Europa enfrenta dilema entre calor extremo e metas climáticas com baixa adoção de ar-condicionado

Milhões de europeus sofrem com temperaturas extremas e riscos à saúde associados ao calor intenso, especialmente durante ondas de calor noturnas.
As pessoas simplesmente não conseguem funcionar quando estão fervendo às 3 da manhã
Demanda por ar-condicionado triplicou em cinco anos conforme ondas de calor intensas atingem a Europa.

À medida que a Europa aquece duas vezes mais rápido que o restante do planeta, milhões de pessoas enfrentam noites sufocantes em casas despreparadas para o calor — enquanto a solução mais imediata, o ar-condicionado, permanece bloqueada por burocracia, regulamentações históricas e o peso dos compromissos climáticos de 2050. O continente se vê preso entre o imperativo humano de sobreviver ao calor presente e a responsabilidade coletiva de não aprofundar o aquecimento futuro. É uma tensão que revela, com clareza desconfortável, os limites de se construir um futuro sustentável sem antes resolver o sofrimento do presente.

  • Noites sem sono e riscos à saúde se multiplicam enquanto ondas de calor se tornam mais intensas e frequentes em todo o continente europeu.
  • Burocracia e leis de preservação histórica bloqueiam instalações de ar-condicionado mesmo quando a demanda mais que triplicou nos últimos cinco anos.
  • Cada aparelho instalado com energia fóssil alimenta o ciclo vicioso que aquece o planeta e exige ainda mais refrigeração — um paradoxo que nenhuma regulamentação ainda resolveu.
  • A IEA projeta 275 milhões de unidades de ar-condicionado na Europa até 2050, sinalizando que a adoção em massa é inevitável, independentemente das metas climáticas.
  • Especialistas alertam que a janela para regular a eficiência dos sistemas é agora — cada aparelho vendido hoje compromete emissões pelas próximas duas décadas.

Milhões de europeus enfrentam noites sufocantes enquanto o continente se aquece a uma velocidade duas vezes maior que o resto do planeta. Ainda assim, o ar-condicionado permanece raro nas residências europeias — não por falta de interesse, mas por uma combinação de obstáculos burocráticos, regulamentações de preservação histórica e compromissos climáticos que tornam a solução mais simples também a mais contraditória.

Richard Salmon, diretor de uma empresa britânica de refrigeração, relata que pedidos de instalação são frequentemente negados por questões puramente estéticas, especialmente em áreas históricas tombadas. Ao mesmo tempo, a Europa comprometeu-se com a neutralidade de carbono até 2050 — meta que seria seriamente ameaçada por uma adoção em massa de aparelhos que consomem energia intensamente e podem elevar a temperatura externa das cidades em até 4°C, como demonstrou um estudo realizado em Paris.

Mas a pressão do calor está mudando as atitudes. As consultas para instalação residencial mais que triplicaram em cinco anos, e especialistas como Yetunde Abdul, do Conselho de Construção Sustentável do Reino Unido, reconhecem que as casas precisam ser resilientes também ao calor. A professora Radhika Khosla, de Oxford, nomeia o problema central: ar-condicionado movido a combustíveis fósseis aquece o planeta, que por sua vez exige mais refrigeração — um ciclo que se retroalimenta.

A Agência Internacional de Energia prevê mais de 275 milhões de unidades na União Europeia até 2050. O verdadeiro desafio, segundo especialistas, será garantir que essa expansão inevitável aconteça com regulamentações rigorosas de eficiência — porque cada aparelho instalado hoje define o consumo de energia e as emissões dos próximos vinte anos.

Milhões de europeus enfrentam noites sufocantes enquanto o continente se aquece a uma velocidade alarmante — duas vezes mais rápido que o resto do planeta. Mas as casas permanecem quentes. O ar-condicionado, que poderia oferecer alívio imediato, permanece raro nas residências europeias, aprisionado por uma teia de obstáculos que vão muito além da simples falta de interesse.

Richard Salmon, diretor de uma empresa britânica especializada em refrigeração, conhece bem esses obstáculos. Frequentemente, as autoridades locais rejeitam pedidos para instalar ar-condicionado com base em questões puramente estéticas — a aparência da unidade condensadora externa é motivo suficiente para negar a instalação, especialmente em áreas de preservação histórica ou em edifícios tombados. A burocracia, ele explica, é muitas vezes o verdadeiro inimigo.

Mas há algo maior em jogo. A Europa se comprometeu a atingir neutralidade de carbono até 2050, uma meta que se tornaria significativamente mais difícil de alcançar com uma adoção em massa de ar-condicionado. Os aparelhos consomem quantidades enormes de energia e, além disso, liberam calor para o ambiente externo — um efeito particularmente prejudicial em cidades densas. Um estudo realizado em Paris descobriu que o ar-condicionado pode aumentar a temperatura externa entre 2 e 4 graus Celsius. Alguns países já tentaram conter o problema: a Espanha, em 2022, estabeleceu que o ar-condicionado em espaços públicos não pode ser ajustado abaixo de 27 graus Celsius como medida de economia energética.

No entanto, as atitudes estão mudando conforme o calor extremo se intensifica. Salmon relata que as consultas residenciais para instalação de ar-condicionado mais que triplicaram nos últimos cinco anos. As ondas de calor recentes aceleraram essa demanda de forma dramática — as pessoas simplesmente não conseguem dormir quando as temperaturas permanecem altas durante a madrugada. Yetunde Abdul, diretora do Conselho de Construção Sustentável do Reino Unido, reconhece a realidade: as casas precisam ser resilientes não apenas ao frio, mas também ao calor cada vez mais intenso.

Os números confirmam essa mudança de mentalidade. A Agência Internacional de Energia prevê que o número de unidades de ar-condicionado na União Europeia chegará a 275 milhões até 2050 — mais que o dobro do registrado em 2019. Mas essa expansão traz consigo um dilema incômodo. A maioria da energia que alimenta esses aparelhos ainda provém de combustíveis fósseis, criando o que Radhika Khosla, professora associada da Escola Smith de Negócios e Meio Ambiente da Universidade de Oxford, descreve como um ciclo vicioso: o ar-condicionado movido a combustíveis fósseis aumenta a poluição que aquece o planeta, o que por sua vez eleva as temperaturas, exigindo ainda mais refrigeração.

O continente enfrenta uma escolha sem saída fácil. Adotar ar-condicionado em larga escala significa consumir mais energia e potencialmente comprometer as metas climáticas. Recusar-se a adotá-lo significa deixar milhões de pessoas sofrendo durante ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes. A realidade, segundo especialistas, é que essa forma de pensar sobre ar-condicionado na Europa mudará inevitavelmente à medida que os impactos na saúde se tornarem mais visíveis e urgentes.

O verdadeiro desafio será garantir que quando essa adoção acontecer — e acontecerá — os países implementem regulamentações rigorosas sobre a eficiência dos sistemas de refrigeração. Cada aparelho vendido hoje tranca o consumo de energia e as emissões pelos próximos dez ou vinte anos. Fazer isso corretamente desde o início não é apenas uma questão de conforto; é uma questão de como o continente navegará seu futuro climático.

Nossas casas precisam ser resilientes não apenas ao frio, mas também ao calor cada vez mais intenso
— Yetunde Abdul, diretora do UK Green Building Council
Cada ar-condicionado vendido hoje trava o consumo de energia e as emissões pelos próximos dez ou vinte anos
— Especialista em política climática da IEA
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a Europa resistiu tanto ao ar-condicionado se o calor sempre foi um problema?

Model

Não era visto como um problema urgente até recentemente. O continente se acostumou com verões moderados e construiu suas cidades e casas com essa realidade em mente. Agora o clima mudou mais rápido do que as estruturas físicas e mentais conseguem acompanhar.

Inventor

Então é apenas uma questão de tempo até que todos tenham ar-condicionado?

Model

Provavelmente. Mas há um custo real nisso. Cada unidade que você instala hoje alimenta um ciclo que torna o planeta mais quente, o que significa mais demanda por refrigeração amanhã. É uma armadilha.

Inventor

A burocracia parece ser um obstáculo artificial. Por que as autoridades rejeitam instalações por razões estéticas?

Model

Porque a Europa valoriza a preservação histórica e a coesão visual das cidades. Uma unidade condensadora externa não é bonita. Mas quando você está acordado às 3 da manhã suando, essa preocupação estética começa a parecer um luxo.

Inventor

Qual é a solução real aqui?

Model

Não há uma solução simples. Você precisa de ar-condicionado mais eficiente, alimentado por energia renovável, mas também precisa de regulamentações que impeçam que as pessoas instalem sistemas antigos e poluentes apenas porque estão desesperadas pelo frio.

Inventor

E se a Europa simplesmente dissesse não ao ar-condicionado e investisse em outras formas de se manter fresco?

Model

Seria ideal, mas as pessoas não conseguem funcionar quando estão fervendo. A saúde está em risco. No fim, o calor extremo vence a ideologia climática.

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