Paulo Câmara ganha destaque como articulador na aliança Lula-Alckmin e pode assumir ministério

O articulador que faz inimigos se sentarem à mesma mesa
Paulo Câmara consolida seu papel como intermediário central na aliança entre Lula e Alckmin para 2022.

Em dezembro de 2021, dois ex-adversários históricos — Lula e Alckmin — sentaram-se à mesma mesa pela primeira vez, sinalizando uma reconfiguração profunda da política brasileira. Por trás desse encontro improvável estava Paulo Câmara, governador de Pernambuco, que emerge não como protagonista eleitoral, mas como arquiteto silencioso de alianças. Sua atuação revela como o poder, muitas vezes, reside menos em quem ocupa o palco e mais em quem organiza os bastidores.

  • Lula e Alckmin aparecem juntos em público pela primeira vez, rompendo décadas de rivalidade política em um jantar simbólico pela democracia.
  • Paulo Câmara, articulador central do encontro, acumula influência nacional ao preencher o vácuo deixado pela ausência de lideranças do peso de Eduardo Campos.
  • O nome de Câmara circula como futuro ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, recompensa possível por seu papel de ponte entre PT e PSB.
  • João Campos, prefeito do Recife, mantém resistência velada: apoia Lula apenas se Alckmin migrar para o PSB, e foi o único presente no jantar a não publicar nada nas redes sociais.
  • Analistas divergem sobre o futuro de Campos — alguns acreditam que ele apoiará Lula independentemente da legenda de Alckmin, desde que o perfil da chapa seja menos petista.

No domingo de dezembro de 2021, Lula e Alckmin apareceram juntos em público pela primeira vez desde que iniciaram negociações para 2022. O encontro aconteceu em um jantar do grupo Prerrogativas, de advogados críticos da Lava Jato, e foi celebrado como marco simbólico na reconfiguração da política nacional.

O arquiteto discreto desse encontro foi Paulo Câmara, governador de Pernambuco pelo PSB. Beneficiado pelo apoio de Lula em 2018, Câmara trabalha agora para garantir apoio ao seu sucessor — mas seu objetivo declarado é mais amplo: construir uma frente de oposição a Bolsonaro. Segundo a cientista política Priscila Lapa, Câmara foi ocupando gradualmente o espaço de articulador nacional diante da ausência de lideranças com o peso que Eduardo Campos um dia teve.

Seu nome chegou a ser cogitado como vice de Lula, mas a ideia foi descartada: Câmara não quer disputar cargos em 2022, e Lula precisa ampliar alianças, não concentrá-las. O que ele pode ganhar, segundo um deputado do PSB que preferiu o anonimato, é o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. No jantar, porém, o assunto ficou nas entrelinhas — o que se ouviu foram elogios efusivos de Lula e Alckmin ao governador pernambucano.

O evento também colocou João Campos, prefeito do Recife, em posição delicada. Jovem, popular nas redes e historicamente resistente a Lula, Campos havia prometido apoio a Ciro Gomes. Mas a possível entrada de Alckmin na chapa mudou o cálculo. Sua condição é clara: quer Alckmin no PSB. Foi o único político pernambucano presente no jantar que não publicou nada sobre o encontro. Para o doutor em ciência política José Alexandre, Campos vem diminuindo suas resistências gradualmente, mas condiciona seu apoio à presença do ex-governador paulista na legenda socialista. Já Priscila Lapa acredita que Campos apoiará Lula de qualquer forma — quanto menos petista for o perfil da aliança, mais confortável ele se sentirá.

No domingo de dezembro, dois homens que haviam sido inimigos políticos ferrenhos sentaram-se à mesma mesa. Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin, o ex-presidente e o ex-governador de São Paulo, apareceram juntos em público pela primeira vez desde que começaram a negociar uma aliança para as eleições de 2022. O encontro aconteceu em um jantar organizado pelo Prerrogativas, um grupo de advogados críticos da Operação Lava Jato, e marcou um momento simbólico na reconfiguração da política nacional.

Mas quem realmente orquestrou esse encontro improvável foi Paulo Câmara, o governador de Pernambuco. Câmara, do PSB, esteve presente no jantar e tem sido o articulador central dessa aliança que poucos acreditavam ser possível meses antes. Sua trajetória política o colocou em posição privilegiada: beneficiado pelo apoio de Lula em 2018, agora ele trabalha para garantir que seu sucessor receba o mesmo apoio. Mas seu interesse vai além disso. Câmara tem dito publicamente que seu objetivo é construir uma frente ampla de oposição ao presidente Jair Bolsonaro, e o jantar de domingo foi celebrado por ele nas redes sociais como mais um avanço nessa direção.

O papel de Câmara na política nacional cresceu de forma consistente. Priscila Lapa, cientista política e professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda, observa que com o tempo na cadeira de governador e diante da ausência de outras lideranças com o peso que Eduardo Campos um dia teve, Câmara foi ocupando cada vez mais o espaço de articulador e tomador de decisões. Ele tem se saído bem nesse papel. Tanto que seu nome foi cogitado como possível vice de Lula, mas a ideia foi rapidamente descartada por dois motivos: Câmara não tem interesse em disputar cargos eletivos em 2022, e Lula precisa ampliar suas alianças, não concentrá-las.

O que Câmara pode ganhar com tudo isso é substancial. Segundo um deputado do PSB que falou sob anonimato, o governador deve receber o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações em caso de vitória petista. Essa pasta, afirma o deputado, sempre foi do PT nas gestões anteriores, e agora irá para as mãos do socialista. No jantar, porém, o assunto não foi mencionado abertamente. O que se ouviu foram elogios. Lula e Alckmin cortejaram Câmara com palavras como "pessoa da melhor qualidade", "grande gestor" e "o homem de Pernambuco". Os dois pré-candidatos preferiram não discutir publicamente os detalhes de seu acordo, deixando isso para conversas em salas reservadas.

Mas o jantar teve consequências que se estenderam além da mesa onde Câmara estava. João Campos, prefeito do Recife e também presente no evento, viu-se em uma posição delicada. Campos é do PSB, é jovem, tem presença forte nas redes sociais, e era um dos nomes mais resistentes ao apoio a Lula. Ele havia prometido apoio a Ciro Gomes em 2020 e mantinha essa posição. Mas agora, com a possibilidade de Alckmin ocupar a vice-presidência, a situação mudou. Se Alckmin fosse para o PSD em vez de ficar no PSB, Campos teria razão para reconsiderar. Curiosamente, foi o único político pernambucano presente no jantar que não publicou nada sobre o encontro nas redes sociais.

O que Campos quer é claro: ele quer Alckmin no PSB. Essa é sua condição para apoiar Lula. Um deputado socialista afirmou que Campos voltará a falar em candidatura própria, mas apenas temporariamente, pois sabe que estará com o presidente Lula. José Alexandre, doutor em ciência política pela UnB, explica que Campos é um nome importante em seu partido por sua tradição político-familiar, e que ele vem diminuindo suas resistências a Lula gradualmente, mas agora condiciona seu apoio à presença de Alckmin na chapa socialista.

Priscila Lapa, porém, acredita que Campos apoiará Lula independentemente de qual legenda ocupar a vice-presidência. Para ela, quanto menos "pureza petista" houver na história, mais confortável Campos se sentirá. O prefeito entende o peso político de Lula no campo em que atua, mas sabe separar bem isso do PT como instituição. O que fica claro é que Paulo Câmara, ao consolidar seu papel de articulador, influencia não apenas a aliança entre Lula e Alckmin, mas também as decisões de políticos como Campos, que precisam navegar entre suas ambições pessoais e as realidades da política nacional em transformação.

Decorrido o tempo na cadeira de governador e com a ausência de outras lideranças com o peso que Eduardo Campos tinha, ele foi ocupando cada vez mais esse papel de articulador, de tomador de decisões
— Priscila Lapa, cientista política e professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda
Esta pasta sempre foi nossa nas gestões do PT. Agora vai para as mãos do governador
— Deputado do PSB, sob anonimato
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Paulo Câmara se tornou tão importante nessa aliança? Ele não é nem Lula nem Alckmin.

Model

Exatamente. Câmara é importante justamente porque não é nenhum dos dois. Ele tem credibilidade com ambos os lados e não representa uma ameaça a nenhum deles. Além disso, ele já provou que pode entregar votos e apoio político em Pernambuco.

Inventor

Mas ele recusou ser vice. Por quê?

Model

Porque ele quer continuar sendo governador. Ser vice significaria deixar o cargo, e ele não quer isso. Mas recusando, ele ganhou algo mais valioso: o papel de articulador. Isso o coloca acima da disputa, como alguém que faz as coisas acontecerem.

Inventor

E o ministério que mencionam?

Model

É a moeda de troca. Se Lula vencer, Câmara recebe o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. É uma pasta importante, mas não é a presidência. É o prêmio por ter feito o trabalho sujo de aproximar inimigos.

Inventor

João Campos parece estar em uma posição incômoda.

Model

Muito incômoda. Ele quer apoiar Lula, mas quer que Alckmin fique no PSB. Se Alckmin for para o PSD, Campos perde a justificativa para seu apoio. Ou melhor, ele apoiará mesmo assim, mas terá menos poder de barganha.

Inventor

Então Câmara controla indiretamente as decisões de Campos?

Model

Não exatamente controla, mas influencia. Câmara é o intermediário. Quando ele fala que a aliança está avançando, políticos como Campos precisam se posicionar. Câmara define o ritmo da negociação.

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