Pesquisa revela dilema dos jovens gaúchos: 93,6% querem sair, mas 45,4% desejam ficar

Mais de 300 mil gaúchos migraram do Estado em dez anos, representando perda de 3,1% da população e impacto significativo na estrutura produtiva regional.
Um dilema entre pertencer e prosperar
O jovem gaúcho enfrenta a tensão entre identidade cultural e aspirações econômicas.

No coração do Rio Grande do Sul, uma geração inteira se vê dividida entre o amor às raízes e a necessidade de horizontes mais amplos. Uma pesquisa inédita apresentada em Porto Alegre revela que 93,6% dos jovens gaúchos considerariam deixar o Estado por salários insuficientes e falta de perspectivas — enquanto quase metade ainda sonha em construir sua vida ali mesmo. É o retrato de uma tensão antiga entre pertencimento e prosperidade, agravada por uma sangria silenciosa de mais de 300 mil pessoas em uma década.

  • A urgência é demográfica: o Rio Grande do Sul perdeu o equivalente a uma cidade inteira em dez anos, com saldo migratório negativo de 3,1% enquanto deveria ter crescido 4,5%.
  • O dinheiro fala mais alto — salários baixos lideram as razões para partir, seguidos pela falta de qualidade de vida e pelo horizonte estreito de crescimento profissional.
  • A contradição é real e dolorosa: os mesmos jovens que querem ir embora carregam orgulho do chimarrão, da tradição e dos laços familiares que os prendem ao sul.
  • Especialistas apontam a Metade Sul como epicentro da crise, marcada pela concentração fundiária e pela ausência de empregos qualificados e bem remunerados.
  • A saída proposta passa por tecnologia, indústria 4.0, atração de empresas com salários elevados e políticas que tornem o primeiro emprego gaúcho competitivo com o restante do país.

Uma pesquisa apresentada no Tecnopuc, em Porto Alegre, expôs um paradoxo que define a juventude gaúcha: 93,6% dos jovens entre 18 e 32 anos admitem que deixariam o Rio Grande do Sul em busca de melhores oportunidades, mas 45,4% desejam, ao mesmo tempo, construir sua vida no Estado. O levantamento, encomendado pela Invest RS e pela Secretaria de Comunicação à consultoria ACE Post-Consultancy, ouviu 950 pessoas e realizou entrevistas em profundidade com 54 jovens e especialistas.

O dilema é ao mesmo tempo econômico e afetivo. Tradição, cultura e vínculos familiares aparecem como os maiores ativos do ser gaúcho — mas apenas 20,7% consideram o Estado o lugar ideal para atingir seu potencial. Salários baixos lideram os motivos para partir, seguidos pela falta de qualidade de vida e pelas poucas oportunidades de crescimento. A psicóloga Luciane Paim, uma das responsáveis pela pesquisa, resume o sentimento: o jovem gaúcho enfrenta um vazio existencial sobre se seu futuro pode, de fato, ser construído ali.

Os números da migração confirmam a gravidade. Estudo da Unisinos mostrou que a população gaúcha deveria ter crescido 4,5% entre 2010 e 2022, mas avançou apenas 1,4% — uma diferença que representa mais de 300 mil pessoas que deixaram o Estado, o tamanho de uma Novo Hamburgo inteira. A Metade Sul concentra as cidades mais afetadas, marcadas pela concentração fundiária e pela escassez de empregos qualificados.

Para reverter o quadro, especialistas recomendam investir em setores de ponta como tecnologia da informação, semicondutores e energias renováveis, além de avançar na indústria 4.0 e atrair empresas com salários elevados. Caroline Bücker, da Invest RS, destaca que o Estado exporta talentos especialmente na área de tecnologia. Outras propostas incluem alinhar treinamentos às demandas reais do mercado, melhorar as condições do primeiro emprego e abrir canais de escuta para que os jovens participem das decisões estratégicas — ressignificando a tradição gaúcha sem abrir mão da pluralidade e da inovação.

Uma pesquisa divulgada na quinta-feira revelou um paradoxo que define a relação dos jovens gaúchos com seu Estado: 93,6% deles deixariam o Rio Grande do Sul em busca de melhores oportunidades, mas quase metade — 45,4% — expressa um desejo claro de construir a vida aqui. O levantamento, apresentado no evento Juventude do Amanhã no Tecnopuc em Porto Alegre, foi encomendado pela Invest RS e pela Secretaria de Comunicação do Estado à consultoria ACE Post-Consultancy, combinando questionários com 950 pessoas entre 18 e 32 anos, entrevistas em profundidade com 54 jovens e especialistas, e análises sócio-históricas.

O dilema é visceral. Os jovens gaúchos cultivam vínculos profundos com a cultura regional — orgulho do chimarrão, do churrasco, da tradição — mas sentem-se presos entre pertencer e prosperar. A tradição e a cultura lideram o ranking do que há de bom em ser gaúcho, enquanto o preconceito, incluindo machismo e racismo, marca o lado negativo. Apenas 20,7% consideram o Rio Grande do Sul o lugar ideal para atingir seu potencial. Os que preferem ficar citam vínculos sociais e familiares, salários e segurança como razões principais, embora nem todos descartem a possibilidade de se mudar.

A razão número um para sair é clara: dinheiro. Os entrevistados apontam salários baixos como o principal motivo para deixar o Estado, seguido por falta de qualidade de vida e poucas oportunidades de crescimento profissional. Como analisa Luciane Paim, psicóloga e uma das responsáveis pela pesquisa, o jovem gaúcho enfrenta um vazio: será que dá para seguir aqui? Será que o meu futuro pode ser construído? Que opções tenho?

Os números revelam a escala do problema. Um estudo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos entregue ao Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul mostrou que a população gaúcha deveria ter crescido 4,5% entre 2010 e 2022 considerando nascimentos e mortes. Na realidade, avançou apenas 1,4%. A diferença — 3,1% — corresponde a um saldo migratório negativo de mais de 300 mil pessoas em dez anos, o equivalente ao tamanho de uma Novo Hamburgo inteira. A Metade Sul concentra a maior parte das cidades que viram sua população partir em busca de nova vida.

O economista Marcos Lélis, professor da Unisinos, aponta um problema estrutural: o Estado não gera empregos com salários elevados e nível alto de qualidade educacional. A Metade Sul, em particular, apresenta grandes propriedades concentradoras de renda. Santa Catarina, por contraste, registrou saldo migratório 8,8% positivo no mesmo período, embora Lélis ressalve que o Rio Grande do Sul deve buscar sua própria fórmula, já que os catarinenses contam com forte participação do turismo em sua matriz econômica.

Para desestimular a saída de talentos, especialistas recomendam um conjunto de estratégias de médio e longo prazo. Investir em setores de ponta — tecnologia da informação, semicondutores, nanotecnologia, energias renováveis — é essencial. Agregar serviços tecnológicos que melhorem a produtividade através da indústria 4.0, baseada na integração de tecnologias digitais aos processos produtivos, criaria fábricas mais conectadas e eficientes. Aproveitar polos de excelência já existentes nas áreas de tecnologia, semicondutores e saúde, aprimorando-os com nanotecnologia e inteligência artificial, também é recomendado.

A atração de novas empresas com média salarial elevada e vagas para profissionais altamente qualificados é uma das principais formas de criar melhores oportunidades. Isso envolve melhorar infraestrutura, qualificar mão de obra e divulgar oportunidades gaúchas em outros Estados e países. Caroline Bücker, diretora de Inteligência e Estratégia da Invest RS, enfatiza que o Estado é exportador de talentos especialmente em tecnologia, e que os jovens veem salários insuficientes aqui. Outras ações incluem unificar o trabalho de entidades como Fiergs, Sebrae e governo para alinhar treinamentos com demandas reais dos setores; melhorar as condições dos primeiros empregos, principalmente em comparação a outros Estados; e abrir canais de escuta envolvendo a camada mais jovem em decisões estratégicas, ressignificando a tradição sem desprezar as raízes gaúchas, mas abrindo espaço para pluralidade, diversidade e experimentação.

A gente está falando de um dilema entre pertencer e prosperar. O jovem gaúcho tem uma identificação muito grande com a cultura, demonstra orgulho do chimarrão, do churrasco. Mas também há um desejo de renovação, de busca, de prosperar, e aí fica meio que um vazio: será que dá pra seguir aqui?
— Luciane Paim, psicóloga e responsável pela pesquisa
Somos um Estado exportador de talentos, especialmente na tecnologia. A visão do jovem é de que ele ainda não tem um salário como ele gostaria aqui, então precisamos atrair empresas que banquem salários maiores
— Caroline Bücker, diretora de Inteligência e Estratégia da Invest RS
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Como é possível que 93,6% queira sair mas 45,4% deseje ficar? Não parece contraditório?

Model

Não é contradição, é ambivalência. A mesma pessoa pode querer sair e também querer ficar. Ela ama o lugar, mas não vê futuro ali. São desejos que coexistem.

Inventor

E qual é o peso maior — o amor pelo lugar ou a necessidade de ganhar mais?

Model

A pesquisa mostra que o dinheiro vence. Salários baixos são a razão número um para partir. Mas o que torna isso tão doloroso é que não é apenas uma decisão racional. É deixar para trás vínculos familiares, cultura, identidade.

Inventor

Por que Santa Catarina consegue reter jovens e o Rio Grande do Sul não?

Model

Santa Catarina tem turismo como motor econômico, o que absorve renda externa e cria empregos diversos. Aqui, a estrutura produtiva é mais concentrada. A Metade Sul, especialmente, tem grandes propriedades que não geram empregos suficientes com bons salários.

Inventor

Então a solução é simplesmente trazer mais empresas de tecnologia?

Model

É parte da solução, mas não tudo. Também é preciso melhorar o primeiro emprego, unificar a qualificação de mão de obra com as demandas reais, e criar espaço para que o jovem sinta que pode experimentar, errar, crescer aqui sem tanta pressão.

Inventor

E a tradição? Ela não é um ativo?

Model

É, mas está sendo vivida como peso. O jovem sente orgulho do chimarrão, do churrasco, mas também sente que há pouco espaço para renovação, para ser diferente. Ressignificar a tradição sem desprezá-la é o desafio.

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