Picanha sobe mais de 10% no primeiro semestre; corrida para China pressiona preços

Consumidores brasileiros enfrentam redução do poder de compra agravada por endividamento e apostas online, limitando acesso a alimentos básicos.
Os preços tendem a subir bastante no último trimestre
Analista prevê pressão de demanda aquecida e restrição de oferta no final de 2026.

A mesa do brasileiro tornou-se mais cara não por acaso, mas como reflexo de uma lógica global que coloca o mercado externo à frente do consumidor doméstico. No primeiro semestre de 2026, cortes como picanha e filé-mignon subiram mais de 10%, enquanto frigoríficos corriam para preencher a cota de exportação imposta pela China antes que tarifas punitivas entrassem em vigor. É um momento em que as forças do comércio internacional reescrevem o cardápio de milhões de famílias — e os analistas avisam que o capítulo mais difícil ainda está por vir.

  • A China impôs uma sobretaxa de 55% sobre volumes acima de 1,1 milhão de toneladas, desencadeando uma corrida frenética dos frigoríficos brasileiros para exportar antes do prazo.
  • Entre janeiro e maio, as exportações para o país asiático cresceram 24%, com a China absorvendo 51% de tudo que o Brasil embarcou — esvaziando o mercado interno e empurrando os preços para cima.
  • Com a cota quase preenchida, espera-se um breve alívio nos preços domésticos nos próximos meses, mas analistas alertam que a janela de respiro será curta.
  • O último trimestre de 2026 concentra riscos severos: demanda aquecida nos EUA, retomada das compras chinesas e El Niño ameaçam convergir numa nova e expressiva alta de preços.
  • O poder de compra das famílias brasileiras já está corroído pelo endividamento e pelas apostas online, tornando cada alta de preço um golpe mais duro sobre o acesso a alimentos básicos.

A picanha subiu 10,1%, o filé-mignon 10,2% e o peito bovino 10,9% nos primeiros seis meses de 2026. Até cortes menos nobres, como o acém, registraram alta de quase 10%, segundo dados do IBGE. A mesa do brasileiro ficou mais cara em praticamente todas as opções de carne vermelha — e a explicação está longe dos açougues.

No início do ano, a China impôs uma sobretaxa de 55% sobre exportações de carne bovina que ultrapassassem 1,1 milhão de toneladas em 2026. A reação dos frigoríficos brasileiros foi imediata: entre janeiro e maio, as exportações para o país asiático cresceram 24% em relação ao mesmo período de 2025, com a China absorvendo 51% de tudo que o Brasil embarcou. Essa corrida para preencher a cota antes do prazo esvaziou o mercado interno, reduzindo a oferta disponível ao consumidor doméstico e pressionando os preços para cima. O Brasil deve atingir 98% da cota até o fim de junho.

O analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, aponta que a medida de salvaguarda chinesa subverteu completamente a dinâmica habitual do mercado. Historicamente, o Brasil exporta mais no segundo semestre — mas este ano a lógica se inverteu. Um breve alívio pode surgir nos próximos meses, quando a demanda chinesa diminuir temporariamente e mais carne voltar ao mercado interno. Porém, esse respiro deve ser passageiro.

O último trimestre de 2026 concentra riscos: a demanda aquecida nos Estados Unidos, a retomada das compras pela China e o fenômeno El Niño — que tende a reduzir a oferta de gado terminado a pasto — apontam para um cenário de nova alta expressiva de preços. A suspensão das compras pela União Europeia, prevista para setembro, terá impacto limitado, já que o bloco representa apenas 3,5% das exportações brasileiras. O dano maior será à imagem do país.

Enquanto isso, o consumidor brasileiro enfrenta esse cenário com poder de compra enfraquecido. O endividamento das famílias segue elevado, e as apostas online têm drenado recursos que antes circulavam na economia. Mesmo em ano de Copa do Mundo, o aquecimento do consumo de carne depende menos da demanda doméstica e mais de quanto sobra depois que o mercado externo é servido primeiro.

A picanha, aquele corte que marca presença em todo churrasco brasileiro, ficou 10,1% mais cara nos primeiros seis meses de 2026. Não está sozinha na escalada. O filé-mignon subiu 10,2%, o peito bovino disparou 10,9%, e até cortes menos nobres como o acém registraram alta de 9,33%, segundo dados da prévia de inflação de junho divulgados pelo IBGE. Apenas o patinho (6,61%) e o cupim (5,75%) tiveram aumentos ligeiramente menores, mas ainda assim expressivos. A mesa do brasileiro ficou mais cara em praticamente todas as opções de carne vermelha.

Por trás desses números está uma corrida frenética dos frigoríficos brasileiros. Em janeiro, a China impôs uma sobretaxa de 55% sobre as exportações de carne bovina que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas em 2026, mantendo tarifa de 12% para volumes dentro dessa cota. A reação foi imediata e intensa: entre janeiro e maio, as exportações para o país asiático cresceram 24% em comparação com o mesmo período de 2025. A China absorveu 51% de tudo que o Brasil embarcou no período. Frigoríficos acelerou o ritmo de vendas externas justamente quando, historicamente, o Brasil exporta mais no segundo semestre. Este ano, a lógica se inverteu.

Essa pressa em preencher a cota chinesa antes do prazo esvaziou o mercado interno. Menos carne disponível para o consumidor brasileiro significou preços mais altos nas prateleiras e nas mesas. Fernando Iglesias, analista da consultoria Safras & Mercado, resume a situação: a medida de salvaguarda chinesa subverteu completamente a dinâmica do mercado. As projeções indicam que o Brasil deve atingir 98% da cota de exportação para a China até o final de junho, deixando pouco espaço para envios sem tarifa adicional em julho.

Mas a questão vai além da simples dinâmica de oferta e demanda. O poder de compra do brasileiro está enfraquecido. O endividamento das famílias segue elevado, e um novo fator agrava o cenário: as apostas online têm drenado recursos que antes circulavam na economia, reduzindo o consumo de produtos básicos e alimentos. Mesmo em período de Copa do Mundo, quando tradicionalmente há aquecimento do consumo de carne, os preços têm sido muito mais influenciados pela redução da oferta interna do que por um aumento robusto da demanda doméstica.

O alívio pode vir nos próximos meses. Com a cota chinesa praticamente preenchida, a demanda do país asiático deve diminuir temporariamente, o que pode aumentar a disponibilidade de carne no mercado brasileiro e pressionar os preços para baixo. Iglesias prevê que esse período de respiro será breve. O último trimestre de 2026 promete ser crítico: a demanda aquecida nos Estados Unidos, a retomada das compras chinesas e o fenômeno El Niño — que tende a reduzir a oferta de gado terminado a pasto — convergem para um cenário de restrição severa de oferta com demanda muito aquecida. A tendência, portanto, é de nova e significativa alta de preços até o fim do ano.

A suspensão das compras de carne bovina pela União Europeia, anunciada em maio e que entra em vigor em 3 de setembro, terá impacto limitado. A Europa representa apenas 3,5% das exportações brasileiras de carne bovina, bem menos do que foi no passado. Ainda assim, o bloco europeu funciona como um "mercado vitrine": suas decisões costumam servir de referência para outros países. O impacto real será mais um arranhão na imagem do Brasil do que uma perda relevante de volume exportado. A verdadeira pressão sobre os preços vem de outra direção — da China, dos Estados Unidos, e das condições climáticas que se aproximam.

A medida de salvaguarda da China subverteu a lógica do mercado. O Brasil, tipicamente, exporta mais no segundo semestre do que no primeiro. Esse ano vai exportar mais no primeiro do que no segundo.
— Fernando Iglesias, consultoria Safras & Mercado
Um dos grandes problemas que temos em 2026 é o baixo poder de compra do brasileiro e o alto nível de endividamento. Esse cenário tem sido agravado pelos jogos de apostas, que têm tirado muito dinheiro de circulação da economia.
— Fernando Iglesias, consultoria Safras & Mercado
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a China conseguiu pressionar tanto o mercado brasileiro de carne só com uma tarifa?

Model

Porque o Brasil depende muito das exportações. Quando a China coloca uma sobretaxa, os frigoríficos têm que escolher: ou vendem para lá com tarifa, ou vendem para o mercado interno. Eles escolheram correr contra o relógio para preencher a cota antes da tarifa subir.

Inventor

E isso esvazia o mercado interno?

Model

Exatamente. Menos carne disponível aqui dentro significa preços mais altos para quem compra no supermercado. É uma reação em cadeia.

Inventor

Mas o brasileiro não está comprando mais carne por causa da Copa?

Model

Deveria estar, mas não está. O poder de compra está fraco, as pessoas estão endividadas, e agora tem as apostas online tirando dinheiro de circulação. A demanda interna não é forte o suficiente para compensar a falta de oferta.

Inventor

Então quando melhora?

Model

Não melhora tão cedo. Tem um respiro quando a China parar de comprar por um tempo, mas no último trimestre tudo piora de novo. A China volta, os americanos compram mais, e o El Niño reduz o gado disponível.

Inventor

E a Europa, que parou de comprar?

Model

É mais simbólico que real. A Europa é só 3,5% das exportações. O problema mesmo é a China e os Estados Unidos.

Inventor

Então o brasileiro vai pagar caro por carne até quando?

Model

Até o fim do ano, pelo menos. E pode ser que não melhore muito nem depois disso.

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