Uma estátua não é apenas um registro do passado. É um ato de celebração permanente.
Nas ruas de São Paulo, monumentos públicos tornaram-se palco de uma disputa que vai muito além do concreto e do bronze: trata-se de quem tem o poder de definir quais memórias merecem ser celebradas e quais devem ser esquecidas. A escultura do bandeirante Borba Gato foi incendiada por ativistas, enquanto o monumento a Carlos Mariguella — resistente à ditadura militar — permanecia invisível e desprotegido, sua placa arrancada repetidamente sem reposição. Esse contraste revela uma assimetria profunda: nem toda memória recebe a mesma proteção, e o espaço público nunca foi neutro.
- A queima da escultura do Borba Gato acendeu um debate urgente sobre por que figuras históricas condenadas por genocídio ainda ocupam posição de honra nas ruas das cidades.
- Enquanto a destruição do monumento ao bandeirante gerava investigações e comoção, o bloco de pedra em homenagem a Mariguella era vandalizado em silêncio, sem que ninguém parecesse notar.
- A pichação 'viva Borba Gato' sobre o grafite de Marielle Franco expôs a disputa em sua forma mais crua: uma tentativa deliberada de inverter quais vidas e lutas merecem ser celebradas no imaginário coletivo.
- O debate se divide entre os que defendem a destruição como ato político necessário e os que propõem a realocação para museus, onde o contexto histórico possa transformar celebração em documentação crítica.
- A questão central permanece em aberto: enquanto homenagens problemáticas seguem nas ruas e homenagens legítimas são apagadas, a cidade continua narrando uma versão parcial e excludente de si mesma.
A frase de Orwell — quem controla o passado controla o futuro — ganhou corpo nas ruas de São Paulo quando ativistas incendiaram a escultura do Borba Gato, o bandeirante representado empunhando um rifle. O gesto não era isolado: em muitos países, a permanência de homenagens a figuras hoje condenadas pela história havia se tornado uma questão incontornável. Uma estátua, afinal, não é apenas registro — é celebração renovada a cada olhar que passa por ela.
O que veio depois revelou a assimetria da disputa. Carlos Mariguella, que resistiu à ditadura militar e foi emboscado e assassinado pela polícia na Alameda Casa Branca, tinha como única homenagem na cidade um bloco de pedra quase invisível — a placa explicativa era arrancada repetidamente e nunca reposta. Quando tinta vermelha foi derramada sobre a pedra, a ironia era cortante: o monumento ao bandeirante mobilizava investigações, enquanto o do resistente permanecia desprotegido e ignorado.
No mesmo período, um grafite em homenagem a Marielle Franco foi vandalizado com a inscrição 'viva Borba Gato' — uma tentativa explícita de reafirmar qual figura merecia ocupar o imaginário coletivo. O debate, porém, não é sobre destruição pela destruição. A proposta que ganha força é a da realocação: museus oferecem contexto, permitem que gerações futuras compreendam como uma época homenageava quem hoje é considerado genocida. É documentação, não celebração.
O espaço público nunca foi neutro. As imagens que nele colocamos moldam como uma sociedade se vê e como narra seu passado. Há memórias que precisam ser resgatadas e tornadas impossíveis de ignorar — como a de Mariguella. Há outras que não podem mais ocupar as ruas sem tornar a cidade cúmplice do que essas figuras representaram. O desafio é fazer essa distinção sem deixar que, no processo, os próprios museus — guardiões da memória crítica — sejam também consumidos pelas chamas.
A frase de George Orwell ecoou recentemente nos escritos do filósofo Vladimir Safatle: quem controla o passado controla o futuro. Não é uma observação abstrata. É o que está acontecendo nas ruas de São Paulo, onde monumentos públicos viraram campo de batalha por narrativas históricas.
Tudo começou com o Borba Gato, a escultura do bandeirante empunhando um rifle, que foi incendiada por ativistas. O gesto não era isolado — em muitos países, pessoas já questionavam por que manter em espaço público homenagens a figuras hoje condenadas pela história. A questão é simples, mas incômoda: se sabemos que alguém cometeu genocídio, por que sua efígie continua sendo um ponto de referência nas ruas onde vivemos? Uma estátua não é apenas um registro do passado. É um ato de celebração permanente, um marco que reafirma valor a cada pessoa que passa por ela.
O que aconteceu depois revelou ainda mais a natureza dessa disputa. Carlos Mariguella, que lutou contra a ditadura militar, tinha uma única homenagem na cidade: um bloco de pedra no local onde foi emboscado e assassinado pela polícia, na Alameda Casa Branca. Poucos sequer notam sua existência porque a placa explicativa é constantemente arrancada e nunca reposta. Quando tinta vermelha foi derramada sobre a pedra, a ironia era cortante. Enquanto a escultura de um bandeirante ganhava atenção e investigações, o monumento a um resistente da ditadura permanecia invisível e desprotegido.
No mesmo período, um graffiti em homenagem a Marielle, vereadora assassinada em 2018, foi vandalizado. Sobre sua imagem, alguém escreveu: viva Borba Gato. A mensagem era clara — uma tentativa de inverter o jogo das narrativas, de reafirmar qual figura merecia ser celebrada no espaço público.
O debate não é sobre destruição pela destruição. Não se trata de revisionismo histórico, como alguns argumentam. Enquanto uma homenagem permanecer nas ruas, ela segue viva na experiência cotidiana das pessoas, perpetuando um ponto de referência como algo digno de ser lembrado. A questão é: qual é o lugar apropriado para essas figuras? Um museu oferece contexto. Permite que uma geração futura veja aquela escultura e compreenda: era assim que os paulistas homenageavam aqueles que hoje são considerados genocidas. É documentação, não celebração.
O espaço público é um lugar de disputa. As imagens que colocamos nele fazem parte do imaginário coletivo, moldam como nos vemos e como vemos nosso passado. Há homenagens que precisam ser resgatadas, recuperadas, mantidas e produzidas — como a de Mariguella, que deveria ser impossível ignorar. Há outras que não podem mais fazer parte do espaço público, porque manter sua presença nos torna cúmplices permanentes do que essas figuras realizaram. Que sejam levadas para museus, onde possam ser estudadas com a devida distância crítica. Mas que também não se deixem queimar os museus no processo.
Citas Notables
Quem controla o passado controla o futuro— George Orwell, citado pelo filósofo Vladimir Safatle
Uma estátua não é apenas um monumento histórico, mas um marco de celebração— Vladimir Safatle
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que uma estátua importa tanto? É só pedra, é só metal.
Porque não é só isso. Uma estátua é um voto público. Diz ao mundo inteiro: essa pessoa merece ser celebrada aqui, neste lugar onde você caminha todos os dias. É uma decisão sobre quem importa.
Mas destruir monumentos não é apagar a história?
Não. A história está nos livros, nos arquivos, nos museus. O que está na rua é uma escolha sobre o presente. É dizer: queremos que essa figura continue sendo um ponto de referência para nós.
Então por que não simplesmente remover os monumentos problemáticos?
Porque remover é mais fácil do que enfrentar o que aquela figura representa. Um museu força você a olhar, a ler, a entender o contexto. A rua permite que você passe sem pensar.
E quanto aos ativistas que queimam as estátuas? Não estão fazendo a mesma coisa — apagando?
Estão acelerado um processo que deveria ser deliberado. Mas note: ninguém está queimando a estátua de Mariguella. Ela é invisível. A disputa não é simétrica.
O que você quer dizer?
Que algumas figuras ganham proteção, investigações, atenção. Outras são deixadas para apodrecer. Isso também é uma escolha sobre narrativa. É também controlar o passado.