É como se perdessem seus sensores morais temporariamente
Os sedativos benzodiazepínicos usados na endoscopia causam amnésia e perda de inibição, não o exame em si, permitindo comportamentos que normalmente seriam contidos. Pacientes podem ficar agitados, agressivos ou emocionalmente descontrolados durante a sedação, similar aos efeitos do álcool, perdendo seus 'sensores morais' temporariamente.
- Benzodiazepínicos causam amnésia e perda de inibição, não o exame
- Procedimento dura 10 a 15 minutos; recuperação de 20 a 30 minutos
- Pacientes devem repousar 24 horas e não podem dirigir após o procedimento
- Medicamentos são controlados e exigem monitorização respiratória e circulatória
Sedativos usados em endoscopia digestiva podem causar amnésia, comportamento desinibido e crises emocionais. Os benzodiazepínicos inibem o sistema nervoso central, levando pacientes a revelar segredos ou agir sem controle durante o procedimento.
Há um medo que muitos pacientes carregam antes de entrar na sala de endoscopia: o de acordar sem lembrar do que fizeram, ou pior, de ter dito coisas que nunca diriam em sã consciência. A dentista Julianne Robson, de São Luís, viveu exatamente isso em 2016. Quando acordou após o procedimento, um funcionário da clínica a levava para a sala de recuperação. Ela havia feito elogios a ele, flertado abertamente, mas não guardava nenhuma lembrança disso. "Na hora, achei ele muito bonito, porém, hoje em dia, não tenho certeza se ele era bonito mesmo ou se foi efeito da sedação", lembra. Na época ela namorava, mas a sedação havia desativado seus filtros sociais.
O culpado não é o exame em si — um procedimento seguro que insere uma microcâmera pela boca para examinar esôfago, estômago e duodeno. O responsável pelos comportamentos inesperados são os sedativos administrados para que o paciente relaxe e não sinta desconforto. A maioria das clínicas e hospitais usa benzodiazepínicos, uma classe de medicamentos que reduzem ansiedade e induzem o sono. Segundo Daniel Queiroz, chefe do serviço de anestesia para endoscopia digestiva do Hospital São Vicente de Paulo no Rio de Janeiro, esses remédios atuam no sistema nervoso central e possuem duas características marcantes. A primeira é que causam amnésia mesmo em doses baixas — o paciente acorda sem lembrar de praticamente nada do que aconteceu durante o procedimento. A segunda, menos benéfica, é que podem gerar confusão mental e agitação. "Nas fases iniciais da sedação, o paciente pode ficar agitado, agressivo, porque fica incapaz de agir com coerência", explica Queiroz. O efeito é muito similar ao do álcool: a pessoa faz coisas que normalmente não faria, revela segredos, perde seus "sensores morais".
A jornalista Daniela Castro, de Fortaleza, passou por uma crise de riso incontrolável após sua endoscopia em 2013. "Não consegui parar de rir", relata. Ela precisou ser levada para uma sala de espera enquanto o riso descontrolado diminuía — o processo levou cerca de uma hora e meia, e mesmo assim ela saiu do local ainda rindo. Hoje, quando precisa fazer o exame novamente, as enfermeiras já sabem o que esperar. Do outro lado da moeda está Júlia Ribeiro, de São Bernardo do Campo, que acordou chorando após o procedimento. Por ter colite ulcerativa, uma doença inflamatória do intestino grosso, ela precisa fazer endoscopia anualmente. Naquela ocasião, havia conversado bastante com uma das enfermeiras antes do exame, e quando acordou, começou a chorar porque não queria ir embora e desejava continuar conversando com a profissional. "Não senti aquele soninho gostoso", lembrou.
Camila de Oliveira, estagiária de Santa Maria, fez o exame em 2019 por suspeita de gastrite. Após acordar, ela passou cerca de 30 minutos em repouso — o tempo médio de recuperação — e não se lembrava de quase nada. Sua mãe brincou que, mesmo sedada, ela não parava de falar: havia mandado várias mensagens no WhatsApp e conversado com outro paciente, mas não guardava memória de nenhuma dessas ações. Segundo Herbeth Toledo, endoscopista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva, o procedimento em si é rápido, durando entre 10 e 15 minutos. Na sala de recuperação, o paciente fica geralmente 20 a 30 minutos antes de poder ir para casa com um acompanhante.
É importante notar que esses medicamentos são de uso controlado, vendidos sob prescrição médica, e utilizados apenas em procedimentos minimamente invasivos ou cirurgias em ambiente hospitalar. Diferentes clínicas e hospitais usam combinações variadas, que podem incluir opioides para potencializar o efeito sedativo ou até propofol, um anestésico geral, em vez de benzodiazepínicos. Se usados em grandes quantidades sem orientação adequada, podem causar efeitos colaterais graves, incluindo parada cardíaca. Por isso, toda sedação exige monitorização respiratória e circulatória, além de equipamentos para oxigenação e ventilação. Pacientes idosos, obesos, muito abaixo do peso, ou com comprometimento respiratório devem fazer o exame preferencialmente no hospital, onde há suporte de unidade de terapia intensiva disponível em caso de complicações.
Os especialistas orientam que pacientes devem permanecer em repouso por 24 horas após o procedimento para que os efeitos dos sedativos desapareçam completamente — um processo que ocorre de forma gradativa ao longo do dia. Por isso não é recomendado tomar grandes decisões nesse período, nem dirigir, andar de bicicleta ou moto. A mensagem que fica é que o exame é seguro e confortável quando realizado adequadamente. O paciente não sente nada durante o procedimento e pode retornar para casa em pouco tempo, desde que acompanhado por um maior de 18 anos. A endoscopia digestiva é indicada para pacientes com sintomas como dor no estômago, refluxo, queimação ou perda de peso, com o objetivo de avaliar possíveis inflamações como gastrite e esofagite, além de rastrear tumores nas regiões do aparelho digestivo alto.
Citas Notables
Mesmo com doses mais baixas, com foco na ansiedade, eles podem levar à amnésia, ou seja, mesmo acordada, a pessoa pode não lembrar de nada do que aconteceu— Daniel Queiroz, chefe do serviço de anestesia para endoscopia digestiva do Hospital São Vicente de Paulo
É aquela velha história que, depois de tomar o sedativo, ela vai contar segredos. Por isso as pessoas brincam que é o 'soro da verdade'— Daniel Queiroz
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que as pessoas têm tanto medo de fazer endoscopia? É realmente perigoso?
O medo não vem do exame em si, que é bastante seguro. Vem dos sedativos. As pessoas têm receio de acordar sem lembrar do que fizeram, ou de ter revelado segredos, ou de ter agido de forma completamente fora de controle.
E isso realmente acontece?
Acontece, mas não é culpa do exame. Os benzodiazepínicos usados para sedação desativam temporariamente aquilo que poderíamos chamar de "filtro social" da pessoa. É como se perdessem seus sensores morais. Alguém pode chorar, rir descontroladamente, fazer elogios inapropriados — coisas que nunca faria acordada.
Quanto tempo dura esse efeito?
A amnésia pode ser imediata — a pessoa acorda sem lembrar de nada. Mas os efeitos dos sedativos levam cerca de 24 horas para passar completamente. Por isso é que os médicos recomendam repouso nesse período e proíbem dirigir ou tomar decisões importantes.
Se é tão comum essas reações emocionais, por que os médicos continuam usando esses medicamentos?
Porque são seguros quando administrados corretamente, com monitorização adequada. O paciente não sente desconforto durante o procedimento, o que é importante. E a amnésia, paradoxalmente, é útil — ninguém quer lembrar de um tubo passando pela garganta.
Há alguma forma de evitar esses comportamentos descontrolados?
Não há como evitar completamente. É um efeito colateral esperado dos sedativos. O que os hospitais fazem é monitorar o paciente, ter um acompanhante presente e deixar claro que isso é temporário e normal.
E se alguém tiver uma reação muito forte, como aquela jornalista que não parava de rir?
Eles esperam. A pessoa fica em uma sala de recuperação até que o efeito diminua. No caso da jornalista, levou uma hora e meia, mas ela saiu bem. O importante é que há profissionais ali para garantir que nada de grave aconteça.