Se você não usa, acaba perdendo
O agachamento profundo é um movimento fundamental do corpo humano, exigindo mobilidade dos quadris, joelhos e tornozelos mais do que o agachamento convencional. Pessoas em países asiáticos mantêm essa capacidade porque atividades cotidianas ainda exigem agachamentos, enquanto estilos de vida ocidentais centrados em cadeiras e vasos elevados causam perda gradual.
- O agachamento profundo exige maior mobilidade dos quadris, joelhos e tornozelos
- Atividades cotidianas em partes da Ásia ainda envolvem agachamentos, preservando essa capacidade
- Matt Hsu perdeu a capacidade aos 20 anos e precisou treinar novamente para recuperá-la
- Estilos de vida sedentários ocidentais contribuem para a perda gradual de mobilidade
Vídeos virais de turistas tentando o agachamento asiático destacam a importância de manter mobilidade articular ao envelhecer. Especialistas explicam como estilos de vida sedentários reduzem essa capacidade fundamental.
Há alguns anos, vídeos de turistas ocidentais tentando fazer o agachamento asiático começaram a circular nas redes sociais. Nas imagens, pessoas perdem o equilíbrio, caem para trás, tombam para os lados ou precisam se apoiar em uma parede para não desabar. O que parecia ser apenas um momento cômico revelou algo mais profundo: a dificuldade crescente que muitos adultos enfrentam para executar um movimento que deveria ser tão natural quanto respirar.
Na China, no Japão e em grande parte da Ásia, ficar de cócoras é parte da rotina. Pessoas descansam nessa posição de agachamento profundo enquanto esperam o trem, conversam com amigos ou fazem uma refeição, mantendo os calcanhares apoiados no chão com naturalidade. Especialistas em movimento corporal veem nesse fenômeno viral algo maior: um alerta sobre a importância de preservar a mobilidade conforme envelhecemos. Christopher Powers, professor da Universidade do Sul da Califórnia que pesquisa como os padrões de movimento influenciam lesões nos joelhos, explica que o agachamento é um dos movimentos mais fundamentais do corpo humano. Ele ocorre constantemente no dia a dia — quando alguém senta em uma cadeira, sai do carro, usa o banheiro ou se abaixa para pegar algo no chão.
Existem dois tipos de agachamento. O tradicional, comum em academias, envolve flexionar os joelhos até que as coxas fiquem paralelas ao chão. O agachamento asiático, também chamado de agachamento profundo ou completo, vai além: a pessoa se abaixa até dobrar totalmente os joelhos, mantendo-os voltados para fora, com os pés afastados, o tronco ereto e a parte de trás das coxas apoiada sobre as panturrilhas. Matt Hsu, treinador americano de origem asiática e fundador da Upright Health, publicou vídeos sobre esse movimento que acumularam milhões de visualizações. Apesar da popularidade, ele ressalta que o próprio nome pode ser enganoso. "Você encontra africanos dizendo que esse agachamento é deles. Pessoas de países eslavos ou do Leste Europeu também dizem: 'Esse é o nosso agachamento'. Na verdade, esse agachamento pertence a todo mundo."
Segundo fisioterapeutas, o agachamento profundo exige maior mobilidade dos quadris, joelhos e tornozelos do que a versão convencional e mobiliza mais partes do corpo. Estudos indicam que esse alongamento mais amplo pode ajudar a aumentar a mobilidade e a flexibilidade, reduzir dores nas costas e preservar a independência funcional ao longo da vida. As crianças costumam conseguir adotar essa posição naturalmente, com pouco esforço, em parte porque têm maior mobilidade articular e proporções corporais diferentes das dos adultos. Mas as mudanças anatômicas não são a única razão pela qual tantas pessoas perdem essa capacidade ao envelhecer.
Estilos de vida centrados em ficar sentado, com o uso de cadeiras e vasos sanitários elevados, fazem com que muitos adultos raramente precisem se agachar profundamente no dia a dia. Com o tempo, isso contribui para a perda de mobilidade e força. "Se você não usa, acaba perdendo", afirma Powers. Essas mudanças de estilo de vida são menos disseminadas em partes da Ásia, como o Japão, onde atividades cotidianas ainda envolvem se agachar. Em restaurantes, as pessoas precisam entrar, tirar os sapatos, se agachar até o tatame e então sentar para fazer a refeição. Em algumas partes da Ásia, ainda existem vasos sanitários em que é preciso ficar agachado — se você usa esse tipo de banheiro todos os dias, dificilmente vai perder essa capacidade.
A importância desse movimento ficou evidente para Hsu através da experiência de sua própria família. Seu pai sofreu uma queda e precisou que uma ambulância fosse chamada para ajudá-lo a se levantar da calçada, porque já não conseguia se erguer sozinho. Apesar de sua ascendência asiática, Hsu perdeu a capacidade de fazer o agachamento profundo quando estava na casa dos 20 anos, após passar longos períodos sentado durante a recuperação de lesões esportivas. "Lembro que nem conseguia tocar os tornozelos de tão rígido que meu corpo estava", afirma. Hsu precisou treinar novamente para recuperar o movimento e diz que a capacidade pode ser aprendida, como qualquer outra habilidade física.
Para quem quer aprender, Hsu alerta que é importante não forçar o corpo além do que ele consegue fazer. Não se deve tentar descer de uma vez até o chão, porque provavelmente vai acabar se machucando. Em vez disso, recomenda-se avançar aos poucos, usando móveis como uma cadeira ou bancada para apoio e descendo apenas até onde se sentir confortável. "Se você fizer isso algumas vezes por dia, durante algumas semanas, vai perceber uma mudança. Vai pensar: 'Agora me sinto seguro. Consigo descer um pouco mais'." A questão se torna mais complexa com o envelhecimento. Powers alerta que à medida que envelhecemos, perdemos mobilidade nas articulações, na coluna, nos quadris e, especialmente, nos tornozelos, o que limita ainda mais nossa capacidade de fazer esse tipo de agachamento.
Mas Powers também alerta contra a ideia de que o agachamento profundo deva ser um objetivo universal, especialmente para pessoas que já sofrem de dores nos joelhos, quadris ou costas. Para alguns fisioterapeutas, a questão mais importante não é conseguir ficar com os quadris a poucos centímetros do chão, mas preservar a capacidade de se movimentar de forma independente ao longo da vida. Até o momento, não existem estudos que confirmem os efeitos ou benefícios de longo prazo do agachamento profundo praticado diariamente por períodos prolongados. Hsu afirma que seu objetivo não é alcançar a perfeição, mas recuperar um movimento que o estilo de vida moderno pode ter feito as pessoas perderem gradualmente. "Pela minha própria experiência, posso dizer que é fundamental ser capaz de controlar o próprio corpo, levantar-se e simplesmente lidar com a gravidade."
Citações Notáveis
Você encontra africanos dizendo que esse agachamento é deles. Pessoas de países eslavos ou do Leste Europeu também dizem: 'Esse é o nosso agachamento'. Na verdade, esse agachamento pertence a todo mundo.— Matt Hsu, fundador da Upright Health
É fundamental ser capaz de controlar o próprio corpo, levantar-se e simplesmente lidar com a gravidade.— Matt Hsu
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que esses vídeos virais de turistas caindo ao tentar o agachamento asiático chamaram tanta atenção?
Porque tocaram em algo que muitas pessoas reconhecem em si mesmas — a dificuldade de fazer um movimento que deveria ser simples. Mas o viral revelou uma questão maior sobre como nossos corpos mudam com o estilo de vida.
Então é realmente um problema de estilo de vida ocidental, não de genética?
Exatamente. Matt Hsu, que tem ascendência asiática, perdeu essa capacidade nos seus 20 anos por ficar sentado durante a recuperação de lesões. Ele precisou treinar novamente para recuperá-la. A genética não é o fator determinante.
O que torna o agachamento profundo tão diferente do agachamento comum que vemos nas academias?
Exige muito mais dos quadris, joelhos e tornozelos. No agachamento profundo, você desce completamente, com os joelhos totalmente dobrados e as coxas apoiadas nas panturrilhas. Mobiliza mais do corpo inteiro.
Se alguém quer começar a fazer isso, qual é o risco?
O risco é tentar descer tudo de uma vez e se machucar. Hsu recomenda usar uma cadeira ou bancada como apoio e descer apenas até onde se sinta confortável, repetindo várias vezes por dia durante semanas.
Mas nem todo mundo consegue fazer isso, certo? Especialmente pessoas mais velhas?
Verdade. Com a idade, perdemos mobilidade nas articulações, coluna, quadris e tornozelos. E especialistas alertam que não deve ser um objetivo universal para quem já tem dores articulares. O importante é preservar a independência de movimento ao longo da vida.
Então qual é a lição real aqui?
Que o movimento que perdemos gradualmente pode ser recuperado — mas que a verdadeira questão é manter a capacidade de controlar nosso próprio corpo e lidar com a gravidade conforme envelhecemos.