Pesquisa da USP revela mecanismo dos corticoides contra Covid-19 grave

Os corticoides estimulam e inibem simultaneamente, controlando a inflamação e prevenindo coágulos
Pesquisadores da USP revelam o mecanismo duplo que torna os corticoides eficazes contra Covid-19 grave.

Em Ribeirão Preto, pesquisadores da USP desvendaram um elo bioquímico inesperado: os corticoides, primeiros medicamentos a demonstrar eficácia real contra a Covid-19 grave, agem estimulando a produção de endocanabinoides — moléculas que o corpo já produz para regular inflamação e coagulação. A descoberta, publicada na revista Viruses, não apenas explica um mistério clínico da pandemia, mas aponta para um horizonte mais amplo em que a compreensão do sistema endocanabinoide pode guiar novos tratamentos para doenças inflamatórias e neurológicas.

  • Durante a pandemia, os corticoides salvavam vidas sem que ninguém soubesse exatamente por quê — uma lacuna científica que incomodava tanto quanto aliviava.
  • A hipótese inicial dos pesquisadores foi derrubada pelos próprios dados: pacientes graves tinham mais endocanabinoides, não menos, revelando que o corpo e o tratamento interagiam de forma inesperada.
  • O mecanismo identificado é duplo e preciso — os corticoides inibem enzimas que degradam endocanabinoides, elevando seus níveis e, em paralelo, reduzindo a agregação plaquetária que causa coágulos fatais.
  • A descoberta abre caminho para terapias combinadas com corticoides e canabinoides, mas o coordenador da pesquisa alerta: o momento certo de intervir é tão decisivo quanto o medicamento escolhido.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto publicaram na revista Viruses um estudo que responde a uma pergunta deixada em aberto desde os primeiros meses da pandemia: por que os corticoides funcionam tão bem nos casos mais graves de Covid-19? A resposta envolve uma classe de moléculas pouco conhecida do grande público — os endocanabinoides, neurotransmissores produzidos pelo próprio organismo com propriedades anti-inflamatórias e reguladoras da coagulação.

A equipe, coordenada pelo professor Carlos Arterio Sorgi, partiu de uma hipótese razoável: pacientes graves provavelmente teriam deficiência dessas substâncias. Os dados, porém, apontaram o contrário. Eram justamente os pacientes em estado crítico que apresentavam concentrações mais elevadas de endocanabinoides — e quanto maiores esses níveis, menor era o Fator de Agregação Plaquetária, marcador associado à formação de coágulos que danificam órgãos.

A explicação estava no tratamento. Os corticoides administrados aos pacientes graves afetam as enzimas responsáveis por degradar os endocanabinoides, fazendo seus níveis subirem. Por mecanismo semelhante, reduzem também os fatores de coagulação. O efeito é duplo: inflamação mais controlada e menor risco de trombose — dois dos principais vilões da Covid-19 severa.

A descoberta sugere que corticoides e canabinoides, naturais ou sintéticos, possam vir a ser usados de forma complementar em outras doenças inflamatórias e neurológicas. Sorgi, porém, faz um alerta importante: o momento da intervenção é crítico. Iniciar o tratamento cedo demais pode suprimir a resposta imune e agravar o quadro; tarde demais, os danos já podem ser irreversíveis. Novos estudos serão necessários para definir com precisão quando e como agir.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto descobriram por que os corticoides funcionam tão bem contra a Covid-19 grave — e a resposta está em uma molécula que a maioria das pessoas nunca ouviu falar. O estudo, publicado na revista Viruses, rastreia um mecanismo bioquímico elegante: esses medicamentos estimulam a produção de endocanabinoides, neurotransmissores que reduzem a inflamação e, simultaneamente, diminuem o risco de coágulos perigosos nos pacientes mais doentes.

Quando a pandemia começou, os corticoides foram os primeiros fármacos a demonstrar eficácia real contra os casos mais graves de Covid-19, antes mesmo das vacinas existirem. Mas ninguém entendia completamente como funcionavam. A equipe da USP decidiu investigar o papel dos endocanabinoides — moléculas que regulam a atividade neurológica e possuem propriedades anti-inflamatórias — na progressão da doença. A hipótese inicial era simples: talvez os pacientes graves tivessem deficiência desses compostos, enquanto os leves tivessem níveis mais altos.

O que encontraram foi o oposto. "Para nossa surpresa, observamos exatamente o contrário", explica o professor Carlos Arterio Sorgi, coordenador da pesquisa. Os pacientes em estado grave apresentavam concentrações elevadas de endocanabinoides no sangue, enquanto os casos leves tinham níveis mais baixos. Mas havia um padrão: quanto maior a quantidade dessas substâncias, menor era a taxa de Fator de Agregação Plaquetária — um marcador de formação de coágulos que podem danificar órgãos e tecidos.

Depois de analisar todas as variáveis, os cientistas perceberam que a chave estava no tratamento. Os pacientes graves recebiam corticoides, e esses medicamentos alteravam o metabolismo dos endocanabinoides. Mais precisamente, os corticoides afetam as enzimas responsáveis por quebrar essas moléculas, fazendo seus níveis subirem. Ao mesmo tempo, por um mecanismo semelhante, eles reduzem os fatores de coagulação. O resultado é duplo: mais inflamação controlada, menos risco de trombose.

Os achados abrem portas para terapias futuras. Corticoides e canabinoides — naturais ou sintéticos — poderiam servir como medicamentos complementares para outras doenças inflamatórias e neurológicas. Mas Sorgi adverte que o caminho não é simples. O timing é crítico: começar o tratamento muito cedo pode suprimir a resposta imunológica do corpo e piorar o quadro. Começar muito tarde, quando o tecido já foi danificado demais, pode não reverter o estrago. Mais pesquisas são necessárias para determinar exatamente quando e como usar esses medicamentos com segurança.

Para nossa surpresa, observamos exatamente o oposto: casos graves apresentavam níveis elevados de endocanabinoides, enquanto os casos leves apresentavam níveis mais baixos
— Professor Carlos Arterio Sorgi, coordenador da pesquisa
Há casos em que o dano ao tecido foi tão grande que não é possível reverter. E, ao contrário, se começar o tratamento cedo demais, os corticoides podem inibir a resposta imunológica e prejudicar ainda mais o paciente
— Professor Carlos Arterio Sorgi
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que os pesquisadores ficaram surpresos com o que encontraram?

Model

Esperavam que pacientes graves tivessem menos endocanabinoides, como se o corpo estivesse deficiente. Mas descobriram o oposto — os graves tinham mais. A surpresa foi perceber que isso não era um fracasso do corpo, mas uma resposta que os corticoides estavam amplificando.

Inventor

Então os corticoides não criam os endocanabinoides do nada?

Model

Não. O corpo já produz essas moléculas naturalmente. Os corticoides mudam a forma como o corpo as metaboliza — basicamente, faz com que durem mais tempo na circulação, aumentando sua concentração.

Inventor

E isso reduz coágulos porque?

Model

Os endocanabinoides e os fatores de coagulação são regulados pelas mesmas enzimas. Quando os corticoides afetam essas enzimas, estimulam os endocanabinoides enquanto inibem os fatores de coagulação. É como apertar um pedal e soltar outro ao mesmo tempo.

Inventor

Isso significa que canabinoides poderiam ser usados em vez de corticoides?

Model

Talvez, mas não é tão direto. Os corticoides fazem muito mais do que isso — têm efeitos anti-inflamatórios amplos. Canabinoides poderiam ser complementares, não substitutos. E há riscos: começar cedo demais pode prejudicar a imunidade.

Inventor

Qual é o próximo passo?

Model

Entender o timing perfeito. Quando exatamente iniciar o tratamento, em que dose, para qual tipo de paciente. A descoberta abre a porta, mas ainda há muito a aprender antes de usá-la na prática.

Quer a matéria completa? Leia o original em Brasil 247 ↗
Fale Conosco FAQ