Pesquisa revela que 77% dos brasileiros veem país como profundamente desigual

30% dos brasileiros relatam ter sofrido discriminação, motivada principalmente por condição social, religião, gênero e raça.
Apenas 40% se sentem respeitados na internet, enquanto 70% se sentem respeitados em espaços religiosos
A pesquisa revela uma lacuna preocupante no respeito digital, conforme o ambiente online ganha centralidade na vida das pessoas.

Uma pesquisa do Observatório Fundação Itaú, realizada com quase três mil brasileiros em junho de 2025, revela que a desigualdade não é apenas uma estatística no país — é uma experiência vivida e sentida de formas distintas conforme o gênero, a raça, a idade e o lugar onde se vive. Três em cada quatro brasileiros reconhecem os abismos que estruturam a sociedade, e um em cada três afirma tê-los sentido na própria pele sob a forma de discriminação. O levantamento aponta a educação pública como o caminho mais apontado para a transformação, enquanto o ambiente digital emerge como um novo território de exclusão e desrespeito ainda pouco reconhecido como tal.

  • 77% dos brasileiros enxergam o país como profundamente desigual — e essa percepção é ainda mais aguda entre mulheres, idosos e pessoas com menor escolaridade.
  • Discriminação racial no mercado de trabalho, nas escolas e na moradia é reconhecida por ampla maioria, revelando que o racismo estrutural não é invisível para a população.
  • 30% dos entrevistados relatam ter sofrido preconceito pessoalmente, motivado sobretudo por condição social, religião, gênero e raça — a desigualdade tem rosto e memória.
  • O ambiente digital se consolida como o espaço onde os brasileiros menos se sentem respeitados: apenas 40% afirmam ter essa sensação online, ante 70% nos espaços religiosos.
  • A educação pública é apontada como solução prioritária, mas a cultura — reconhecida como importante — ainda é vista como privilégio de poucos, não como direito de todos.

Três em cada quatro brasileiros enxergam o país como profundamente desigual. É o que mostra uma pesquisa do Observatório Fundação Itaú, realizada em junho com 2.787 pessoas em todo o território nacional, em parceria com Plano CDE e Datafolha. O levantamento não apenas confirma a percepção difusa de que o Brasil é marcado por abismos sociais, mas identifica onde esses abismos se aprofundam e quem os sente com maior intensidade.

A percepção varia conforme o perfil. Mulheres são mais sensíveis à desigualdade do que homens — 82% delas consideram o país profundamente desigual. No campo racial, 68% acreditam que pessoas brancas têm vantagem clara no mercado de trabalho, e proporções semelhantes identificam essa disparidade no acesso a boas escolas e a bairros com infraestrutura adequada. Quanto ao gênero, 55% dos brasileiros reconhecem que homens têm mais chances de empregos bem remunerados — entre jovens de 18 a 24 anos, esse número sobe para 65%. As desigualdades territoriais são quase consenso: sete em cada dez concordam que viver em grandes cidades garante acesso privilegiado a empregos, cultura e educação de qualidade.

Um dado chama atenção especial: apenas 40% dos brasileiros se sentem totalmente respeitados no ambiente digital, proporção muito inferior à dos locais de trabalho (61%) ou dos espaços religiosos (70%). Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, alertou que, com a expansão da inteligência artificial e a plataformização das relações, construir um ambiente digital saudável se torna urgente.

A discriminação não é abstrata para muitos: 30% relatam tê-la vivido, motivada principalmente por condição social, religião, gênero e raça. Para explicar as raízes da desigualdade, os brasileiros apontam a falta de políticas públicas, a má gestão e a impunidade diante da corrupção. Como solução, 30% priorizam o investimento na educação pública — e 79% concordam que ela é fundamental para reduzir as disparidades. A cultura, embora valorizada, ainda é percebida como concentrada nas classes mais altas, revelando um desafio coletivo: transformá-la de privilégio em direito efetivamente exercido por todos.

Três em cada quatro brasileiros enxergam seu país como profundamente desigual. Esse é o achado central de uma pesquisa do Observatório Fundação Itaú, realizada em junho com 2.787 pessoas espalhadas pelo território nacional. O levantamento, feito em parceria com Plano CDE e Datafolha, não apenas confirma o que muitos já suspeitavam — que o Brasil é um país marcado por abismos sociais — mas mapeia com precisão onde esses abismos se abrem com mais força e quem os sente com maior intensidade.

A percepção da desigualdade não é uniforme. Mulheres a sentem mais agudamente que homens: 82% delas consideram o país profundamente desigual, contra os 77% da média geral. Pessoas mais velhas e aquelas com menos anos de escolaridade também tendem a ver o Brasil dessa forma. Quando o assunto é raça, a disparidade salta aos olhos. Dois terços dos entrevistados (68%) acreditam que pessoas brancas têm vantagem clara no mercado de trabalho em relação a pessoas negras. Essa mesma desvantagem se repete no acesso a boas escolas (63%) e na possibilidade de morar em bairros com infraestrutura decente (60%).

No campo do gênero, a percepção de injustiça também é forte. Pouco mais da metade dos brasileiros (55%) acredita que homens têm chances maiores de conseguir empregos bem remunerados. Entre mulheres, essa proporção sobe para 59%. Jovens de 18 a 24 anos são ainda mais céticos: 65% deles veem essa vantagem masculina como real. As desigualdades territoriais, por sua vez, são quase consenso nacional. Sete em cada dez brasileiros concordam que quem vive em cidades grandes tem acesso privilegiado a vagas em bons empregos (77%), atividades culturais (74%), ensino superior (73%) e escolas de qualidade (72%).

Um dado particularmente preocupante emerge quando se examina onde as pessoas se sentem respeitadas. Apenas 40% dos brasileiros afirmam se sentir totalmente respeitados no ambiente digital — uma proporção bem menor que a dos locais de trabalho (61%) e dos espaços religiosos (70%). Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, chamou atenção para essa lacuna, alertando que com o crescimento das tecnologias de inteligência artificial e da plataformização das relações, o ambiente digital se torna cada vez mais central na vida das pessoas, tornando urgente a construção de relações saudáveis e respeitosas nesse espaço.

A discriminação não é apenas uma percepção abstrata para muitos brasileiros. Três em cada dez (30%) relatam ter sofrido algum tipo de preconceito. Os motivos mais frequentes são a condição social (35%), seguida por religião (28%), questões de gênero (25%) e raça (24%). Quando questionados sobre as raízes dessas desigualdades, os brasileiros apontam principalmente a falta de políticas públicas (24%) e a má gestão pública (18%). Há também forte concordância sobre o papel da impunidade diante da corrupção (76%) e de fatores históricos, como o racismo (47%) e o legado da escravidão nas oportunidades para pessoas negras (44%).

Sobre como construir um Brasil mais justo, 30% da população aponta o investimento e a melhoria da educação pública como essencial. Quando provocados especificamente sobre o tema, 79% concordam que a educação é fundamental para reduzir a desigualdade. A cultura, porém, ocupa um lugar peculiar na percepção dos brasileiros. Embora reconheçam sua importância, ela não aparece como prioridade imediata nas respostas. Saron explica que a pesquisa revelou uma contradição: os brasileiros valorizam a cultura e reconhecem seu papel na redução das desigualdades, mas a veem como algo concentrado nas classes econômicas mais altas, não como um direito que lhes pertence. Essa lacuna entre valorização e acesso efetivo sugere um desafio para a sociedade civil, o poder público e o terceiro setor: consolidar o entendimento de que a cultura é um direito fundamental e ampliar o exercício efetivo desse direito.

É preocupante constatar que o ambiente digital é um dos principais cenários onde o desrespeito se manifesta
— Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú
Os brasileiros ainda não reconhecem e acessam plenamente a cultura como um direito fundamental
— Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que você acha que apenas 40% das pessoas se sentem respeitadas na internet, enquanto 70% se sentem respeitadas em espaços religiosos?

Model

Acho que tem a ver com anonimato e falta de consequência. Na religião, você está em comunidade, há rosto, há nome. Na internet, as pessoas podem ser quem quiserem, e isso muda o comportamento.

Inventor

Mas a pesquisa mostra que mulheres, pessoas negras e jovens veem a desigualdade de forma ainda mais aguda. O que isso diz?

Model

Diz que quem está na margem sente a margem com mais clareza. Não é abstrato para eles — é a vida deles, dia após dia.

Inventor

A educação aparece como solução para 79% das pessoas. Você acha que elas entendem o que isso significa?

Model

Entendo que é mais esperança do que clareza. Educação é a resposta fácil porque ninguém discorda dela. Mas a pesquisa também mostra que as pessoas não veem a cultura como prioridade, mesmo reconhecendo que ela importa. Há uma desconexão entre o que as pessoas valorizam e o que acham possível.

Inventor

Então a discriminação que 30% relataram sofrer — você acha que é subestimada?

Model

Muito provavelmente. Há discriminação que as pessoas nem nomeiam como tal. Há também a que elas normalizaram tanto que nem contam mais como discriminação.

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