One Health divide especialistas em debate sobre integração de saúde

Jovem de 22 anos morreu 10 meses após intoxicação por metanol em gim adulterado, com sequelas graves incluindo perda da visão.
Os riscos à saúde mental não podem ser inferiores aos riscos físicos
Desembargador justifica autorização de bloqueio hormonal para jovem trans apesar de restrição do CFM.

No campo da saúde coletiva brasileira, um debate antigo ressurge com nova urgência: a Saúde Única — que propõe integrar saúde humana, animal e ambiental — é ferramenta indispensável ou paradigma que já cumpriu seu ciclo? A revista Radis deu voz a posições irreconciliáveis, revelando que por trás de um conceito aparentemente técnico escondem-se disputas sobre soberania, hegemonia e os fundamentos do que significa fazer saúde pública no Brasil. Enquanto uns veem na fragmentação a raiz dos desastres sanitários, outros enxergam no modelo uma importação que apaga conquistas nacionais.

  • A pandemia de covid-19 expôs, de forma brutal, o custo da desconexão entre setores da saúde — e esse trauma alimenta a defesa apaixonada da integração proposta pela Saúde Única.
  • Críticos como Lia Giraldo alertam que o modelo não é neutro: sua adoção pode significar a erosão de décadas de construção da política de saúde brasileira em favor de uma agenda externa.
  • Pesquisadores do Cebes vão além da crítica política e questionam a própria base científica do conceito, apontando que ele repousa sobre teorias ultrapassadas sobre a origem das doenças.
  • Um tribunal federal desafiou o Conselho Federal de Medicina ao autorizar bloqueio hormonal para uma adolescente trans de 13 anos, colocando saúde mental e dignidade no centro da disputa jurídica.
  • O surto de ebola na África ameaça se tornar o pior da história, enquanto no Brasil a morte de um jovem por gim adulterado com metanol lembra que os riscos mais imediatos à saúde pública muitas vezes chegam por caminhos ordinários.

A revista Radis abriu espaço para um confronto que divide a comunidade científica brasileira: a Saúde Única — modelo que propõe tratar saúde humana, animal e ambiental como um sistema integrado — é o futuro da saúde pública ou um conceito já esgotado?

David Soeiro Barbosa defende o modelo com convicção. Para ele, a pandemia de covid-19 demonstrou de forma dolorosa o que acontece quando diferentes áreas da saúde operam em silos: a fragmentação custou vidas. A Saúde Única seria, nessa leitura, o antídoto necessário para uma política de saúde mais coesa e eficaz no Brasil.

Lia Giraldo discorda com igual firmeza. Ela enxerga no movimento em torno da Saúde Única uma disputa por hegemonia que, ao se impor, atropela avanços já consolidados no país. Mais grave: segundo ela, há interesses ocultos nesse processo que podem comprometer a soberania da política de saúde brasileira. Pesquisadores do Cebes reforçam a crítica por outro ângulo, questionando os próprios alicerces científicos do conceito e negando que ele traga inovação real.

Em paralelo, um tribunal federal contrariou o Conselho Federal de Medicina ao autorizar o bloqueio hormonal de uma jovem trans de 13 anos. O desembargador Roger Raupp Rios ponderou que os riscos à saúde mental da paciente — incluindo exposição a discriminação e bullying — não podem ser automaticamente subordinados às incertezas físicas apontadas pelo CFM, e destacou a reversibilidade do tratamento como fator relevante.

A agenda de saúde pública acumula ainda outros alertas: especialistas preveem que o atual surto de ebola na África pode superar todos os anteriores em gravidade; uma comissão legislativa avançou na inclusão de orientação sexual em protocolos de prevenção do câncer; e a morte de Guilherme Torres, 22 anos, dez meses após consumir gim adulterado com metanol, reacendeu o debate sobre a adulteração de bebidas e seus efeitos devastadores — ele perdeu a visão antes de morrer.

A revista Radis colocou em debate público uma questão que divide a comunidade científica brasileira: a chamada One Health, ou Saúde Única, realmente representa o caminho para melhorar a saúde no país, ou é um modelo que já perdeu sua relevância? O conceito em questão propõe reconhecer e trabalhar com a interconexão entre a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental como um sistema integrado. Parece simples. Mas as opiniões sobre sua utilidade prática divergem radicalmente.

David Soeiro Barbosa vê na Saúde Única uma ferramenta essencial. Para ele, o modelo oferece exatamente o tipo de diálogo e integração que o Brasil precisa para fortalecer sua política de saúde. Ele aponta para a pandemia de covid-19 como prova viva de por que essa integração importa: os desastres que ocorreram durante aquele período, segundo sua análise, resultaram diretamente da fragmentação entre diferentes áreas da saúde e da falta de comunicação entre setores que deveriam estar conversando.

Lia Giraldo, porém, vê a situação de forma completamente oposta. Para ela, o modelo One Health não é apenas ultrapassado — é problemático. Ela argumenta que seus defensores parecem estar em busca de hegemonia no campo da saúde pública, e que nesse processo acabam ignorando avanços que já foram consolidados no Brasil ao longo dos anos. Pior ainda, segundo sua perspectiva, essa postura se baseia em ocultamentos de interesses que podem colocar em risco a soberania da política de saúde brasileira.

Pesquisadores vinculados ao Cebes, o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, adicionam outra camada à crítica. Eles questionam os próprios fundamentos científicos sobre os quais o conceito de One Health se apoia, argumentando que ele se baseia em ideias obsoletas sobre como as doenças surgem naturalmente. Segundo essa avaliação, o modelo não apresenta inovação real que justifique sua adoção como paradigma orientador.

Em outro tema que ocupa a agenda de saúde pública, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região tomou uma decisão que contraria a posição do Conselho Federal de Medicina. O tribunal autorizou o bloqueio hormonal para uma jovem de 13 anos, mesmo diante da proibição que o CFM impôs desde o ano passado para pessoas trans menores de idade. O desembargador federal Roger Raupp Rios fundamentou sua decisão considerando os riscos à saúde mental da paciente, a indicação médica individualizada e o acompanhamento especializado de longo prazo como fatores que justificam a não aplicação automática da norma.

O CFM justifica sua restrição apontando incertezas quanto aos benefícios de longo prazo do bloqueio hormonal e possíveis riscos relacionados à saúde óssea, ao desenvolvimento sexual e à fertilidade. Mas para o desembargador, as possibilidades de exposição a discriminação e bullying, bem como os riscos à saúde mental da paciente, não podem ser consideradas inferiores aos possíveis riscos físicos. Ele também ressaltou que o bloqueio hormonal é reversível, caso seja necessário interromper o tratamento.

Entre as demais questões que ocupam a agenda de saúde pública neste momento, o chefe dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças da África alertou que o surto atual de ebola pode se tornar o pior já registrado, com especialistas prevendo que será necessário mais de um ano para controlar a epidemia. Uma comissão legislativa aprovou um projeto que inclui orientação sexual em exames preventivos de câncer, reconhecendo que a falta de protocolos específicos para diferentes grupos de mulheres, como as lésbicas, pode comprometer a eficácia do diagnóstico. E uma morte recente trouxe à tona novamente o problema da adulteração de bebidas alcoólicas: Guilherme Torres, de 22 anos, morador de Itapecerica da Serra, morreu dez meses após consumir gim adulterado com metanol em agosto de 2025, deixando sequelas graves que incluíram a perda da visão.

Ignoram os avanços já consolidados no país, pautando-se por ocultamentos de interesses, gerando riscos à soberania da política de saúde
— Lia Giraldo, crítica do modelo One Health
As possibilidades de exposição a discriminação e bullying, bem como os riscos à saúde mental da paciente, não podem ser consideradas inferiores aos possíveis riscos físicos
— Desembargador federal Roger Raupp Rios
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que esse debate sobre One Health está dividindo tanto os especialistas agora?

Model

Porque toca em algo fundamental: como organizamos o conhecimento e a ação em saúde pública. Para alguns, integrar saúde humana, animal e ambiental é a única forma de evitar os erros que cometemos na pandemia. Para outros, isso é uma tentativa de impor uma nova hegemonia que ignora o que já funciona no Brasil.

Inventor

E o que os pesquisadores do Cebes estão questionando exatamente?

Model

Eles dizem que o conceito se baseia em ideias antigas sobre como as doenças surgem naturalmente, e que não traz inovação real. É uma crítica mais profunda — não é só sobre política, é sobre se a ciência por trás disso realmente sustenta o modelo.

Inventor

A decisão do tribunal sobre bloqueio hormonal para a jovem trans parece ir contra o CFM. Como isso se resolve?

Model

O tribunal reconheceu que os riscos à saúde mental — discriminação, bullying — são tão reais quanto os riscos físicos que o CFM cita. E apontou que o tratamento é reversível. Mas isso não resolve a tensão: o CFM continua com sua proibição, e agora há jurisprudência contrária.

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Qual é o risco maior aqui — os riscos físicos do bloqueio hormonal ou os riscos psicológicos de não fazer o tratamento?

Model

O desembargador decidiu que não dá para hierarquizar assim. Ambos são reais. Mas a decisão reconhece que para essa jovem específica, com acompanhamento especializado, os riscos psicológicos de não tratar eram maiores.

Inventor

E essas outras questões — ebola, metanol, câncer — como se conectam?

Model

Não se conectam diretamente, mas mostram a amplitude da agenda de saúde pública neste momento. Desde epidemias até a qualidade dos produtos que as pessoas consomem, passando por como diagnosticamos doenças em grupos específicos. É tudo saúde, mas fragmentado.

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