Por que algumas pessoas desenvolvem múltiplos tipos de câncer ao longo da vida

Jornalista Susana Napolini faleceu aos 49 anos após enfrentar múltiplos cânceres (linfoma de Hodgkin, mama, tireoide e bacia com metástases) ao longo de três décadas.
Algumas células conseguem resistir ao tratamento e, anos depois, se multiplicam descontroladamente
Explicação de como metástases podem surgir anos após o tratamento inicial do câncer.

A morte da jornalista Susana Napolini, aos 49 anos após três décadas enfrentando múltiplos cânceres, convida a medicina e a sociedade a contemplar uma realidade que poucos imaginam: para algumas pessoas, o câncer não é um evento isolado, mas uma condição que retorna sob diferentes formas ao longo de toda uma vida. Por trás dessa trajetória estão mecanismos complexos — predisposição genética, células tumorais dormentes que resistem ao tratamento e um sistema imunológico que, mesmo após se recuperar, não consegue suprimir todos os riscos. A ciência avança, mas a vulnerabilidade humana diante dessas forças biológicas permanece uma das fronteiras mais desafiadoras da medicina contemporânea.

  • Susana Napolini faleceu aos 49 anos após enfrentar pelo menos seis tratamentos contra diferentes tipos de câncer iniciados desde os 18 anos, expondo a brutalidade de uma doença que pode se reinventar ao longo de décadas.
  • Pacientes tratados de linfoma de Hodgkin carregam um risco até quatro vezes maior de desenvolver um segundo câncer, e cânceres de mama e tireoide aparecem com frequência particularmente alta nesse grupo.
  • Células tumorais podem permanecer dormentes no organismo por anos, resistindo à quimioterapia e reaparecendo silenciosamente em ossos, pulmão, fígado ou cérebro muito depois do tratamento inicial.
  • Quando a cura deixa de ser possível, o objetivo médico se desloca para preservar qualidade de vida — com controle de sintomas, atividade física e alimentação adequada como pilares do cuidado contínuo.
  • O diagnóstico precoce permanece a ferramenta mais eficaz: quanto antes a doença é identificada, menores são as chances de recidiva e maiores as possibilidades de tratamento bem-sucedido.

A morte da jornalista Susana Napolini, aos 49 anos, reacendeu uma pergunta que médicos e pacientes enfrentam com frequência: por que algumas pessoas desenvolvem não um, mas vários tipos de câncer ao longo da vida? A trajetória de Napolini foi longa e complexa — começou aos 18 anos com um linfoma de Hodgkin, passou por tumores na mama e na tireoide quase duas décadas depois, e culminou em um câncer na bacia com metástases na medula óssea e outros órgãos.

O linfoma de Hodgkin, embora altamente curável, carrega um risco particular: pacientes que o trataram enfrentam até quatro vezes mais chance de desenvolver um segundo câncer em comparação à população geral. O oncologista Fernando de Moura aponta que câncer de mama e de tireoide aparecem com incidência especialmente elevada nesse grupo. Como o linfoma costuma atingir adultos jovens, os sobreviventes convivem com esse risco aumentado por décadas.

Além disso, alguns pacientes carregam predisposição genética para múltiplos tumores. A cirurgiã oncológica Marina Canal Budib explica que certos cânceres são metastáticos por natureza — um tumor de mama, por exemplo, pode migrar para pulmão, osso ou sistema nervoso central, viajando tanto pelos vasos linfáticos quanto pela corrente sanguínea. Células tumorais podem ainda permanecer dormentes no organismo por anos, resistindo ao tratamento e reaparecendo de forma descontrolada muito tempo depois.

O sistema imunológico desempenha papel central nesse processo. A quimioterapia o deixa temporariamente vulnerável, mas Budib ressalta que, com boa alimentação e repouso, ele se restabelece após o tratamento. Quando a cura não é mais possível, o foco médico se volta para a qualidade de vida — controle de sintomas, atividade física e alimentação saudável. E o diagnóstico precoce permanece essencial: quanto antes a doença é identificada, menores são os riscos de recidiva.

A morte da jornalista Susana Napolini, aos 49 anos, na terça-feira 25 de outubro, trouxe à tona uma pergunta que médicos e pacientes enfrentam com frequência: por que algumas pessoas desenvolvem não um, mas vários tipos de câncer ao longo de suas vidas? No caso de Napolini, a trajetória foi particularmente longa e complexa. Aos 18 anos, ela recebeu o diagnóstico de linfoma de Hodgkin. Quase vinte anos depois, enfrentou um tumor maligno nas mamas e outro na tireoide. Mais recentemente, descobriu um câncer na bacia que já havia se espalhado para a medula óssea e outros órgãos. Ao todo, foram pelo menos seis tratamentos contra a doença desde aquele primeiro diagnóstico na juventude.

O linfoma de Hodgkin, embora altamente curável, carrega consigo um risco particular. Representa apenas 0,5% de todas as neoplasias malignas e 10% de todos os linfomas, mas pacientes que o trataram — seja com quimioterapia isolada ou combinada com radioterapia — enfrentam um risco até quatro vezes maior de desenvolver um segundo câncer quando comparados à população em geral. Fernando de Moura, oncologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo e colaborador do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, aponta que câncer de mama e câncer de tireoide aparecem com incidência particularmente elevada neste grupo de pacientes. O linfoma de Hodgkin costuma ser diagnosticado em adultos jovens, com pico entre 20 e 35 anos de idade, o que significa que sobreviventes enfrentam décadas de vida com esse risco aumentado.

Além do risco elevado após tratamento anterior, existem outros mecanismos em jogo. Alguns pacientes carregam predisposição genética para desenvolver múltiplos tipos de tumor. Marina Canal Budib, cirurgiã oncológica da Unidade Morumbi do Hospital Leforte, explica que há tumores que são metastáticos por natureza — o mesmo tipo de câncer pode se espalhar para diversos locais do corpo. Um câncer de mama, por exemplo, pode migrar para pulmão, osso, pleura ou sistema nervoso central, comportando-se como uma doença sistêmica que viaja tanto pelos vasos linfáticos quanto pela corrente sanguínea.

No caso específico de Napolini, o câncer de mama havia progredido para estágio avançado com metástases. Um estudo populacional brasileiro recente mostrou que cerca de 6% dos casos de câncer de mama no país já são diagnosticados com metástases presentes. Mesmo aqueles diagnosticados em estágios mais iniciais correm o risco de recorrência anos após o tratamento inicial, com a doença reaparecendo em ossos, pulmão, fígado ou cérebro. Isso ocorre porque algumas células tumorais conseguem atingir o sistema linfático ou a corrente sanguínea e permanecem dormentes, resistindo ao tratamento. Moura explica que diversos fatores — muitos ainda desconhecidos — contribuem para que essas células resistam à quimioterapia, permaneçam vivas e, anos depois, se multipliquem de forma descontrolada.

O sistema imunológico também desempenha papel crucial. Falhas nesse sistema podem permitir que tumores resistam ao longo do tempo. A quimioterapia, embora necessária, deixa o sistema imunológico temporariamente vulnerável. Budib ressalta, porém, que após o término da quimioterapia, com boa alimentação e repouso adequado, o sistema imunológico se restabelece. O tratamento do câncer sempre tem como primeiro objetivo aumentar as chances de cura, mas quando a cura não é mais possível, o foco muda para aumentar a expectativa de vida mantendo qualidade. Isso inclui controle de sintomas através do tratamento oncológico proposto, prática de atividade física que auxilia na recuperação cardiopulmonar e imunológica, além de alimentação saudável. O diagnóstico precoce permanece essencial — quanto mais cedo a doença é identificada, menor é o risco de recidiva.

Pacientes que trataram linfoma de Hodgkin têm risco até quatro vezes maior de ter um segundo câncer quando comparado à população em geral
— Fernando de Moura, oncologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo
Diversos fatores, muitos deles ainda desconhecidos, contribuem para que algumas células tumorais resistam ao tratamento, continuem vivas e, anos depois, se multipliquem de forma descontrolada
— Fernando de Moura, oncologista
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o linfoma de Hodgkin deixa as pessoas tão vulneráveis a outros cânceres depois?

Model

Porque os tratamentos que salvam a vida — quimioterapia e radioterapia — danificam células saudáveis além das tumorais. Esse dano pode levar décadas para se manifestar como um novo câncer.

Inventor

Então a cura do primeiro câncer planta as sementes do segundo?

Model

Não exatamente. O risco aumenta, mas a maioria dos sobreviventes de linfoma de Hodgkin não desenvolve outro câncer. É uma probabilidade maior, não uma certeza.

Inventor

E a predisposição genética — isso significa que estava escrito no DNA de Susana que ela teria múltiplos cânceres?

Model

Pode significar que seu corpo tem dificuldade em controlar o crescimento celular anormal. Mas genes não são destino. Muitas pessoas com predisposição nunca desenvolvem câncer.

Inventor

Como uma célula cancerosa consegue escapar do tratamento?

Model

Alguns tumores têm células que conseguem resistir à quimioterapia. Elas ficam dormentes, circulando no corpo, e anos depois podem acordar e se multiplicar novamente.

Inventor

O sistema imunológico não deveria impedir isso?

Model

Deveria, mas falhas no sistema imunológico — algumas ainda desconhecidas — permitem que essas células resistentes sobrevivam. A quimioterapia também enfraquece temporariamente a imunidade.

Inventor

Então não há nada que se possa fazer?

Model

Há. Diagnóstico precoce reduz muito o risco. E depois do tratamento, atividade física, alimentação saudável e acompanhamento médico regular ajudam a manter o sistema imunológico forte.

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