Passos defende Fernando Alexandre, mas critica nomeações políticas no Governo

A gente não pode fazer nada perante concursos viciados
Passos Coelho sobre a forma como a CRESAP seleciona pessoas para cargos na Administração Pública.

Num serão de julho em Lisboa, Pedro Passos Coelho escolheu defender publicamente o ministro Fernando Alexandre — mesmo em plena crise dos exames — mas não poupou o Governo a que pertence o elogiado. O antigo primeiro-ministro denunciou que os concursos da CRESAP estão sistematicamente viciados a favor de nomeações políticas, uma prática que, na sua leitura, atravessa governos de diferentes cores e revela um Estado incapaz de se reformar com a urgência que o país exige. A crítica, feita à margem de uma apresentação literária, toca numa ferida antiga da democracia portuguesa: a distância entre o mérito proclamado e o clientelismo praticado.

  • No meio da turbulência em torno dos exames nacionais, Passos Coelho surge a defender o ministro da Educação — mas o elogio pessoal serve de trampolim para uma crítica mais funda ao Governo.
  • A denúncia é direta: a maioria dos concursos da CRESAP para hospitais e centros da Segurança Social estão viciados, colocando pessoas com ligações políticas onde deveria imperar o mérito.
  • Passos acusa o atual Executivo de replicar as mesmas práticas clientelistas do anterior Governo do PS, sugerindo que o problema é estrutural e não partidário.
  • A ironia corta: se há políticos a mais, que se criem lugares nos próprios órgãos políticos — 'o que se pagar a essa gente é dinheiro que se poupa' — uma frase que arrancou risos mas carrega um diagnóstico sério.
  • A crítica alarga-se à lentidão das reformas do Estado, à falta de água em Almada e a um Tribunal de Contas reformado sem reforço do escrutínio — um Estado descrito como 'paquiderme' que se move devagar demais para os problemas que enfrenta.

Pedro Passos Coelho aproveitou uma terça-feira de julho, à margem da apresentação de um livro na Escola Alemã de Lisboa, para tomar posição pública sobre dois assuntos que dominam o debate político. Começou por elogiar Fernando Alexandre — 'uma pessoa muito competente', disse —, numa defesa pessoal que chegava em pleno turbilhão em torno dos exames nacionais. Mas o elogio ao ministro não impediu o antigo primeiro-ministro de atacar o Governo com uma crítica mais estrutural.

Passos denunciou que 'a maior parte dos concursos da CRESAP são viciados', referindo-se às seleções para administrações de hospitais e centros da Segurança Social. Na sua leitura, o Executivo de Montenegro repete as mesmas práticas clientelistas do anterior Governo do PS: colocar pessoas com ligações políticas em posições que deveriam ser preenchidas por mérito. Lamentou que 'a gente não pode fazer nada', mas insistiu que o padrão deveria ser quebrado. Com ironia que fez rir a plateia, sugeriu que, se há políticos a mais, que se reformem os próprios órgãos políticos para lhes dar lugar — em vez de os encaminhar para a Administração Pública.

A crítica estendeu-se à lentidão das reformas do Estado. Passos reconheceu que o Governo enunciou objetivos importantes, mas considerou que 'as coisas deviam andar um bocadinho mais depressa'. Na reforma do Tribunal de Contas, alertou que não pode haver menos escrutínio — caso contrário, 'é tudo mal'. E na falta de água em Almada, rejeitou as justificações avançadas, apontando o dedo à ausência de planeamento e de intervenção estrutural. Descreveu o Estado como 'um paquiderme que se mexe muito devagarinho' — um diagnóstico já feito, disse, mas que continua sem gerar as decisões estratégicas de que o país precisa.

Pedro Passos Coelho saiu em defesa do ministro da Educação numa terça-feira de julho, após a apresentação de um livro sobre estratégia empresarial na Escola Alemã de Lisboa. O antigo primeiro-ministro fez questão de sublinhar que tem "muita estima pelo professor Fernando Alexandre" e que o governante é "uma pessoa muito competente" — um elogio direto que chegava em pleno turbilhão em torno dos exames nacionais. Mas a defesa pessoal não impediu Passos de voltar ao ataque contra o Governo, desta vez focando-se numa prática que o incomoda profundamente: a forma como o Executivo coloca pessoas com ligações políticas em posições na Administração Pública.

O antigo primeiro-ministro denunciou que "a maior parte destes concursos da CRESAP são viciados", referindo-se aos processos de seleção para centros da Segurança Social e administrações de hospitais. Lamentou que "a gente não pode fazer nada" perante esta realidade, mas insistiu que o Governo deveria romper com o padrão. Para Passos, o ideal seria que os tecnocratas que fazem a máquina do Estado funcionar fossem escolhidos por mérito, não por "patronage política". Acusou o Executivo de seguir as mesmas "práticas" do Governo anterior do PS, sugerindo que o clientelismo administrativo é um vício transversal que persiste independentemente de quem governa.

Quando questionado sobre casos concretos, Passos recusou detalhar, alegando que as suas palavras costumam ser mal interpretadas. Referiu-se a um episódio anterior em que comentários seus sobre populismo na Europa foram lidos como insultos pessoais ao primeiro-ministro — uma leitura que nega veementemente. Ainda assim, deixou uma sugestão carregada de ironia que fez rir a plateia: se há políticos a mais, que se reformem os próprios órgãos políticos para lhes dar mais lugares, em vez de os colocar na Administração. "O que se pagar a essa gente é dinheiro que se poupa", rematou.

A crítica estendeu-se também à lentidão das reformas do Estado. Passos reconheceu que o Governo atual enunciou o objetivo de reformar, o que considera "muito importante", mas insistiu que "as coisas deviam andar um bocadinho mais depressa". Admitiu estar a olhar de fora e, portanto, a ver as coisas "com mais impaciência". Na reforma do Tribunal de Contas, por exemplo, alertou que o Estado pareceu "estar mais preocupado consigo próprio do que com os outros". Embora reconheça que a reforma é positiva, sublinhou que não pode ser feita sem aumentar a capacidade de escrutínio e fiscalização — caso contrário, "é tudo mal".

O antigo governante aproveitou ainda para criticar a falta de água em Almada, dizendo que "se não há água é porque alguma coisa falhou". Rejeitou a desculpa de que o consumo é o dobro da média nacional, argumentando que isso não explica o problema da semana anterior. Para Passos, o cerne da questão é a ausência de planeamento e de "intervenção estrutural". Descreveu o Estado como "um paquiderme que se mexe muito devagarinho", um diagnóstico que já está feito mas que continua sem gerar decisões estratégicas. Voltou a apontar o dedo ao Governo de Montenegro, sugerindo que a falta de ação resulta de "condições políticas" desfavoráveis ou de outras prioridades que ocupam a agenda — um ciclo que, na sua visão, condena o país a sofrer dos mesmos problemas indefinidamente.

Tem muita estima pelo professor Fernando Alexandre e considera-o uma pessoa muito competente
— Pedro Passos Coelho
A maior parte destes concursos da CRESAP são viciados e a gente não pode fazer nada
— Pedro Passos Coelho
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que Passos defende Fernando Alexandre agora, quando há tanta pressão sobre o ministro?

Model

Porque acha que há uma diferença entre a pessoa e o sistema. Fernando Alexandre é competente — isso é um facto. Mas o Governo, como máquina, está viciado em práticas antigas.

Inventor

Então a crítica não é ao ministro, é ao Governo inteiro?

Model

Exatamente. Passos está a dizer: o vosso problema não é terem um mau ministro, é terem um mau sistema de nomeações. Estão a fazer o que o PS fazia.

Inventor

E porque é que ele não quer nomear casos concretos?

Model

Porque sabe que vai ser interpretado como ataque pessoal. Já lhe aconteceu antes. Prefere falar em padrões, em estruturas, do que em nomes.

Inventor

A CRESAP está realmente viciada ou é uma percepção?

Model

Passos diz que está. Não apresenta provas, mas fala com a autoridade de quem foi primeiro-ministro e viu isto acontecer durante anos. É uma acusação grave.

Inventor

E a água em Almada? Que tem a ver com tudo isto?

Model

Tem a ver com a mesma coisa: falta de planeamento estrutural. O Estado não consegue antecipar problemas, só reage quando explodem. É preguiça política.

Inventor

Passos está a dizer que o Governo é incompetente?

Model

Não. Está a dizer que é lento e que está preso a velhos hábitos. Há diferença. Um Governo incompetente não consegue fazer nada. Este consegue, mas não quer correr riscos políticos.

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