Europa enfrenta onda de calor recorde com temperaturas acima de 42°C e incêndios mortais

Pelo menos quatro pessoas morreram em incêndios florestais na Espanha e Portugal; milhares foram forçadas a evacuar suas casas na Europa.
Em algumas décadas, este verão pode ser considerado frio
Climatologista da Imperial College London reflete sobre o futuro dos verões europeus mesmo com redução de emissões.

No coração do verão europeu de 2022, o continente se viu diante de um espelho ardente: temperaturas que reescreviam recordes históricos, florestas consumidas pelo fogo e vidas ceifadas pelo calor. O que os cientistas descrevem não é uma anomalia passageira, mas o rosto cada vez mais familiar de um planeta que aquece sob o peso de escolhas humanas acumuladas ao longo de gerações. A Europa ardia não apenas em chamas, mas na urgência de uma pergunta que a humanidade ainda hesita em responder com ação à altura.

  • O Reino Unido se aproximava de 42°C — mais de três graus acima de qualquer temperatura já registrada em sua história —, enquanto grande parte da Inglaterra vivia sob alerta máximo de calor extremo.
  • Incêndios florestais simultâneos na Espanha, Portugal, França e Grécia mataram pelo menos quatro pessoas e forçaram dezenas de milhares a abandonar suas casas em fuga desesperada.
  • Cientistas climáticos foram categóricos: as mudanças climáticas aumentaram em dez vezes a probabilidade dessas ondas de calor, e o mundo já vive o período mais quente dos últimos 125 mil anos.
  • As emissões globais de CO2 atingiram em 2021 o nível mais alto de todos os tempos, enquanto as metas estabelecidas na COP26 ainda apontam para um aquecimento de 2,4°C até o fim do século.
  • Especialistas alertam que o Reino Unido — e boa parte do mundo — está gravemente despreparado para as ondas de calor cada vez mais longas e intensas que estão por vir.

Em 19 de julho de 2022, o Reino Unido se preparava para quebrar seu recorde histórico de temperatura, com o Met Office alertando para a possibilidade de 42°C — mais de três graus acima do recorde anterior, estabelecido apenas em 2019. A noite anterior já havia sido excepcional, com mínimas de 25°C superando um recorde noturno que resistia desde 1990. Grande parte da Inglaterra vivia sob alerta máximo de calor extremo.

O continente europeu ardia em múltiplas frentes. Na Espanha, dois homens morreram em incêndios na região de Zamora; em Portugal, um casal de idosos pereceu tentando fugir das chamas. França, Espanha, Portugal e Grécia enfrentavam simultaneamente a destruição de suas florestas, enquanto dezenas de milhares de pessoas eram forçadas a deixar suas casas.

Para os cientistas climáticos, a explicação era inequívoca: o aquecimento global, alimentado pela queima de combustíveis fósseis, havia aumentado em dez vezes a probabilidade de eventos como esse. As temperaturas médias globais já superavam em mais de 1°C os níveis pré-industriais — e o IPCC confirmava que este era o período mais quente dos últimos 125 mil anos. A concentração de CO2 na atmosfera havia atingido níveis não vistos em 2 milhões de anos.

O desafio pela frente era imenso. Para conter o aquecimento a 1,5°C, as emissões precisariam atingir o pico até 2025 e cair 43% até 2030 — mas em 2021 elas haviam crescido 6%, chegando ao recorde de 36,3 bilhões de toneladas. As promessas feitas na COP26, mesmo que cumpridas integralmente, ainda levariam o planeta a um aquecimento de 2,4°C até o fim do século.

A climatologista Friederike Otto, do Imperial College London, ofereceu uma advertência perturbadora: em algumas décadas, o verão de 2022 poderia ser lembrado como frio. Enquanto isso, o Comitê de Mudanças Climáticas alertava que o Reino Unido estava fazendo muito pouco para se preparar — e que as políticas em vigor dificilmente seriam suficientes. Em 2020, ondas de calor já haviam causado mais de 2 mil mortes no país. A Europa ardia, e a preparação para o futuro permanecia aquém do necessário.

Na terça-feira de 19 de julho de 2022, o Reino Unido enfrentava a possibilidade de quebrar seu recorde de temperatura mais alta já registrada. O Met Office, instituto nacional de meteorologia britânico, alertava que o termômetro poderia chegar a 42°C — mais de três graus acima do recorde anterior de 38,7°C, estabelecido em 2019. A noite anterior havia sido igualmente extraordinária: as temperaturas mínimas atingiram 25°C, superando o recorde noturno de 23,9°C que havia permanecido desde agosto de 1990. Na segunda-feira, Suffolk, na Inglaterra, havia registrado 38,1°C, sinalizando o que viria a seguir. Grande parte da Inglaterra estava sob alerta máximo para calor extremo.

Mas o Reino Unido não estava sozinho nesta crise climática. A França emitiu alertas de calor extremo. O norte da Espanha registrou temperaturas de 43°C. E enquanto o termômetro subia, incêndios florestais devastadores varriam o continente. Na região noroeste de Zamora, na Espanha, dois homens morreram em chamas que também interromperam o serviço ferroviário. No norte de Portugal, um casal de idosos pereceu tentando fugir do fogo. França, Portugal, Espanha e Grécia enfrentavam simultaneamente a destruição de suas florestas, enquanto dezenas de milhares de pessoas eram forçadas a abandonar suas casas.

Os cientistas climáticos tinham uma resposta clara para por que o calor era tão extremo. O aquecimento global, diziam, era o culpado. O Met Office estimava que as mudanças climáticas haviam aumentado em dez vezes a probabilidade de ondas de calor extremas na Europa. As temperaturas médias globais já haviam subido pouco mais de 1°C acima dos níveis pré-industriais do século 19. Um grau pode parecer insignificante, mas o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU confirmava que este era o período mais quente dos últimos 125 mil anos. Por trás disso estava a queima de combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás — que retinham calor na atmosfera e elevavam a concentração de dióxido de carbono para níveis não vistos em 2 milhões de anos.

O desafio que se apresentava era monumental. A ONU havia estabelecido uma meta de limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais para evitar os impactos mais perigosos. Para isso, as emissões de carbono precisavam atingir seu pico em apenas dois anos e meio — até 2025. Mas em 2021, as emissões de CO2 das matrizes de energia haviam aumentado 6%, atingindo 36,3 bilhões de toneladas, o nível mais alto de todos os tempos, segundo a Agência Internacional de Energia. Para cumprir a meta de 1,5°C, as emissões precisariam cair em no mínimo 43% até o final da década. E até 2050, o mundo teria de reduzir as emissões líquidas anuais a zero — cortando gases de efeito estufa ao máximo e encontrando maneiras de extrair CO2 da atmosfera. Era um desafio que muitos consideravam o maior que a humanidade já havia enfrentado.

O panorama futuro era sombrio mesmo com ação climática agressiva. Na conferência COP 26 na Escócia no ano anterior, líderes mundiais haviam feito promessas. Mas se todas essas promessas fossem realmente implementadas, as temperaturas ainda subiriam cerca de 2,4°C em relação aos níveis pré-industriais até o final do século. E mesmo que o mundo conseguisse reduzir as emissões para a meta ambiciosa de 1,5°C, os verões do Reino Unido continuariam a ficar mais quentes. Friederike Otto, climatologista da Imperial College London, oferecia uma perspectiva perturbadora: em algumas décadas, o verão de 2022 poderia ser lembrado como frio. Nigel Arnell, cientista climático da Universidade de Reading, esperava ondas de calor cada vez mais longas e intensas no futuro.

O que tornava a situação ainda mais preocupante era a inação. O Comitê de Mudanças Climáticas, que assessora o governo britânico, alertava que o Reino Unido estava fazendo muito pouco. Um relatório do comitê indicava que as políticas atuais do governo dificilmente dariam resultado. Embora o governo tivesse estabelecido muitas metas e implementado várias políticas, havia poucas evidências de que seriam cumpridas. Pior ainda, o país não estava se preparando adequadamente para as ondas de calor mais frequentes e intensas que viriam. Em 2020, ondas de calor haviam causado mais de 2 mil mortes no Reino Unido, de acordo com a Agência de Segurança da Saúde. Enquanto a Europa ardia e as temperaturas batiam recordes, a preparação para o futuro permanecia inadequada.

Em algumas décadas, este verão pode vir a ser considerado frio
— Friederike Otto, climatologista da Imperial College London
As políticas atuais do governo dificilmente darão resultado, com poucas evidências de que as metas serão cumpridas
— Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que um aumento de apenas um grau Celsius causa tanto dano?

Model

Um grau não é pequeno quando falamos de sistemas climáticos globais. Significa que cada onda de calor é mais intensa, cada seca mais severa, cada incêndio mais voraz. O Reino Unido nunca havia planejado para 42°C — suas infraestruturas, seus hospitais, suas estradas não foram construídos para isso.

Inventor

Os governos sabem disso, certo? Por que não agem?

Model

Sabem. O Comitê de Mudanças Climáticas britânico é claro: há poucas evidências de que as metas serão cumpridas. É a diferença entre fazer promessas e fazer o trabalho real de transformar uma economia.

Inventor

E se conseguissem reduzir as emissões para 1,5°C?

Model

Mesmo assim, os verões continuariam a ficar mais quentes. Uma climatologista da Imperial College disse algo que fica na memória: em algumas décadas, este verão de 2022 pode ser considerado frio.

Inventor

Isso é uma sentença de morte lenta?

Model

É mais uma sentença de mudança permanente. Não é o fim do mundo, mas é o fim do mundo que conhecemos. As pessoas terão de aprender a viver diferente — ou morrer tentando, como aquele casal em Portugal.

Inventor

Qual é o prazo real?

Model

As emissões precisam atingir o pico em 2025. Dois anos e meio. Depois disso, precisam cair 43% até 2030. É matematicamente possível, mas politicamente parece impossível.

Inventor

E se não conseguirmos?

Model

Então veremos mais noites como aquela de segunda para terça no Reino Unido — a mais quente já registrada — e mais pessoas morrendo em incêndios que ninguém esperava que fossem tão violentos.

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