A água doce que escorre para o oceano não tem voltado para abastecer o continente
Geadas e secas em 2021 prejudicaram colheitas de café e grãos, elevando preços de alimentos que já consomem 60% do salário mínimo brasileiro. Banco Mundial estima que mudanças climáticas levarão 132 milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030, afetando desproporcionalmente mulheres e grupos vulneráveis.
- Desemprego no Ceará cresceu 30,6% em um ano; renda média caiu 14%
- Cesta básica custa R$ 650, quase 60% do salário mínimo de R$ 1.100
- Produção de milho caiu 25,7%; produção total de grãos caiu 1,2%
- Brasil perdeu 15,7% de suas áreas de água doce em 35 anos
- Banco Mundial estima 132 milhões de pessoas em pobreza extrema até 2030 por mudanças climáticas
Aquecimento global reduz produtividade agrícola e eleva inflação alimentar, enquanto desemprego no Ceará cresce 30,6% e renda média cai 14%, aprofundando desigualdades socioeconômicas.
O Brasil enfrenta uma convergência de crises que se reforçam mutuamente. Enquanto o desemprego no Ceará cresceu 30,6% em um ano e a renda média dos trabalhadores caiu 14%, o país sofre com uma inflação alimentar impulsionada por fatores climáticos que não mostram sinais de reversão. A cesta básica nacional custa atualmente R$ 650, quase 60% do salário mínimo de R$ 1.100, deixando milhões de brasileiros com poder de compra cada vez menor.
As geadas de julho de 2021 e as secas prolongadas que as precederam destruíram plantações de café e grãos em todo o país. O milho foi a cultura mais afetada, com queda de 25,7% na produtividade, chegando a 86,7 milhões de toneladas. A produção brasileira de grãos caiu 1,2%, passando de 260,8 milhões para 254 milhões de toneladas. Banana, batata, laranja, limão, tomate e manga ficarão mais caros nos próximos meses. Com previsões de La Niña para setembro, que atrasa as chuvas na região sudeste, a seca deve se agravar e os preços devem continuar subindo em 2022.
O aquecimento global é o fio condutor dessa crise. Desde o período pré-industrial, a temperatura média do planeta subiu 1,1°C. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, se as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas significativamente, a temperatura pode subir entre 1,5°C e 2°C neste século. Um aumento de 2°C causaria perda de 10% do PIB global até 2050, segundo relatório da Swiss Re. Suely Salgueiro, doutora em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília e professora da Universidade Federal do Ceará, explica que o clima define 30% do desempenho da produção de alimentos. Os outros 70% dependem de insumos, fertilizantes, genética e práticas agrícolas. Um problema climático afeta a produtividade independentemente de todo investimento em tecnologia.
As consequências sociais são devastadoras. O Banco Mundial estima que as mudanças climáticas levarão 132 milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030, sendo 44 milhões delas vítimas de doenças provocadas direta ou indiretamente pelas alterações climáticas. A pandemia de Covid-19 deixou a maioria dos países com altos níveis de dívida e menos recursos para investir em desenvolvimento socioeconômico, reduzindo acesso a saúde e infraestrutura. Mulheres representam 70% da população mundial mais vulnerável e 80% das pessoas deslocadas por desastres ambientais. Estudos de agências das Nações Unidas mostram que a crise climática leva famílias a retirarem meninas da escola para trabalho doméstico, enquanto aumenta os índices de violência de gênero, casamento infantil e complicações na gravidez.
O Brasil está perdendo sua capacidade de regular seu próprio clima. Nos últimos 35 anos, o país perdeu 15,7% de suas áreas de água doce — 31 mil km² que evaporaram definitivamente, como se o Sistema Cantareira, que abastece São Paulo, tivesse sido esvaziado 16 vezes. O Pantanal, a maior planície inundável do planeta, viu sua água superficial reduzir 68% entre 1985 e 2020. A Amazônia, que deveria ser o pulmão do planeta, registrou redução de 10,4% em água doce no mesmo período. Cássio Bernadino, coordenador de projetos do WWF-Brasil, avalia que são dados alarmantes: o Pantanal está secando, está morrendo.
O desmatamento intenso da Amazônia na última década criou uma situação crítica. Na zona conhecida como arco do desmatamento, onde a devastação avança mais rápido, propriedades rurais construíram mais de 50 mil reservatórios, a grande maioria irregular. Esses reservatórios estão localizados nas cabeceiras dos rios, reduzindo o fluxo de água para os cursos principais e desregulando a máquina natural de produção de chuvas que é a floresta. Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, ressalta que essa redução de água na maior bacia hidrográfica do mundo é uma enormidade. A água doce que escorre para o oceano não tem voltado para abastecer o continente em forma de chuvas.
Suely Salgueiro resume o dilema: toda crise é desfavorável aos diversos extratos sociais, mas é devastadora àqueles que já lutam pelo mínimo de dignidade. A imensa dívida social que todas as sociedades têm com os excluídos fica totalmente nítida diante da crise climática, que tende a aprofundar as desigualdades — não apenas dos pobres, mas também dos negros, das mulheres, da comunidade LGBTQIA+, das crianças e idosos. O aquecimento global, segundo o IPCC, já é irreversível e sem precedentes. Eventos extremos estão a ponto de se tornarem inevitáveis, e a influência do ser humano nas mudanças do clima é inequívoca.
Citas Notables
O principal impacto negativo é o aumento de preços generalizados. A percepção mais forte vem dos alimentos in natura, por conta de colheitas prejudicadas por enchentes, geadas e estiagens.— Suely Salgueiro, doutora em Desenvolvimento Sustentável pela UnB
A imensa dívida social que todas as sociedades têm com os excluídos fica totalmente nítida diante da crise climática, que tende a aprofundar as desigualdades.— Suely Salgueiro
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o desemprego no Ceará cresceu tanto enquanto a população empregada também aumentou?
Porque o mercado de trabalho se fragmentou. Mais pessoas entraram em ocupações informais ou precárias — aquelas que não oferecem proteção, benefícios ou estabilidade. O crescimento do emprego não significa melhoria de vida.
E a queda de 14% na renda média? Isso é só inflação?
Não é só inflação. É a combinação de salários reais em queda com preços de alimentos disparando. A cesta básica consome 60% do salário mínimo. Quando você ganha menos e paga mais pela comida, o poder de compra desaba.
O que as geadas de julho têm a ver com pobreza extrema em 2030?
Tudo. Quando a colheita de café falha por geada, o preço sobe. Quando o milho cai 25% em produtividade, a inflação alimentar se generaliza. Pessoas pobres gastam a maior parte da renda com comida. Quando comida fica cara, elas caem na pobreza extrema.
Mas o Brasil não deveria ter água de sobra com a Amazônia e o Pantanal?
Deveria, mas não tem mais. O Pantanal perdeu 68% de sua água em 35 anos. A Amazônia perdeu 10,4%. E o desmatamento está destruindo a máquina natural que produz chuva. Sem floresta, sem chuva. Sem chuva, sem água.
Esses 50 mil reservatórios irregulares — quem está construindo?
Proprietários rurais na fronteira agrícola. Eles precisam de água para a seca, mas estão construindo nas cabeceiras dos rios. Isso significa menos água escoando para o resto do sistema. É um roubo de água do futuro.
E as mulheres? Por que elas são 80% dos desabrigados por desastres?
Porque vulnerabilidade se acumula. Mulheres já ganham menos, têm menos acesso a recursos, menos poder de decisão. Quando vem um desastre ambiental, elas são as primeiras a perder tudo e as últimas a se recuperar. E aí vem a violência de gênero, o casamento infantil, a exploração.