A queda não eliminou as diferenças estruturais que marcam a pobreza
Em nove anos, o Brasil reduziu pela metade a proporção de sua população em situação de pobreza multidimensional — uma transformação que alcançou todas as regiões e faixas de renda do país. O IBGE, medindo não apenas renda mas seis dimensões da vida familiar, registrou que cerca de 38 milhões de brasileiros saíram dessa condição entre 2008 e 2017. Ainda assim, as estruturas que organizam a desigualdade resistiram à melhora geral: famílias negras continuam três vezes mais pobres que as brancas, e quase dois terços da população vivem em algum grau de vulnerabilidade. O progresso é real, mas a distância entre quem avança e quem fica para trás permanece como uma questão moral aberta.
- Em menos de uma década, 38 milhões de brasileiros deixaram a pobreza multidimensional — uma das maiores reduções sociais da história recente do país.
- Apesar da queda generalizada, famílias chefiadas por pessoas pretas e pardas ainda registram índices de pobreza quase três vezes maiores que os de famílias brancas, revelando que a melhora não desfez as hierarquias estruturais.
- A pobreza no Brasil não é um problema de renda isolado: falta de acesso a serviços financeiros, educação precária e transporte insuficiente respondem juntos por mais da metade do peso do índice.
- Cerca de 132 milhões de brasileiros — quase dois terços da população — ainda viviam em alguma situação de vulnerabilidade em 2017-2018, mesmo após anos de avanço.
- Os dados param em 2018 e não capturam os efeitos da pandemia de COVID-19, deixando em aberto se a tendência positiva sobreviveu à maior crise sanitária e econômica do século.
Dois em cada dez brasileiros vivem em algum grau de pobreza. Uma década atrás, eram quatro em cada dez. Os números divulgados pelo IBGE revelam uma transformação significativa — mas também expõem desigualdades que não se dissolveram com o progresso geral.
O Índice de Pobreza Multidimensional recuou de 6,7 para 2,3 entre 2008-2009 e 2017-2018, uma queda de 65% que beneficiou cerca de 38 milhões de pessoas. O estudo não mede pobreza apenas pela renda: examina seis dimensões da vida familiar — moradia, serviços públicos, saúde, educação, acesso financeiro e transporte — a partir de 50 indicadores. Uma família é considerada pobre quando sofre perdas em pelo menos um terço dessas categorias.
A melhora foi ampla, mas não igualitária. Famílias chefiadas por pessoas pretas ou pardas continuam com índices de pobreza quase três vezes maiores que os de famílias brancas. A distância proporcional entre os grupos permaneceu estável ao longo do período. Leonardo Santos de Oliveira, analista da pesquisa, destacou que a queda não foi suficiente para eliminar as diferenças estruturais que organizam a pobreza no país.
O Índice de Vulnerabilidade Multidimensional também recuou 47%, mas ainda abrange 132 milhões de brasileiros — quase dois terços da população. As dimensões com maior peso no índice foram acesso a serviços financeiros (19,3%), educação (19,1%) e transporte e lazer (17,3%), mostrando que a pobreza brasileira é um fenômeno distribuído por múltiplas carências simultâneas.
Os dados comparam apenas duas edições da Pesquisa de Orçamentos Familiares e não capturam os efeitos da pandemia de COVID-19. O que aconteceu com esses indicadores após 2018 — se a tendência de queda se manteve ou se inverteu durante os anos de crise — permanece uma questão em aberto.
Dois em cada dez brasileiros vivem em algum grau de pobreza. Uma década atrás, eram quatro em cada dez. Os números, divulgados pelo IBGE na última sexta-feira, revelam uma transformação significativa no país — mas também expõem feridas que não cicatrizaram.
Entre 2008 e 2009, quatro em cada dez pessoas enfrentavam pobreza multidimensional. Nove anos depois, esse índice caiu para dois em cada dez. Em termos absolutos, significa que cerca de 38 milhões de brasileiros saíram dessa condição. O Índice de Pobreza Multidimensional recuou de 6,7 para 2,3 — uma queda de 65% que atravessou todas as regiões do país, todas as faixas de renda, todas as composições familiares. A melhora foi generalizada, sem exceções geográficas.
O estudo do IBGE não mede pobreza apenas pela renda. Em vez disso, examina seis dimensões da vida das famílias: moradia, serviços de utilidade pública, saúde e alimentação, educação, acesso a serviços financeiros e padrão de vida, transporte e lazer. A partir de 50 indicadores distribuídos nessas categorias, o instituto constrói seus índices. Uma família é considerada pobre quando sofre perdas em pelo menos um terço desses grupos. A vulnerabilidade ocorre quando há perdas em pelo menos um sexto das categorias. Essa abordagem multidimensional oferece um retrato mais completo do que significa viver com carência no Brasil.
Mas a queda da pobreza não eliminou as desigualdades que a estruturam. Famílias chefiadas por pessoas pretas ou pardas continuam enfrentando índices de pobreza quase três vezes maiores que os de famílias brancas. Entre 2008 e 2009, o índice de pobreza para pessoas pretas e pardas era de 9,6; caiu para 3,2 em 2017-2018. Para pessoas brancas, o índice era de 3,3 e caiu para 1,1. A melhora foi proporcional em ambos os grupos, mas a distância permaneceu. Pessoas com menor nível de instrução, menor renda, e famílias com mais de um adulto e pelo menos uma criança também continuam concentrando os maiores índices de pobreza e vulnerabilidade. Leonardo Santos de Oliveira, analista da pesquisa, destacou que essa queda não é suficiente para eliminar as diferenças estruturais que marcam a pobreza no país.
O Índice de Vulnerabilidade Multidimensional também caiu significativamente — 47% no mesmo período, recuando de 14,5 para 7,7. Isso significa que cerca de 155 milhões de brasileiros (81,7% da população) enfrentavam algum grau de vulnerabilidade entre 2008 e 2009. Nove anos depois, esse número caiu para 132 milhões de pessoas, ou 63,8% do total. Ainda assim, quase dois terços da população brasileira vivem em alguma situação de vulnerabilidade.
Os dados revelam também quais dimensões da vida tiveram maior impacto na determinação da pobreza e vulnerabilidade. A falta de acesso a serviços financeiros afetou 19,3% das famílias. Educação inadequada atingiu 19,1%. Transporte e lazer insuficientes impactaram 17,3%. Serviços de utilidade pública e saúde e alimentação apresentaram impacto de 14,4% cada. Nenhuma dimensão isolada domina a pobreza no Brasil — ela é um fenômeno que se distribui por múltiplas carências simultâneas.
É importante notar que esses dados comparam apenas duas edições da Pesquisa de Orçamentos Familiares: a de 2008-2009 e a de 2017-2018. A pesquisa não captura os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre o acesso a bens básicos como moradia e educação. O que aconteceu com esses indicadores depois de 2018 permanece uma questão aberta. A tendência de queda que marcou a década anterior pode ter se invertido — ou acelerado — durante os anos de crise sanitária e econômica que se seguiram.
Notable Quotes
Essa queda não é suficiente para eliminar as diferenças que existem entre a pobreza das famílias em que a pessoa de referência é preta ou parda. O índice de pobreza é quase três vezes o índice da população branca— Leonardo Santos de Oliveira, analista da pesquisa do IBGE
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como o IBGE consegue medir pobreza sem olhar para a renda das pessoas?
Eles partem da ideia de que pobreza é mais do que ganhar pouco dinheiro. É não ter moradia adequada, não ter acesso a educação, não conseguir se alimentar bem, ficar isolado do transporte e do lazer. Então observam 50 indicadores diferentes distribuídos em seis dimensões da vida familiar.
E isso muda o que a gente entende sobre quem é pobre no Brasil?
Muda bastante. Você pode ganhar um salário mínimo mas ter acesso a água encanada, educação para os filhos, e estar menos vulnerável do que alguém que ganha mais mas vive em um barraco sem esses serviços. A pobreza deixa de ser um número e vira uma textura.
Então por que as desigualdades raciais não diminuíram se a pobreza caiu tanto?
Porque a queda foi proporcional. Pessoas pretas e pardas saíram da pobreza na mesma proporção que pessoas brancas, mas começaram de um patamar muito mais alto. É como se ambos descêssemos uma escada, mas um começou três degraus acima do outro.
E o que explica essa diferença inicial tão grande?
Isso é estrutural. Séculos de escravidão, depois séculos de exclusão. As famílias brancas acumularam mais acesso a educação, mais patrimônio, mais redes de oportunidade. Esses dados mostram que uma década de melhoria econômica não apaga séculos de desvantagem.
Os dados capturam o que aconteceu durante a pandemia?
Não. Eles vão até 2017-2018. Tudo que aconteceu depois — desemprego em massa, pessoas indo para a rua, fome aumentando — fica de fora. É como olhar para uma foto de 2018 e achar que sabe como as pessoas estão em 2023.
Então essa história de queda de 65% pode estar completamente desatualizada?
Pode estar. E provavelmente está. Mas o que esses dados nos dizem é que antes da pandemia, o Brasil estava em uma trajetória de melhoria real. A pergunta agora é se conseguimos voltar a essa trajetória ou se ficamos presos em um novo patamar de pobreza.