A nossa limitação é que as pessoas têm medo de tomar a vacina
Em meio à busca global pela erradicação do câncer de colo de útero, a Organização Mundial da Saúde propõe uma mudança aparentemente pequena, mas de alcance profundo: uma única dose da vacina contra o HPV, aplicada na infância ou adolescência, pode oferecer proteção equivalente ao esquema anterior de duas doses. No Brasil, onde menos da metade dos meninos e pouco mais da metade das meninas completaram a vacinação, o verdadeiro desafio não é científico — é cultural, enraizado no medo e na desinformação que afastam famílias de uma proteção comprovada.
- Estudos em três continentes mostram que uma dose única da vacina HPV atinge até 98% de eficácia quando aplicada antes dos 15 anos, desafiando décadas de protocolo médico.
- No Brasil, as metas de cobertura vacinal estão longe de ser atingidas: apenas 56% das meninas e 52% dos meninos receberam as doses necessárias, muito abaixo dos 90% recomendados pela OMS.
- Pesquisadores da USP e do Instituto Emílio Ribas alertam que o obstáculo real não é logístico, mas emocional — o medo das famílias e a hesitação diante da vacina travam o avanço.
- A simplificação para dose única poderia reduzir custos e facilitar a implementação, mas especialistas advertem que sem campanhas robustas de conscientização, o problema de adesão permanecerá.
- A inclusão dos meninos na estratégia vacinal ganha urgência: o HPV causa cânceres em homens também, e a baixa cobertura masculina compromete a proteção coletiva de toda a população.
A Organização Mundial da Saúde lançou, em dezembro de 2022, um plano para erradicar o câncer de colo de útero — e no centro dessa estratégia está uma mudança significativa: substituir o esquema de duas doses da vacina contra o HPV por uma única aplicação em crianças e adolescentes. A lógica é sólida: nessa faixa etária, a resposta imunológica é mais intensa, e uma dose única antes dos 15 anos pode oferecer proteção equivalente com muito mais alcance.
O vírus HPV é responsável por uma série de cânceres além do colo de útero — incluindo vulva, vagina, pênis, canal anal e cavidade oral — além de verrugas genitais. A vacina quadrivalente, usada no Brasil desde 2014, protege contra quatro tipos do vírus. O esquema original previa três doses; com o tempo, foi reduzido para duas em crianças e adolescentes, à medida que estudos confirmavam a robustez da resposta imune nessa faixa etária.
Pesquisadores da USP e do Instituto Emílio Ribas revisaram a literatura científica e encontraram evidências consistentes: um estudo com mulheres jovens no Quênia apontou 98% de eficácia com dose única, e pesquisas na Índia e Costa Rica confirmaram proteção equivalente à de dois ou três doses. A simplificação do esquema poderia reduzir custos, facilitar a logística e, sobretudo, ampliar a cobertura.
Mas o Brasil enfrenta um problema anterior a qualquer mudança de protocolo. Dados da Fundação do Câncer revelam que apenas 56% das meninas completaram o esquema de duas doses entre 2013 e 2020, e em 2022, apenas 52% dos meninos receberam sequer a primeira dose — números muito abaixo da meta de 90% da OMS. Para a professora Luisa Lina Villa, da FMUSP, o obstáculo é claro: as famílias têm medo da vacina, e esse medo precisa ser enfrentado com educação, não apenas com simplificação logística.
Villa também chama atenção para um ponto negligenciado: homens precisam ser vacinados tanto quanto mulheres. O HPV não é uma questão exclusivamente feminina, e aumentar a cobertura masculina é essencial para reduzir a transmissão e proteger toda a população. A dose única pode ser um catalisador importante — mas só se vier acompanhada de uma campanha séria de conscientização sobre a segurança e a eficácia da vacina.
A Organização Mundial da Saúde publicou em dezembro de 2022 um plano ambicioso para erradicar o câncer de colo de útero, e no centro dessa estratégia está uma mudança simples mas potencialmente transformadora: reduzir a vacina contra o papilomavírus humano de duas doses para uma única aplicação em crianças e adolescentes. No Brasil, como em muitos países, o esquema atual exige duas doses para meninas e meninos entre 9 e 14 anos — a faixa etária onde a resposta imunológica é mais robusta e onde a maioria ainda não iniciou a vida sexual.
O vírus HPV é responsável por infecções sexualmente transmissíveis que podem causar verrugas ou, dependendo do tipo, câncer de colo de útero, vulva, vagina, pênis, canal anal e outras localizações. A vacinação começou no Brasil em 2014, inicialmente apenas para meninas, usando a vacina quadrivalente que protege contra quatro tipos do vírus — dois que causam verrugas e dois oncogênicos. Em 2006, quando a vacina foi aprovada, os ensaios clínicos testaram três doses: a primeira sensibiliza o corpo, a segunda reforça a resposta imunológica e a terceira consolida a proteção. Conforme pesquisadores observaram que crianças e adolescentes desenvolviam respostas imunes particularmente potentes, o esquema foi reduzido para duas doses nessa faixa etária, mantendo três doses para adultos e imunossuprimidos.
Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP e do Instituto de Infectologia Emílio Ribas analisaram a literatura científica sobre a eficácia da dose única e encontraram resultados promissores. Um estudo realizado na Universidade de Washington com mulheres de 15 a 20 anos no Quênia mostrou que uma dose única foi 98% eficaz na prevenção de infecções por HPV. Pesquisas adicionais na Índia e Costa Rica demonstraram que uma dose oferece proteção equivalente a duas ou três doses. A lógica por trás dessa mudança é clara: aplicar uma única dose antes dos 15 anos, quando a imunogenicidade é máxima, permitiria alcançar muito mais pessoas com o mesmo investimento, reduzindo custos, simplificando a implementação e aumentando a adesão.
Mas no Brasil, o cenário revela um desafio diferente. Segundo dados da Fundação do Câncer cobrindo 2013 a 2020, apenas 76% das meninas entre 9 e 14 anos receberam a primeira dose, e apenas 56% completaram o esquema de duas doses. Entre meninos, a situação é ainda mais crítica: em 2022, apenas 52% receberam a primeira dose. Esses números ficam bem abaixo da meta de 90% de cobertura recomendada pela OMS. Luisa Lina Villa, professora da FMUSP, identifica o verdadeiro obstáculo: não é o número de doses, mas a hesitação das famílias. "A nossa limitação é que as pessoas têm medo de tomar a vacina ou as mães não levam suas crianças", afirma. Ela enfatiza que o Brasil precisa de um esforço massivo de conscientização para demonstrar que a vacina é segura e eficiente.
Villa também ressalta um ponto frequentemente negligenciado: os homens precisam ser vacinados tanto quanto as mulheres. Os riscos de câncer associados ao HPV não se limitam ao colo de útero — incluem cânceres genitais, anais, orais e infecções por tipos não oncogênicos. Aumentar a cobertura vacinal em homens ajuda a combater a transmissão do vírus e reduz a incidência de câncer em toda a população. A adoção de uma dose única poderia ser o catalisador que o Brasil precisa para ampliar significativamente a cobertura, mas apenas se acompanhada de uma campanha robusta de educação em saúde que convença as famílias de que a proteção vale a pena.
Notable Quotes
Quando a vacina foi aprovada, os ensaios clínicos buscavam aplicar três doses para comprovar que as vacinas funcionam perfeitamente bem para impedir as infecções e as doenças— Luisa Lina Villa, professora da FMUSP
A nossa limitação é que as pessoas têm medo de tomar a vacina ou as mães não levam suas crianças. Precisamos de um grande trabalho para conscientizar que a vacina é segura e eficiente— Luisa Lina Villa, professora da FMUSP
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a OMS decidiu recomendar uma dose única agora, depois de anos usando duas?
Porque observaram que crianças e adolescentes têm uma resposta imunológica tão forte que uma dose é suficiente. Estudos em vários países mostraram eficácia de 98% com apenas uma aplicação.
Mas se uma dose funciona tão bem, por que o Brasil ainda usa duas?
O Brasil segue as recomendações internacionais, mas a mudança é recente. O que importa agora é que a dose única poderia resolver o verdadeiro problema brasileiro: a falta de adesão.
Qual é exatamente esse problema?
Apenas 56% das meninas completam as duas doses. Muitas famílias têm medo da vacina ou simplesmente não levam as crianças. Uma dose única simplificaria tudo e poderia aumentar a cobertura.
E os meninos? Parecem estar ainda mais longe da vacinação.
Sim, apenas 52% dos meninos recebem a primeira dose. Há menos conscientização de que eles também precisam se proteger contra cânceres causados pelo HPV.
Que tipo de cânceres?
Não é só colo de útero. O HPV causa cânceres genitais, anais, orais em ambos os sexos. Vacinar meninos protege também as meninas, reduzindo a transmissão.
Então a dose única é apenas parte da solução?
Exatamente. A dose única remove uma barreira logística, mas o Brasil precisa de uma campanha de educação em saúde muito mais forte para convencer as famílias de que a vacina é segura.