Pepe Escobar: negociações Irã-EUA em Islamabad nascem sob desconfiança total

O Irã só vai aceitar o fim da guerra se esses princípios forem confirmados em detalhe
Posição iraniana apresentada ao Conselho Supremo de Segurança, deixando claro que duas semanas de negociações não significam rendição.

Escobar classifica chances de sucesso como 0,5 em escala de 10, argumentando que distância entre exigências iranianas e posições americanas é intransponível. China atua decisivamente para convencer Irã a negociar, garantindo sustentação política e protegendo interesses energéticos e logísticos em rotas eurasiáticas.

  • Escobar avalia chances de sucesso em 0,5 em escala de 10
  • China intervém decisivamente para convencer Irã a negociar
  • Irã apresenta dez princípios, quase todos rejeitáveis por Washington
  • Negociações previstas para Islamabad, possivelmente no Hotel Serena
  • Ataques continuam no Líbano e Beirute mesmo após anúncios de trégua

Analista Pepe Escobar avalia como praticamente impossível um acordo duradouro entre Irã e Estados Unidos em negociações previstas para Islamabad, citando desconfiança mútua, incompatibilidades estratégicas e intervenção decisiva da China.

As negociações entre Irã e Estados Unidos estão marcadas para começar em Islamabad nesta semana, possivelmente no Hotel Serena, onde as delegações serão hospedadas. Mas o analista geopolítico Pepe Escobar não vê nelas qualquer promessa real de paz. Em seu programa Pepe Café, ele descreveu o cenário com pessimismo extremo: se fosse dar uma nota de zero a dez para as chances de sucesso, daria 0,5. O abismo entre o que Teerã exige e o que Washington está disposto a oferecer é, em sua avaliação, simplesmente intransponível.

O que torna essas conversas particularmente frágeis é a desconfiança que as envolve desde o início. Escobar argumenta que os Estados Unidos têm um histórico de violar compromissos duradouros, o que esvazia qualquer confiança iraniana num cessar-fogo estável. Além disso, mesmo após anúncios de trégua, ataques continuaram no Líbano e em Beirute, confirmando a precariedade de qualquer acerto. Para o analista, o padrão é explorar brechas em compromissos formais para manter ofensivas militares e ampliar a pressão sobre adversários regionais.

O papel da China nesse processo é decisivo e revelador. Segundo Escobar, Pequim atuou no último momento para convencer o Irã a aceitar sentar-se novamente à mesa com os americanos. O embaixador iraniano em Pequim, Abdol Reza Rahmani Fazli, teria reforçado essa percepção. Os chineses sinalizaram diretamente à liderança iraniana que dariam sustentação política à sua posição nas negociações — uma mensagem clara de que Pequim agora tem "skin in the game", ou seja, participação direta no risco político do processo. Essa intervenção está ligada aos interesses energéticos e logísticos de Pequim: a China recebe diariamente grande volume de petróleo iraniano e construiu uma arquitetura comercial e financeira com Teerã para contornar sanções e o sistema Swift. O maior ganho chinês seria evitar, ao menos temporariamente, um colapso mais profundo no estreito de Ormuz e nas rotas energéticas da Eurásia.

Escobar contesta frontalmente a ideia de que o Paquistão atue como mediador autônomo. Ele sustenta que o governo paquistanês desempenhou papel subordinado aos interesses da Casa Branca, descrevendo-o como "o moleque de recados dessa história". Embora reconheça a importância geopolítica do Paquistão como potência nuclear islâmica, vizinha do Irã e parceira estratégica da China, o analista considera que Teerã jamais aceitaria confiar apenas em Islamabad sem a entrada de Pequim como fiadora política.

O conteúdo das discussões revela o tamanho do abismo. O Irã apresentou dez princípios que deixam claro: aceitar duas semanas de negociações não significa reconhecer o fim da guerra. Entre esses pontos estão o compromisso de não agressão, a preservação do controle iraniano sobre o estreito de Ormuz, o reconhecimento do direito ao enriquecimento de urânio, o fim das sanções primárias e secundárias, o encerramento de medidas internacionais contra Teerã, compensações pelos danos sofridos e a retirada das forças americanas do oeste da Ásia. Escobar argumenta que quase todos esses pontos tendem a ser rejeitados por Washington. Há um "clash total" entre as partes, inclusive no plano da tradução política e diplomática. O que os iranianos entendem como soberania e resistência está muito distante daquilo que os americanos enxergam como aceitável.

Escobar insere a crise num quadro geopolítico mais amplo. A guerra não pode ser compreendida apenas como um confronto bilateral entre Irã e Estados Unidos. Trata-se, em sua interpretação, de uma ofensiva contra os três principais protagonistas da emergência do mundo multipolar: Irã, China e Rússia. O Irã ocupa posição central por controlar fontes de energia e corredores fundamentais de conectividade euroasiática. A China aparece como potência geoeconômica diretamente atingida por qualquer desestabilização prolongada. Já a Rússia seria afetada pelo entrelaçamento entre a guerra no oeste da Ásia e a guerra por procuração da Otan na Ucrânia.

A disputa por corredores logísticos e energéticos é central. O estreito de Ormuz e as rotas financiadas pela China através do território iraniano se tornaram peças decisivas da disputa global. Há uma "guerra dos corredores de conectividade", envolvendo de um lado projetos vinculados à integração eurasiática e, de outro, iniciativas patrocinadas por Washington para reorganizar fluxos comerciais sob outra lógica estratégica. Escobar menciona ainda o bombardeio de um trecho ferroviário iraniano financiado pela China e inserido nas Novas Rotas da Seda, o que elevaria ainda mais o peso de Pequim na crise.

Ao fim de sua análise, Escobar rejeita qualquer conclusão triunfalista. Embora afirme que os objetivos declarados dos Estados Unidos não foram alcançados — mudança de regime, limitação do programa iraniano, redução da capacidade de projeção de poder de Teerã — ele adverte que ainda é cedo para falar em derrota definitiva de Washington ou em estabilização regional. Sua síntese é de perigo prolongado. O eventual encontro em Islamabad pode fracassar rapidamente, servir como manobra para ganho de tempo ou simplesmente desmoronar sob o peso das violações em campo e das divergências estratégicas. Mesmo assim, ele aponta que houve um recuo tático diante do risco de uma devastação ainda maior — o que ele chama de uma "rendição estratégica da barbárie", mas com a ressalva de que isso pode ser apenas temporário. A crise está longe de ter sido resolvida, e o futuro imediato do oeste da Ásia dependerá não apenas do que for dito em Islamabad, mas da capacidade — até agora não demonstrada — de transformar promessas frágeis em compromisso político real.

O império do caos é totalmente incapaz de qualquer acordo
— Pepe Escobar
Esta guerra é uma guerra contra os três principais protagonistas da emergência do mundo multipolar: Irã, China e Rússia
— Pepe Escobar
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que você dá apenas 0,5 em uma escala de dez para essas negociações? Isso não é um pouco extremo?

Model

Não é extremo quando você olha para o histórico. Os Estados Unidos violaram compromissos duradouros repetidamente. O Irã sabe disso. E mesmo agora, enquanto falam de cessar-fogo, os ataques continuam no Líbano e em Beirute. Como você constrói confiança nesse cenário?

Inventor

Então por que o Irã aceitou sentar-se à mesa? O que mudou?

Model

A China entrou no jogo. Pequim garantiu ao Irã que sustentaria sua posição nas negociações. Isso não é pequeno — a China tem interesses energéticos enormes em jogo, recebe petróleo iraniano diariamente. Sem essa garantia chinesa, o Irã nunca teria voltado à mesa.

Inventor

E o Paquistão? Não deveria ser um mediador neutro?

Model

O Paquistão foi subordinado aos interesses americanos desde o início. Teerã nunca confiaria apenas em Islamabad. Precisava de Pequim como fiadora. Isso muda completamente a dinâmica do que está acontecendo.

Inventor

Quais são os dez princípios que o Irã apresentou?

Model

Entre eles estão o direito ao enriquecimento de urânio, o fim das sanções, o controle sobre o estreito de Ormuz, compensações pelos danos, a retirada das forças americanas do oeste da Ásia. Praticamente todos serão rejeitados por Washington. É um abismo.

Inventor

Você acha que isso vai desmoronar no primeiro dia?

Model

Pode desmoronar, pode servir como ganho de tempo, pode virar uma pausa instável que explode quando alguém violar os termos. O que é certo é que não há ambiente real de desescalada aqui. Apenas uma pausa que pode ser quebrada a qualquer momento.

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