A censura está no centro das eleições, não nas margens
Biden e Harris contam com apoio da máquina de guerra dos EUA e aval da mídia hegemônica, segundo Pepe Escobar. Pepe defende Glenn Greenwald, acusado de censura, e aponta ligações da família Biden com esquemas de corrupção na Ucrânia.
- Biden e Harris contavam com apoio da máquina de guerra dos EUA e aval da mídia hegemônica
- Glenn Greenwald deixou The Intercept após reportagem sobre corrupção da família Biden na Ucrânia
- Escobar previu judicialização da eleição com batalha legal começando na noite de 3 de novembro
- Entrevista concedida à TV 247 no sábado, 31 de outubro de 2020
Correspondente internacional Pepe Escobar afirma que vitória democrata representa retomada do projeto imperial americano, com apoio da máquina de guerra e censura generalizada na mídia.
No sábado pela manhã, o correspondente internacional Pepe Escobar sentou-se diante das câmeras da TV 247 com uma tese clara: a eleição presidencial americana de 2020 não era apenas uma disputa entre dois candidatos, mas um ponto de inflexão para o projeto imperial dos Estados Unidos. Se Joe Biden e Kamala Harris vencesse, afirmou, significaria a "retomada do projeto imperial" — uma volta ao que ele via como o padrão histórico de dominação americana.
O que tornava essa retomada possível, na visão de Escobar, era a convergência entre poder político e poder de fogo. Biden e Harris, disse ele, contavam com o apoio integral da máquina de guerra americana — os militares, a inteligência, a infraestrutura de segurança nacional. E esse apoio institucional vinha acompanhado de algo igualmente crucial: o aval da mídia hegemônica. A imprensa tradicional, as grandes plataformas de tecnologia, até mesmo veículos que se apresentavam como alternativos — todos, na sua análise, alinhavam-se ao mesmo projeto.
Para Escobar, isso não era coincidência. "A censura está no centro das eleições dos Estados Unidos", declarou. Ele não falava de censura estatal no sentido clássico, mas de algo mais difuso e talvez mais eficaz: o silenciamento coordenado através de múltiplos canais de comunicação. As big techs removiam conteúdo. A mídia tradicional estabelecia narrativas. A mídia alternativa, que deveria oferecer contranarrativa, também se alinhava. O resultado era um espaço público onde certas histórias simplesmente não circulavam.
O jornalista Glenn Greenwald tornou-se, nesse contexto, um símbolo dessa censura. Greenwald havia deixado o site The Intercept após produzir uma reportagem que, segundo Escobar, era "ótima" — uma investigação que apontava conexões entre a família Biden e esquemas de corrupção na Ucrânia. A saída de Greenwald do veículo foi, na interpretação de Escobar, uma demonstração prática de como a censura funcionava: não através de proibição explícita, mas através de pressão institucional, de afastamento, de silenciamento.
Essa reportagem sobre a Ucrânia, continuou Escobar, tinha implicações legais profundas. A eleição americana, previu ele, seria judicializada. Não importava quem ganhasse — ambos os lados, democratas e republicanos, contestariam o resultado. "A apuração nos EUA vai ser muito mais complexa", afirmou. "Qualquer que seja o resultado, os democratas e os republicanos vão contestar. E a batalha legal vai começar na noite do dia 3." Ele falava como quem via não uma eleição, mas o prelúdio de uma crise institucional.
Escobar também tocou em outro tema que, na sua visão, revelava as contradições do império: o atentado terrorista em Nice, na França, que havia ocorrido dias antes. Ele rejeitava a narrativa de um "fascismo islâmico" abstrato e apontava, em vez disso, para as aventuras neocoloniais francesas — as intervenções militares, as políticas externas que geravam ressentimento e radicalização. O ataque, na sua leitura, era consequência direta dessas políticas. E quanto às charges do Charlie Hebdo, que frequentemente provocavam reações violentas, Escobar foi direto: "Charlie Hebdo é provocação gratuita, é raso, cru e sem imaginação". Não era defesa do terrorismo, mas uma recusa em separar a provocação da consequência, a liberdade de expressão do contexto político em que ela era exercida.
O que emergia dessa entrevista era uma visão do momento eleitoral americano como algo maior que uma disputa doméstica. Era, para Escobar, um capítulo na história mais longa do império — talvez, sugeriu o título da matéria, a "última cavalgada" antes do declínio. Uma vitória democrata consolidaria o poder das estruturas que sustentavam esse império. Uma derrota republicana não o enfraqueceria, mas o reorganizaria. De qualquer forma, o que estava em jogo era a capacidade de um sistema de manter sua hegemonia através de mecanismos que iam muito além do voto.
Citações Notáveis
A censura está no centro das eleições dos Estados Unidos. Isso vai das big techs, passa pela mídia tradicional e pela mídia supostamente alternativa— Pepe Escobar
Charlie Hebdo é provocação gratuita, é raso, cru e sem imaginação— Pepe Escobar
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Quando Escobar fala em "máquina de guerra" apoiando Biden, ele está descrevendo algo novo ou apenas nomeando o que sempre existiu?
Ele está nomeando uma aliança que se tornou visível. Os militares americanos sempre tiveram preferências políticas, mas raramente as expressavam tão abertamente. Em 2020, generais aposentados publicavam cartas. A máquina de guerra não era neutra — e todos sabiam.
E a censura que ele descreve — é censura de verdade ou é apenas que algumas ideias têm menos alcance?
É ambas as coisas. Greenwald foi literalmente afastado de um veículo onde trabalhava. Mas também há algo mais sutil: quando todas as plataformas, simultaneamente, reduzem o alcance de uma narrativa, o efeito é o mesmo que censura formal. A pessoa não é presa, mas é silenciada.
Ele parece estar dizendo que a eleição já estava decidida antes do voto.
Não exatamente. Ele está dizendo que as estruturas de poder — militar, mídia, tecnologia — já tinham escolhido um lado. Isso não garante vitória, mas garante que a narrativa será controlada. E se o resultado for contestado, essas mesmas estruturas determinarão como a disputa legal se desenrola.
Por que ele traz Nice e Charlie Hebdo para essa conversa sobre eleições americanas?
Porque para ele não são tópicos separados. São manifestações do mesmo imperialismo: a França intervém no Oriente Médio, depois se surpreende com ataques. Os EUA fazem o mesmo globalmente. A eleição americana importa porque determina se esse padrão continua ou muda.
Greenwald produziu uma "ótima matéria" — mas Escobar não diz o que ela prova exatamente.
Ele diz que aponta "elos da família Biden com esquemas de corrupção na Ucrânia". Não é vago — é específico. Mas o ponto dele é que essa matéria não circulou como deveria. A qualidade não importou. O que importou foi que ela ameaçava a narrativa.
E a previsão sobre judicialização — isso era especulação ou análise?
Era análise baseada em precedentes. Os EUA já tinham visto disputas eleitorais judicializadas. Ele estava dizendo que 2020 seria ainda mais complexa porque as divisões eram mais profundas e as estruturas de poder mais polarizadas. Não era adivinhação. Era lógica política.