BofA vê Argentina alinhando 'planetas' para ciclo virtuoso com contas externas e inflação

Dois dos três planetas necessários já estão alinhados
O Bank of America aponta que a Argentina conquistou estabilidade nas contas externas e inflação, mas ainda aguarda o crescimento econômico.

Depois de décadas marcadas por crises cíclicas, a Argentina de Javier Milei parece ter estabilizado dois dos pilares que historicamente escaparam ao país ao mesmo tempo: a inflação começa a ceder e as contas externas voltam ao equilíbrio. O Bank of America descreve esse momento como o alinhamento de dois dos três 'planetas' necessários para um ciclo virtuoso de recuperação — faltando apenas o crescimento sustentado do PIB para completar a constelação. A questão que paira sobre Buenos Aires, e sobre os mercados que a observam, é se desta vez o terceiro planeta chegará antes que a gravidade política o desvie do curso.

  • A inflação mensal caiu para 2,1% em maio e as exportações cresceram 21,5% no início do ano, sinalizando que o ajuste brutal de Milei está produzindo resultados concretos.
  • O Banco Central acumulou US$ 11,5 bilhões em reservas em 2026, revertendo um déficit de US$ 10 bilhões registrado apenas um ano antes — uma virada que reduz o risco de desvalorização descontrolada do peso.
  • S&P e Fitch elevaram o rating soberano argentino de CCC+ para B-, e a Moody's deve seguir, abrindo a dívida do país a uma base mais ampla de investidores internacionais.
  • O crescimento do PIB — o único dos três pilares ainda ausente — é a incógnita que definirá se a estabilização se torna duradoura ou se repete o padrão histórico de recuperações interrompidas.
  • Reformas estruturais como a extinção da Lei de Abastecimento e a flexibilização trabalhista redefinem as regras do jogo para o setor privado, mas seus efeitos plenos ainda estão por vir.

A Argentina está colhendo resultados em duas frentes que, há pouco tempo, pareciam fora de alcance. O Bank of America descreveu, em relatório divulgado nesta terça, o momento como o alinhamento de dois dos três 'planetas' necessários para um ciclo virtuoso de recuperação: contas externas estabilizadas e inflação em queda. O terceiro planeta — o crescimento do PIB — ainda não chegou, mas os analistas veem sinais de que pode estar a caminho.

O ajuste fiscal promovido por Javier Milei, combinado com um boom nas exportações, está fazendo o trabalho pesado. A inflação mensal recuou para 2,1% em maio, acumulando 33,2% em doze meses, e o banco projeta que o índice termine 2026 em 32% e caia para 15,5% em 2027. Ao mesmo tempo, as exportações cresceram 21,5% nos primeiros quatro meses do ano, impulsionadas por minerais, grãos e energia — setor que sozinho adicionou US$ 9 bilhões ao saldo comercial no período.

Essas duas dinâmicas permitiram ao Banco Central acumular US$ 11,5 bilhões em reservas neste ano, superando a meta de US$ 10 bilhões e revertendo um déficit de US$ 10 bilhões registrado em abril de 2025. A Argentina deve fechar 2026 com conta corrente equilibrada, revertendo o déficit de 1,3% do PIB de 2025. S&P e Fitch já elevaram o rating soberano de CCC+ para B-, e a Moody's deve seguir em breve.

O caminho até aqui não foi suave. Milei herdou um déficit primário de 2,7% do PIB e o reverteu para superávit de 1,8% já no primeiro ano — resultado que incluiu um choque inicial com a liberação dos controles de preços e a desvalorização da moeda, que empurrou a inflação a 25% em dezembro de 2023. O PIB contraiu 1,3% em 2024, mas se recuperou com avanço de 4,4% em 2025. Para 2026, a estimativa é de crescimento de 3,5%. Se esse terceiro planeta de fato se alinhar, o Bank of America acredita que a Argentina terá finalmente encontrado o caminho para sair do ciclo de crises que a definiu por décadas.

A Argentina está colhendo resultados tangíveis em dois fronts econômicos que há pouco tempo pareciam fora de alcance: suas contas externas se estabilizaram e a inflação começou a ceder. O Bank of America, em relatório divulgado nesta terça, descreve o momento como o alinhamento de dois dos três "planetas" necessários para que o país entre num ciclo virtuoso de recuperação. O terceiro — o crescimento do produto interno bruto — ainda não chegou, mas os analistas do banco veem sinais de que pode estar a caminho.

O aperto fiscal implementado pelo presidente Javier Milei, combinado com um boom inesperado nas exportações, está fazendo o trabalho pesado. A inflação mensal caiu para 2,1% em maio, acumulando 33,2% nos últimos doze meses. O banco projeta que o índice de preços ao consumidor termine 2026 em 32%, e caia para 15,5% em 2027 — uma trajetória que, se confirmada, representaria uma transformação notável para um país que conviveu com inflação de dois dígitos por anos. Simultaneamente, as exportações cresceram 21,5% nos primeiros quatro meses do ano em relação ao mesmo período de 2025, impulsionadas por minerais e grãos. O setor de energia sozinho adicionou US$ 9 bilhões ao saldo comercial nos últimos doze meses.

Essas duas dinâmicas — preços sob controle e receitas externas em alta — estão permitindo à Argentina fazer algo que parecia impossível há pouco tempo: acumular dólares. O Banco Central já comprou US$ 11,5 bilhões neste ano, superando a meta de US$ 10 bilhões. As reservas líquidas subiram de um déficit de US$ 10 bilhões em abril do ano passado para um superávit de US$ 8 bilhões agora. Esse colchão de moeda estrangeira é crucial para evitar que o peso se desvalorize descontroladamente e reacenda a inflação — o fantasma que assombrou a economia argentina por tanto tempo.

O resultado é que a Argentina deve fechar 2026 com uma conta corrente equilibrada, revertendo o déficit de 1,3% do PIB que enfrentou em 2025. Para o Bank of America, essa melhora nas contas externas, aliada a entradas de capital estrangeiro e a elevações recentes no rating soberano, cria as condições para que mais investidores se interessem pela dívida argentina. A S&P e a Fitch já elevaram a classificação de risco do país de CCC+ para B-, e a Moody's deve seguir em breve.

O caminho até aqui não foi convencional. Quando Milei assumiu no final de 2023, a Argentina tinha um déficit primário de 2,7% do PIB. No primeiro ano, ele reverteu isso para um superávit de 1,8%. Este ano, o resultado deve ser de 1,5% positivo — e, diferentemente do Brasil, onde o rombo nominal ronda 9% do PIB, a Argentina já apresenta superávit nominal quando se incluem os juros da dívida. Parte desse ajuste veio da famosa "motosserra" de cortes nas despesas, mas uma parcela significativa resultou de medidas que provocaram um choque inicial: a liberação dos controles de preços e a desvalorização da moeda. Essas ações causaram um pico inflacionário de 25% em dezembro de 2023, o que corroeu o valor real dos gastos públicos e facilitou o ajuste fiscal.

Além do corte de despesas, a equipe econômica vem aprovando uma série de reformas estruturais. A Lei de Abastecimento, que dava ao governo poder para controlar as margens de lucro das empresas, foi abolida. As barreiras ao comércio exterior — cotas de exportação e tarifas sobre importações de bens de capital — estão sendo eliminadas. Em fevereiro, uma reforma trabalhista flexibilizou as horas de trabalho e os períodos de férias, abrindo espaço para que o setor privado se reorganize.

Essas mudanças tiveram um custo imediato. O PIB caiu 1,3% em 2024, menos do que muitos analistas temiam, mas ainda uma contração. Em 2025, a economia se recuperou com um avanço de 4,4%. Para este ano, a estimativa é de crescimento de 3,5%. Se esse terceiro planeta — o crescimento sustentado — de fato se alinhar aos outros dois, o Bank of America acredita que a Argentina terá finalmente encontrado o caminho para sair do ciclo de crises que a definiu nas últimas décadas.

A Argentina apresenta uma forte melhora em duas dimensões importantes: contas externas e inflação. Isso, aliado a uma eventual recuperação da atividade econômica, constituiria um ciclo virtuoso para o crédito.
— Bank of America
As melhorias na classificação de risco devem ajudar a Argentina a ampliar o número de investidores para sua dívida.
— Bank of America
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O que exatamente o BofA quer dizer com "planetas alinhados"? É só uma metáfora ou há algo concreto por trás?

Model

É uma forma de dizer que três coisas precisam acontecer simultaneamente para que a economia entre numa trajetória de recuperação real. Contas externas saudáveis, inflação controlada e crescimento econômico. A Argentina conseguiu as duas primeiras. Sem a terceira, o ciclo não se fecha.

Inventor

Mas por que o crescimento é tão importante se a inflação já está caindo e as exportações estão subindo?

Model

Porque sem crescimento, o desemprego não cai, a renda das pessoas não sobe, e o governo fica preso a um ajuste fiscal permanente. É insustentável politicamente e economicamente. O crescimento é o que torna tudo isso viável a longo prazo.

Inventor

A desvalorização da moeda no começo foi um risco calculado?

Model

Sim, mas com efeitos colaterais. Causou um pico de inflação de 25% em dezembro de 2023. Milei apostou que esse choque inicial corroeria o valor real das despesas públicas o suficiente para facilitar o ajuste fiscal. Funcionou, mas foi doloroso.

Inventor

E as reformas estruturais — abolir a Lei de Abastecimiento, flexibilizar o trabalho — isso é o que vai trazer o crescimento?

Model

É a aposta. Sem essas mudanças, você fica preso a uma economia controlada e sem espaço para investimento privado. Mas reformas levam tempo para gerar resultados. Por enquanto, o crescimento está vindo mais do efeito base baixo de 2024 do que de uma transformação estrutural consolidada.

Inventor

O que pode dar errado daqui para frente?

Model

Se as exportações caírem — por queda de preços de commodities ou recessão global — as reservas internacionais descem rápido. Se isso acontecer, o peso se desvaloriza, a inflação volta, e o ciclo virtuoso vira vicioso. O país ainda é frágil.

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