Quatro em cada dez brasileiros notam presença de crime organizado onde moram

Ao menos 30 mortes relacionadas a disputas entre facções criminosas nos últimos cinco anos, com execuções em série e impacto direto na liberdade e segurança de milhões de brasileiros.
A violência não desapareceu das cidades grandes — apenas se multiplicou
A pesquisa mostra como o crime organizado se dispersou geograficamente, deixando de ser um problema apenas das capitais.

Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que quatro em cada dez brasileiros convivem com a presença de facções criminosas em seus bairros — número que ultrapassa 55% nas capitais. O que antes era visto como um problema das grandes metrópoles tornou-se uma realidade dispersa por municípios do interior e regiões de fronteira, moldando silenciosamente o cotidiano de milhões de pessoas. Vinte anos após os ataques de 2006 em São Paulo, a violência não desapareceu; ela aprendeu a se multiplicar.

  • Quatro em cada dez brasileiros sentem a presença do crime organizado onde moram — nas capitais, esse número já passa de 55%, revelando uma normalização perturbadora da violência.
  • PCC e Comando Vermelho expandiram suas operações para cidades do interior e da Amazônia, e disputas entre as duas facções deixaram ao menos 30 mortos nos últimos cinco anos.
  • A presença das facções não é apenas estatística: em muitas comunidades, ela se traduz em barricadas, restrição de horários e controle territorial que limita a liberdade de ir e vir.
  • O governo federal responde com um plano de R$ 960 milhões contra o crime organizado, sinalizando que o tema migrou da periferia para o centro da agenda política e eleitoral.

Quarenta por cento dos brasileiros dizem conviver com o crime organizado em seus bairros. Nas capitais, esse índice supera 55%. Os dados vêm de uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, conduzida em 137 municípios de todas as regiões do país, e confirmam o que muitos já sentiam: PCC, Comando Vermelho e outras facções deixaram de ser um fenômeno exclusivo das grandes metrópoles.

Vinte anos após os ataques coordenados que paralisaram São Paulo em maio de 2006, a violência não recuou — apenas se reorganizou. Hoje, um terço da população do interior também relata perceber a atuação de grupos criminosos. Cidades como Rio Claro, no interior paulista, tornaram-se palco de confrontos armados entre as duas maiores facções do país, com ao menos 30 mortes registradas nos últimos cinco anos. A Amazônia, por sua vez, virou território estratégico: o Comando Vermelho controla rotas de cocaína vindas do Peru e da Colômbia, enquanto o PCC avança sobre as mesmas áreas.

A percepção dessa presença varia em intensidade. Para 25,3% dos que a notam, ela é muito visível; para outros, manifesta-se de forma mais discreta. Mas os pesquisadores alertam que, independentemente do grau, a atuação das facções funciona como um fator de ordenamento social — moldando comportamentos, restringindo liberdades e alterando a forma como comunidades inteiras vivem e se movem.

O estudo foi divulgado em momento oportuno: o governo federal anunciou para breve um plano de combate ao crime organizado com investimento de R$ 960 milhões. O tema também entrou na pauta diplomática, discutido entre Lula e Trump. A segurança pública, que por décadas ocupou posição secundária no debate nacional, chegou ao centro das preocupações políticas e eleitorais.

Quarenta por cento dos brasileiros dizem conviver com a presença de crime organizado em seus bairros. Esse número salta para mais de 55% nas capitais do país. A constatação vem de uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, divulgada no fim de semana, e revela como as facções criminosas — o PCC, o Comando Vermelho e outras organizações — deixaram de ser um problema apenas das grandes metrópoles para se enraizar em cidades pequenas e regiões de fronteira.

Vinte anos se passaram desde maio de 2006, quando ataques coordenados paralisaram São Paulo. Os efeitos daquele período não desapareceram; apenas mudaram de forma. Hoje, a violência não se concentra mais nas capitais como antes. Um terço da população do interior — 34,1% — também relata sentir a atuação de grupos criminosos. Cidades como Rio Claro, no interior paulista, enfrentam uma escalada de confrontos armados entre o PCC, que domina o estado, e o Comando Vermelho, a segunda maior facção do país. Nos últimos cinco anos, essas disputas deixaram ao menos 30 mortos, segundo autoridades policiais.

A mudança geográfica da violência começou a se intensificar a partir de 2016, quando ocorreu um racha entre o Comando Vermelho e o PCC. Desde então, ambas as organizações expandiram suas operações para municípios cada vez mais distantes dos centros urbanos. A Amazônia tornou-se um território estratégico, especialmente nas regiões de fronteira, onde o Comando Vermelho controla rotas de importação de cocaína do Peru e da Colômbia. O PCC, por sua vez, tem buscado aumentar sua presença nessas áreas. A violência, portanto, não desapareceu das cidades grandes — apenas se multiplicou, espalhando-se por todo o território nacional.

Mas o que significa, exatamente, quando alguém diz que nota a presença de crime organizado onde mora? A resposta varia. Para 43,4% dos entrevistados que percebem essa presença, ela é pouco visível. Outros 9% dizem que é nada visível. Porém, 25,3% afirmam que a atuação é muito visível, e 21,1% dizem que é visível. Em alguns casos, as pessoas podem estar se referindo a gangues locais menores envolvidas no varejo de drogas — pontos de venda conhecidos, pessoas armadas circulando. Em outros, porém, trata-se de uma presença muito mais estruturada: facções com controle territorial explícito, barricadas para impedir a entrada da polícia, imposição de regras sobre horários e circulação, restrição da liberdade de ir e vir.

Os pesquisadores ressaltam que essa percepção, independentemente de sua intensidade, funciona como um fator de ordenamento social. A presença das facções interfere diretamente no cotidiano das pessoas, moldando comportamentos e limitando liberdades. Não é apenas uma questão de segurança — é uma questão de como as comunidades vivem, se movem e se relacionam.

O estudo foi conduzido em 137 municípios de todas as regiões do Brasil, com 2.004 entrevistas e margem de erro de 2 pontos percentuais. Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, explicou que um dos objetivos era orientar um debate eleitoral mais programático, indicando quais fenômenos deveriam ser priorizados pelo poder público e pelos futuros candidatos em suas propostas de segurança.

O lançamento da pesquisa ocorre em um momento em que a segurança pública ganhou destaque na agenda política. O governo federal anunciou para a próxima semana um plano de combate ao crime organizado com investimento de 960 milhões de reais ainda neste ano. O tema também foi discutido em conversa recente entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nos Estados Unidos. A questão, portanto, não é mais periférica — está no centro das preocupações governamentais e eleitorais.

A violência é muito mais difusa no território. Especialmente a partir de 2016, quando tem o racha entre o Comando Vermelho e o PCC, esses grupos passam a atuar em municípios cada vez mais distantes de capitais e regiões metropolitanas.
— Pesquisadora citada no estudo
A presença percebida dessas organizações aparece como um fator relevante de ordenamento social e de produção de insegurança, interferindo diretamente no cotidiano, nos comportamentos e nas liberdades da população.
— Pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que a pesquisa insiste em dizer que a percepção deve ser interpretada com cautela? O que há de impreciso em perguntar a alguém se vê crime organizado onde mora?

Model

Porque a realidade é mais complexa do que a resposta binária. Uma pessoa pode ver um ponto de venda de drogas e dizer que há crime organizado no bairro. Outra pode estar vivendo sob controle territorial de uma facção, com barricadas e imposição de regras, e dar a mesma resposta. São fenômenos completamente diferentes, mas aparecem como um só número.

Inventor

Então 40% é um número que esconde mais do que revela?

Model

Não exatamente. O número é real e importante. Mas ele aponta para uma realidade que precisa ser desdobrada. O que importa é que milhões de brasileiros sentem que sua liberdade está constrangida por organizações criminosas. Seja uma gangue local ou uma facção estruturada, o efeito é o mesmo: insegurança, restrição de movimento, medo.

Inventor

E por que a violência se dispersou? Por que o crime organizado não fica concentrado nas capitais?

Model

Porque as capitais ficaram mais disputadas, mais vigiadas, mais caras de operar. As facções precisam de espaço para crescer, para controlar rotas de droga, para se expandir. O interior oferece isso. E as regiões de fronteira? São portas de entrada para cocaína. Lógica de negócio, basicamente.

Inventor

Trinta mortes em cinco anos em Rio Claro parece um número pequeno para uma cidade.

Model

É pequeno em números absolutos, mas enorme em impacto. Cada morte é um conflito entre facções, é uma execução, é uma mensagem. E representa uma guerra que está acontecendo em dezenas de cidades simultaneamente. Quando você soma tudo, o quadro fica muito mais grave.

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