples. Ele diz que preservou a liberdade operacional de Israel, que criou uma zona-tampão no Líbano. Mas a narrativa que o sustentou por décadas — que ele é o homem que protege Israel — está rachando.

Quieres la nota completa? Lee el original en G1 ↗
Contáctanos FAQ