Não houve tempo para apagar nada quando o primeiro celular foi apreendido
Análise de 60 aparelhos eletrônicos e milhares de documentos apreendidos pode levar meses, mantendo investigação em etapa intermediária com novas operações no radar. Primeiro celular de Vorcaro, apreendido antes de tentativa de fuga, concentra provas de fraude bilionária, lavagem de dinheiro e cooptação de agentes públicos dos três poderes.
- Análise de 60 aparelhos eletrônicos e milhares de documentos pode se estender até 2027
- Primeiro celular de Vorcaro apreendido em 17 de novembro revelou rede de cooptação dos três poderes
- Minuta de contrato de R$ 50 milhões encontrada em endereços de Vorcaro coincide com saldo de contrato anterior com escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes
- Perícia foi travada por semanas em 2026 quando ministro Dias Toffoli restringiu análise a quatro peritos
A Polícia Federal ainda analisa celulares e documentos da operação Compliance Zero, com perícias que podem durar até 2027. O primeiro aparelho de Vorcaro revelou rede de cooptação envolvendo poderes públicos.
A Polícia Federal está presa em um labirinto de evidências que pode não ter saída antes de 2027. Centenas de dispositivos eletrônicos e milhares de documentos físicos aguardam análise completa no caso Master, a apuração financeira mais complexa da história recente do país. Apenas três telefones celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e aproximadamente 60 outros aparelhos apreendidos na operação Compliance Zero permanecem sob perícia, com o ritmo atual sugerindo que o trabalho se estenderá por meses ainda.
Vorcaro foi detido na noite de 17 de novembro quando se preparava para deixar o país. Esse timing revelou-se crucial: os investigadores acreditam que a pressa impediu o ex-banqueiro de apagar conversas ou destruir provas. Ao todo, oito celulares foram localizados em três apreensões distintas. Cinco passaram por perícia total ou parcial. Mas foi o primeiro aparelho, coletado naquela noite de novembro, que se tornou o mais revelador. A Polícia Federal precisou recorrer a softwares forenses de ponta depois que Vorcaro se recusou a fornecer as senhas, conseguindo reconstruir conversas, agendas, históricos de localização e arquivos de mídia que sustentam suspeitas de fraude bilionária, lavagem de dinheiro e cooptação de agentes públicos. Esse primeiro celular ainda não teve sua análise finalizada. Por ser um equipamento de uso pessoal, concentra arquivos com criptografia complexa e mensagens deletadas que os peritos continuam processando.
O volume de trabalho é descomunal. Além dos dispositivos eletrônicos, investigadores analisam milhares de documentos físicos: contratos, planilhas, anotações manuscritas e relatórios internos que ainda aguardam digitalização. Parte do material passa por reconhecimento óptico de caracteres para se tornar pesquisável, mas a maior parte depende de leitura humana qualificada. Os documentos não são examinados isoladamente. Peritos realizam cruzamentos entre o material apreendido com Vorcaro e o recolhido com outros investigados, buscando coincidências de datas, valores e nomes que apontem provas articuladas. Pelo menos 100 dispositivos eletrônicos, a maioria celulares, foram interceptados com cerca de duas dezenas de alvos. Todos passam por perícias e procedimentos de correlação de dados.
O que emergiu das análises até agora revela um ecossistema que vai muito além de irregularidades bancárias. Mensagens e áudios recuperados apontam para a existência de grupos chamados internamente de "A Turma" e "Os Meninos", formados por policiais e ex-agentes de segurança, hackers e operadores de confiança do banqueiro, que monitoravam desafetos e promoveram intimidações. O material indica que esse núcleo paralelo teve acesso indevido a sistemas sigilosos e que policiais da ativa e aposentados, além de servidores do Banco Central e do Banco Regional de Brasília, teriam recebido pagamentos e benefícios por informações privilegiadas. Segundo o relator do caso no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, Vorcaro construiu uma ampla rede de relações com integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e do alto escalão do Judiciário, além do envolvimento de seu próprio núcleo familiar, dando ao esquema "contornos de máfia".
Entre os documentos mais sensíveis está uma minuta não assinada de um contrato de 50 milhões de reais. O valor coincide com o saldo que faltava para liquidar um contrato anterior de 129 milhões de reais firmado entre o Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Alexandre de Moraes. O achado tornou-se um dos pontos em alerta da investigação justamente por envolver, mesmo que indiretamente, a cúpula do tribunal. O ministro, o escritório e sua esposa não são investigados. A banca nega a prestação de serviços e o recebimento dos valores. Investigadores submeteram esses arquivos à perícia de integridade para confirmar metadados e marcações de horário, blindando o material contra contestações sobre eventual manipulação digital.
O avanço técnico não seguiu um caminho linear. No início de 2026, a condução da perícia se tornou uma disputa institucional. O ministro Dias Toffoli, então relator, reteve celulares e documentos, restringindo a análise a apenas quatro peritos, decisão que travou as investigações por semanas. O quadro mudou quando o processo passou para André Mendonça, que restabeleceu o fluxo de trabalho da Polícia Federal, distribuindo o material entre peritos federais e destravando o que hoje é tratado como uma das fases mais produtivas. Mas a própria perícia gerou efeitos colaterais. Em maio de 2026, um perito criminal foi investigado e afastado sob suspeita de vazar dados sigilosos. Outros agentes também foram alvos de sanções, sob suspeita de integrarem uma rede paralela de monitoramento ligada aos próprios investigados.
A Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal rejeitaram duas propostas de delação premiada de Vorcaro, justificando que o ex-banqueiro não apresentava fatos novos além dos já colhidos em diferentes fases da operação. Investigadores também analisam material que sugere que operadores do mercado financeiro teriam conhecimento da fragilidade do Master antes da liquidação extrajudicial, possivelmente vendendo papéis ligados ao banco antes que o problema se tornasse público. Se confirmada, essa linha de apuração alcançaria também o mercado de capitais. Fontes próximas às apurações afirmam que o caso se encontra em etapa intermediária de investigação, com novas fases da operação no radar. Tanto a análise quanto a investigação devem se arrastar por meses, com potencial para avançar sobre o período eleitoral e se estender por 2027.
Notable Quotes
O esquema teria contornos de máfia, envolvendo integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e do alto escalão do Judiciário, além do núcleo familiar de Vorcaro— Ministro André Mendonça, relator do caso no STF
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um único celular de Vorcaro se tornou tão central para toda a investigação?
Porque ele foi apreendido na primeira noite, quando Vorcaro estava sendo detido. Não houve tempo para apagar nada. É como encontrar um diário aberto em cima da mesa.
Mas se a análise começou há meses, por que ainda não está pronta?
Porque não é um diário simples. Tem criptografia complexa, mensagens deletadas que precisam ser reconstruídas, e cada conversa precisa ser cruzada com milhares de documentos físicos para confirmar o que realmente aconteceu.
Esses grupos chamados "A Turma" e "Os Meninos" — eram conhecidos antes das perícias?
Não. Só apareceram quando os peritos conseguiram acessar os arquivos do celular. Ninguém sabia que Vorcaro tinha uma rede paralela de policiais, hackers e operadores monitorando pessoas e vendendo informações.
E quanto ao contrato de 50 milhões com o escritório da esposa do ministro?
É delicado. Não é prova de crime, mas é um achado que exigiu perícia de integridade para confirmar que os arquivos não foram manipulados. Investigadores estão sendo muito cuidadosos.
Por que a investigação foi travada por semanas no início de 2026?
O ministro Dias Toffoli restringiu tudo a quatro peritos e reteve os aparelhos. Quando André Mendonça assumiu, distribuiu o trabalho entre mais peritos e destrancou tudo. Mas isso mostra como a própria investigação virou disputa institucional.
Há risco de que tudo isso nunca seja concluído?
Não de nunca, mas de levar até 2027 ou além. O volume é imenso. Milhares de documentos ainda precisam de leitura humana qualificada. Cada cruzamento de dados abre novas frentes.