Quando a imprensa expõe, a reação costuma mirar quem apura, não o fato apurado
Paulo Figueiredo atacou jornalistas da Folha e UOL no X, expondo fotos e fazendo acusações sem provas, seguindo padrão recorrente do bolsonarismo. Os ataques incluem comentários sexualizados contra mulheres jornalistas, replicando tática que marcou relação do clã Bolsonaro com a imprensa desde 2018.
- Paulo Figueiredo atacou jornalistas da Folha e UOL no X em 3 de julho, expondo fotos e fazendo acusações sem provas
- Ataques incluem comentários sexualizados contra mulheres jornalistas, replicando tática que marcou relação do clã Bolsonaro com a imprensa desde 2018
- Em 2020, Jair Bolsonaro atacou Patrícia Campos Mello com expressão de conotação sexual; em 2022, Justiça condenou Bolsonaro e penhorou contas de Eduardo Bolsonaro
- Abraji repudiou postura de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo em maio, condenando intimidação sistemática à imprensa
Aliado bolsonarista Paulo Figueiredo publicou ataques contra jornalistas no X, expondo repórteres e usando linguagem sexualizada, reacendendo episódio similar de Bolsonaro contra Patrícia Campos Mello.
Na sexta-feira, 3 de julho, Paulo Figueiredo abriu uma sequência de postagens no X dirigidas a jornalistas que haviam coberto sua influência nos círculos bolsonaristas, as turbulências envolvendo Flávio Bolsonaro e as fraturas internas da extrema direita. O ataque mais direto visou Mariana Grasso, repórter da Folha de S.Paulo. Figueiredo publicou uma foto dela, acusou-a de assediar sua esposa e de rastrear o Instagram de seu sogro, chamou-a de "gente lixo" e marcou o perfil do jornal. Nenhuma prova acompanhava as acusações.
Essa estratégia — deslocar a atenção da reportagem para o constrangimento público do jornalista — não era novidade no bolsonarismo. Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, estendeu a ofensiva para além da Folha. Reagiu a uma apuração de José Roberto de Toledo e Thais Bilenky, do UOL, sobre sua influência sobre o senador Flávio Bolsonaro, negando ter escrito discursos para ele e atacando os autores da investigação.
Os ataques ganharam uma dimensão sexualizada quando Figueiredo comentou um texto de opinião de Fernanda Hamann intitulado "Inveja da vagina". Ele respondeu com uma frase que sexualizava o conteúdo, depois publicou outra imagem dela com um comentário depreciativo. O padrão era claro: mulheres jornalistas recebiam exposição de imagem, insultos e comentários de teor sexual ou humilhante. Essa tática havia marcado a relação do clã Bolsonaro com a imprensa desde a campanha de 2018.
O episódio reacendeu a memória de um momento anterior que havia deixado cicatrizes profundas. Em 2020, Jair Bolsonaro havia atacado Patrícia Campos Mello, também repórter da Folha, usando uma expressão com conotação sexual — disse que ela "queria dar o furo a qualquer preço contra mim". A declaração se tornou símbolo da violência política e de gênero contra jornalistas que cobriam o bolsonarismo. O caso chegou à Justiça. Em 2022, a 8ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou o recurso de Bolsonaro e deu provimento parcial ao recurso da jornalista. Além disso, contas de Eduardo Bolsonaro foram penhoradas em ação relacionada aos mesmos ataques sexuais contra Campos Mello.
Em maio daquele ano, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo havia repudiado a postura de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo contra jornalistas, condenando "toda forma de intimidação e de desqualificação do trabalho jornalístico", especialmente quando esse comportamento se torna sistemático e alimenta uma sociedade polarizada contra a imprensa.
O contexto político também pesava. Dias antes, Figueiredo havia exposto Flávio Bolsonaro ao relatar bastidores de uma fala do senador sobre voto feminino durante um evento com mulheres bolsonaristas. A crise resultante levou Flávio a tentar se afastar do aliado e cobrar respeito a Michelle Bolsonaro. Agora, ao atacar jornalistas no X, Figueiredo atualizava uma marca do bolsonarismo: quando a imprensa expõe bastidores, contradições ou crises internas, a reação costuma mirar quem apura, não o fato apurado.
Notable Quotes
Toda forma de intimidação e de desqualificação do trabalho jornalístico, especialmente quando esse comportamento se torna sistemático e estimula uma sociedade polarizada contra a imprensa— Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em nota de repúdio
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que esses ataques a jornalistas parecem sempre seguir o mesmo roteiro?
Porque funcionam. Quando a imprensa expõe algo que dói — uma contradição, uma crise interna, um bastidor constrangedor — a resposta não é refutar o fato. É desqualificar quem apurou.
Mas por que especificamente mulheres jornalistas recebem ataques sexualizados?
Porque adiciona uma camada de humilhação. Não é só dizer que a reportagem está errada. É dizer que a mulher que a fez é indigna, é "gente lixo", é alguém cujo corpo pode ser comentado publicamente. Tira o foco da apuração e coloca na pessoa.
O caso de Patrícia Campos Mello foi para a Justiça. Isso muda algo?
Muda para o registro histórico. Mas não parece mudar o padrão. Figueiredo está fazendo agora o que Bolsonaro fez em 2020. A condenação judicial existe, mas a tática persiste.
E quando jornalistas são expostos dessa forma, qual é o efeito real?
Intimidação. Se você sabe que investigar certos temas vai resultar em sua foto sendo publicada, seu nome sendo marcado, comentários sexualizados sobre você circulando — você hesita. Alguns desistem. Esse é o ponto.
A Abraji condenou isso em maio. Por que continua acontecendo?
Porque condenação pública não tem dentes se não há consequência. E porque para quem faz, o benefício político de desqualificar a imprensa supera qualquer custo.