655 milhões sem eletricidade em 2024; mundo não avança ao ritmo necessário

655 milhões de pessoas sem acesso a eletricidade; 2 mil milhões dependentes de combustíveis poluentes para cozinhar, com impactos diretos na saúde pública e desenvolvimento.
655 milhões de pessoas continuam sem eletricidade; o mundo não avança ao ritmo necessário
O acesso global à eletricidade estagnou em 92%, com o ritmo de progresso caído para metade da década anterior.

Enquanto o mundo celebra marcos renováveis, 655 milhões de pessoas permanecem às escuras — um silêncio que cinco grandes organismos internacionais transformaram em diagnóstico formal em junho de 2026. O progresso existe, mas desacelerou precisamente onde mais era necessário: o ritmo de eletrificação caiu para metade, e a África subsariana carrega sozinha quase 560 milhões dessas ausências. A meta de energia universal para 2030, inscrita nos compromissos globais, tornou-se matematicamente improvável — não por falta de tecnologia, mas por falta de vontade política e de financiamento direcionado aos mais vulneráveis.

  • O acesso global à eletricidade está congelado em 92% enquanto o ritmo de progresso caiu para metade do registado na década anterior — um sinal de que o sistema está a falhar precisamente quem mais precisa.
  • Dois mil milhões de pessoas cozinham diariamente com carvão, lenha ou querosene, respirando fumaça em casa, num ciclo de danos à saúde que se perpetua invisível nas estatísticas energéticas.
  • A África subsariana concentra 560 milhões de pessoas sem eletricidade e quase mil milhões sem cozinha limpa, tornando o continente o epicentro de uma crise que o mundo trata como periférica.
  • As energias renováveis atingiram 30% da produção global, mas a desigualdade é brutal: países pobres têm 33,6 watts per capita renováveis contra 1.224 nos países desenvolvidos — a transição existe, mas não chega a quem mais precisa.
  • O financiamento internacional para energia limpa nos países menos desenvolvidos caiu 11%, e triplicar o ritmo de eletrificação — o mínimo necessário para cumprir 2030 — exigiria uma mobilização política sem precedentes recentes.

Um relatório conjunto de cinco organismos internacionais — incluindo a ONU-Energia, o Banco Mundial e a Organização Mundial da Saúde — revelou em junho de 2026 que 655 milhões de pessoas continuam sem acesso à eletricidade, com o progresso global estagnado nos 92%. O que torna o número mais perturbador não é a sua dimensão, mas a sua trajetória: o ritmo de eletrificação caiu para metade do que era na década anterior.

Paralelamente, cerca de dois mil milhões de pessoas dependem de combustíveis poluentes para cozinhar — carvão, lenha, querosene — com consequências diretas na saúde de famílias inteiras. A África subsariana concentra a maior parte desta privação: mais de 560 milhões sem eletricidade e perto de 970 milhões sem sistemas de cozinha limpos, num continente que carrega um peso desproporcional de um problema que o mundo ainda trata como distante.

O relatório é direto quanto às metas de 2030: ao ritmo atual, o acesso universal à energia é impossível. Seria necessário triplicar a velocidade de eletrificação para chegar lá a tempo. Se nada mudar, 1.800 milhões de pessoas terminarão a década ainda dependentes de combustíveis poluentes.

Existe progresso real nas renováveis — já representam mais de 30% da produção mundial — mas a desigualdade é gritante: países de baixos rendimentos têm 33,6 watts de capacidade renovável por habitante, contra 1.224 nas economias desenvolvidas. A transição energética está a acontecer, mas não onde mais importa. A eficiência energética também abranda, e o financiamento internacional para os países menos desenvolvidos caiu 11%, para 3.700 milhões de dólares.

Os cinco organismos signatários pedem mais liderança política, mais investimento e apoio específico às comunidades mais vulneráveis. O que está em causa, sublinham, não é apenas um indicador para 2030 — é a vida concreta de centenas de milhões de pessoas, agora.

Um relatório lançado hoje por cinco organismos internacionais — a ONU-Energia, o Banco Mundial, a Organização Mundial da Saúde, a Agência Internacional de Energia e a Agência Internacional para as Energias Renováveis — traz um diagnóstico desconfortável sobre o estado da eletrificação global. O acesso mundial à eletricidade permanece fixo em 92%, um número que parecia promissor até se perceber que o ritmo de progresso caiu para metade do que era na década anterior.

Os números absolutos tornam a situação mais clara. Pelo menos 655 milhões de pessoas no mundo inteiro ainda não têm eletricidade. Paralelamente, cerca de dois mil milhões de pessoas continuam a depender de combustíveis e tecnologias poluentes — carvão, lenha, querosene, carvão vegetal — para cozinhar as suas refeições. Estas não são abstrações estatísticas. São pessoas que respiram fumaça diariamente, cujas crianças crescem em ambientes sem luz elétrica, cujas oportunidades económicas e educacionais ficam limitadas pela ausência desta infraestrutura básica.

A distribuição desta privação é profundamente desigual. A África subsariana concentra a maior parte da carga: mais de 560 milhões de pessoas sem eletricidade, e cerca de 970 milhões sem acesso a sistemas de cozinha limpos. O continente carrega um peso desproporcional de um problema global.

O relatório é claro sobre o que isto significa para os compromissos internacionais. O mundo estabeleceu como meta alcançar acesso universal à energia até 2030 — um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Ao ritmo atual, isto é impossível. Os autores do documento alertam que seria necessário triplicar a velocidade de eletrificação para chegar lá a tempo. Se as tendências presentes se mantiverem, aproximadamente 1.800 milhões de pessoas continuarão dependentes de combustíveis poluentes quando a década terminar.

Há, contudo, um lado mais brilhante nesta história. As energias renováveis já representam mais de 30% da produção mundial de eletricidade, e a capacidade renovável global atingiu um recorde de 544 watts por pessoa. Mas aqui também a desigualdade é gritante. Os países de baixos rendimentos dispõem de apenas 33,6 watts de energia renovável por habitante, enquanto as economias mais desenvolvidas têm 1.224 watts. A transição energética está a acontecer, mas está a acontecer de forma profundamente desigual.

Outros obstáculos bloqueiam o caminho. A eficiência energética — a capacidade de fazer mais com menos — continua a melhorar a um ritmo insuficiente. O avanço da intensidade energética caiu de 2,4% em 2022 para 1,5% em 2023, longe do necessário. E depois está o dinheiro. Os fluxos públicos internacionais destinados à energia limpa nos países em desenvolvimento chegaram a 24.600 milhões de dólares em 2024 — aproximadamente 21,7 mil milhões de euros. Mas a ajuda dirigida aos países menos desenvolvidos caiu 11%, para 3.700 milhões de dólares, cerca de 3,3 mil milhões de euros.

Os cinco organismos que assinam este relatório pedem o óbvio e o urgente: maior liderança política, mais investimento, e apoio específico às comunidades mais vulneráveis. Tornarem a energia acessível e sustentável, dizem, é fundamental para o desenvolvimento económico, para a saúde pública, para a segurança energética mundial. O que está em jogo não é apenas um número em 2030. É a vida de centenas de milhões de pessoas agora.

Será necessário triplicar o ritmo de eletrificação para alcançar a meta de acesso universal em 2030
— Relatório conjunto da ONU-Energia, Banco Mundial, OMS, AIE e IRENA
A energia acessível e sustentável é fundamental para o desenvolvimento económico, a saúde pública e a segurança energética mundial
— Organismos internacionais signatários do relatório
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que o acesso à eletricidade importa tanto? Parece um problema técnico.

Model

Porque sem eletricidade, uma criança não consegue estudar à noite. Uma mãe não consegue refrigerar medicamentos. Uma pequena empresa não consegue competir. É a diferença entre estar dentro ou fora da economia moderna.

Inventor

E porque é que o progresso abrandou tanto?

Model

Porque os casos mais fáceis já foram resolvidos. As cidades grandes, as zonas com infraestrutura. O que resta são as comunidades rurais remotas, as regiões pobres, os lugares onde é caro e difícil levar eletricidade.

Inventor

O relatório fala em triplicar o ritmo. É realista?

Model

Não, provavelmente não é. Não com o financiamento atual. A ajuda aos países mais pobres está a cair, não a aumentar. É uma meta que expõe a lacuna entre o que prometemos e o que estamos dispostos a pagar.

Inventor

Mas as energias renováveis estão a crescer, certo?

Model

Sim, mas principalmente nos países ricos. Um país pobre tem 33 watts de energia renovável por pessoa. Um país rico tem 1.200. A transição está a acontecer, mas está a deixar para trás quem mais precisa.

Inventor

Então o que muda?

Model

Nada muda sem decisão política e dinheiro. Sem isso, em 2030, ainda haverá 1.800 milhões de pessoas a cozinhar com fumaça.

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