Houve tentativa de apagar a Petrobras na imagem dos brasileiros
Em um momento em que o conflito no Golfo Pérsico redesenha os fluxos globais de energia, a Petrobras avança em duas frentes simultâneas: aproxima-se da Pemex mexicana por meio de um memorando de cooperação que pode transformar relações diplomáticas em negócios concretos, e colhe os frutos de uma demanda asiática crescente por petróleo brasileiro. A reinauguração da sede histórica da estatal no Rio de Janeiro, após reforma de R$ 1,3 bilhão, oferece um símbolo físico dessa narrativa de reconstrução — de um edifício e, segundo seus líderes, de uma empresa.
- A interrupção do Estreito de Ormuz criou uma janela rara: China, Japão, Coreia do Sul e Índia correm para substituir fornecedores e o Brasil emerge como destino preferencial.
- A Petrobras concretizou sua primeira venda de coque verde para a operação chinesa da Saudi Aramco — 40 mil toneladas que sinalizam diversificação além do petróleo cru.
- O presidente da Pemex desembarca no Brasil ainda este mês para assinar um memorando que abre caminho a acordos de confidencialidade e estudos conjuntos em tecnologia, exploração e refino.
- A disputa com o governo do Rio de Janeiro sobre R$ 20 bilhões em créditos tributários expõe a tensão permanente entre a estatal e os entes federativos sobre o que de fato é devido.
- A sede histórica da Petrobras, deteriorada após décadas de negligência, reabre reformada — e seus líderes transformam o evento em manifesto contra o que chamam de 'projeto político de destruição' da companhia.
Magda Chambriard, presidente da Petrobras, anunciou que o líder da Pemex chegará ao Brasil ainda este mês para assinar um memorando de entendimento entre as duas estatais. O movimento é desdobramento direto de uma conversa entre os presidentes Lula e Claudia Sheinbaum sobre cooperação energética. O memorando abrirá espaço para acordos de confidencialidade e estudos conjuntos em tecnologia, exploração, produção e refino. Chambriard foi direta sobre o objetivo: transformar relações em negócios concretos com retorno econômico mensurável.
O contexto global favorece a iniciativa. A interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, provocada pelo conflito envolvendo o Irã, empurrou países asiáticos em busca de novas fontes de petróleo — e o Brasil tem se beneficiado. China, Japão, Coreia do Sul e Índia ampliaram suas compras de óleo cru brasileiro. A Petrobras também realizou sua primeira venda de coque verde para a operação chinesa da Saudi Aramco, movimentando 40 mil toneladas do produto usado na fabricação de cimento.
O anúncio foi feito durante a reinauguração da sede histórica da Petrobras no Centro do Rio. O edifício de cinquenta anos passou por sua primeira reforma estrutural completa em quatro anos, a um custo de R$ 1,3 bilhão. Foram retiradas 600 toneladas de vidro e 500 de alumínio para reciclagem, instalados 60 quilômetros de novos tubos e impermeabilizados 35 mil metros quadrados de superfície. Os brises, marca da arquitetura original, agora são automatizados e acompanham o movimento do sol.
O prefeito Eduardo Cavaliere celebrou a reforma como símbolo de retomada e criticou, sem nomear, o que chamou de 'projeto político de destruição da Petrobras'. Chambriard ecoou a narrativa: afirmou que houve tentativa de apagar a imagem da maior empresa da América Latina diante dos brasileiros. Em paralelo, respondeu a críticas do governador em exercício do Rio sobre R$ 20 bilhões em créditos tributários supostamente devidos, argumentando que há divergências legítimas sobre a aplicabilidade dos tributos. A ocupação do prédio será gradual, com a diretoria retornando na próxima quarta-feira — mas a reforma completa só estará concluída em 2028.
Magda Chambriard, presidente da Petrobras, anunciou que o líder da Pemex mexicana chegará ao Brasil ainda este mês para assinar um memorando de entendimento entre as duas estatais petrolíferas. O encontro marca o passo seguinte em uma conversa iniciada na quarta-feira entre o presidente Lula e sua contraparte mexicana Claudia Sheinbaum, que discutiram possibilidades de cooperação no setor energético dos dois países.
O memorando abrirá caminho para acordos de confidencialidade e estudos conjuntos nas áreas de tecnologia, exploração, produção e refino. Chambriard deixou claro que a intenção não é apenas formalizar relações, mas transformá-las em negócios concretos. "Estamos desenhando isso, para entender o retorno econômico de possíveis negócios", afirmou durante a reinauguração da sede da Petrobras no Rio de Janeiro.
O timing da aproximação com o México coincide com uma mudança significativa no mercado global de petróleo. A interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, provocada pelo conflito envolvendo o Irã, criou uma corrida de países asiáticos em busca de novas fontes de fornecimento. A Petrobras tem se beneficiado dessa turbulência. China, Japão, Coreia do Sul e Índia aumentaram suas compras de óleo cru brasileiro. A companhia também realizou sua primeira venda de coque verde — um produto utilizado na fabricação de cimento — para a operação chinesa da Saudi Aramco, movimentando 40 mil toneladas do material.
Em paralelo, Chambriard respondeu a críticas do governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, que reclama de um crédito de R$ 20 bilhões supostamente devido pela Petrobras ao Estado. A presidente da estatal argumentou que há divergências sobre quais obrigações tributárias são de fato devidas. Ela apontou que em 2025 a Petrobras repassou R$ 277 bilhões em tributos para União, estados e municípios, e que a companhia revisa constantemente suas obrigações fiscais. "Se há tributo não pago, é porque achamos que a tese não se enquadra ao nosso entendimento da aplicabilidade do tributo", explicou.
O cenário de retomada da Petrobras ganhou um símbolo físico nesta sexta-feira com a reinauguração de sua sede histórica no Centro do Rio. O edifício, com cinquenta anos, passou por sua primeira reforma estrutural completa em quatro anos, a um custo de R$ 1,3 bilhão. O prédio estava deteriorado: janelas com borrachas ressecadas, sistemas de refrigeração obsoletos, tubulações com vazamentos frequentes e brises inoperantes. A reforma retirou 600 toneladas de vidro e 500 toneladas de alumínio para reciclagem, instalou 60 quilômetros de novos tubos, um novo sistema de ar-condicionado e impermeabilizou 35 mil metros quadrados de superfície. Os brises, marca registrada da arquitetura do edifício, agora são automatizados e rastreiam o movimento do sol para otimizar a térmica interna.
O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, celebrou a reforma como um símbolo de retomada. Sem nomear explicitamente a gestão anterior, criticou o que chamou de "projeto político de destruição da Petrobras", comparando-o ao que ocorreu com a BR Distribuidora. Chambriard ecoou a narrativa de recuperação: "Houve tentativa de apagar o Edise e de apagar a Petrobras na imagem dos brasileiros, tornar esta empresa, a maior da América Latina, em insignificante."
A ocupação do prédio será gradual. A diretoria começa a retornar na próxima quarta-feira, e novos andares serão disponibilizados a partir de novembro. A reforma completa, porém, só será finalizada em 2028. Por enquanto, o edifício funciona como um canteiro de obras em transição — símbolo de uma companhia que, segundo seus líderes, está se reconstruindo.
Notable Quotes
Estamos desenhando isso, para entender o retorno econômico de possíveis negócios— Magda Chambriard, sobre cooperação com Pemex
Houve tentativa de apagar o Edise e de apagar a Petrobras na imagem dos brasileiros, tornar esta empresa, a maior da América Latina, em insignificante— Magda Chambriard, durante reinauguração da sede
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a Pemex vem assinar um memorando agora? Há algo urgente nessa parceria?
Não é urgência, é oportunidade. O conflito no Golfo Pérsico abriu um vácuo de fornecimento. Países asiáticos estão procurando a Petrobras desesperadamente. A Pemex também quer estar perto dessa demanda crescente. É o momento de duas estatais petrolíferas se entenderem.
E esses estudos conjuntos — são realmente estudos, ou já há negócios na mira?
Chambriard foi clara: os estudos podem se desdobrar em negócios. Eles estão mapeando onde faz sentido econômico trabalhar juntos. Tecnologia, exploração, refino. Não é caridade, é cálculo.
A briga com o Rio de Janeiro sobre os R$ 20 bilhões parece desconfortável. Como a Petrobras sai dessa?
A companhia argumenta que nem todas as cobranças são legítimas. Ela paga muito — R$ 277 bilhões em tributos em 2025. Mas há divergências sobre o que é devido. É uma questão técnica que pode virar política.
E esse prédio reformado? É só cosmético ou significa algo mais?
É símbolo. Cinquenta anos de deterioração, agora restaurado. Para Chambriard e o prefeito, representa a retomada da Petrobras depois de anos de abandono. Para a companhia, é mostrar que está funcionando, que está aqui.
Quando o prédio fica pronto de verdade?
Em 2028. Por enquanto é ocupação gradual. A diretoria volta na próxima semana, mas o lugar ainda é um canteiro. A retomada é lenta, como tudo nessa história.