Quando um desenho forense é alterado, é como se uma notícia fosse modificada
Petra Urban recebeu compensação após partido extrema-direita manipular seu desenho forense sem autorização usando Inteligência Artificial. Desenho retratava dois irmãos sírios condenados pelo homicídio da irmã Ryan, morta em crime de honra por comportamentos considerados 'ocidentais'.
- Petra Urban recebeu indemnização do PVV após manipulação de desenho com IA
- Mohamed e Muhanad al-Najjar condenados a 20 anos; pai Khaled a 30 anos
- Ryan al-Najjar, 18 anos, morta em maio de 2024 em crime de honra
- Corpo encontrado num pântano perto de Oostvaardersplassen, estrangulada e atirada à água
Partido PVV neerlandês indeniza ilustradora após alterar desenho de suspeitos sírios com IA para fins políticos, violando direitos de autor e comprometendo neutralidade do trabalho forense.
Petra Urban, ilustradora neerlandesa, criou um desenho forense de dois irmãos sírios acusados de um crime grave. O partido de extrema-direita PVV pegou nesse desenho, usou ferramentas de inteligência artificial para tornar os rostos mais ameaçadores, e publicou a imagem alterada nas redes sociais sem lhe pedir permissão. Urban recebeu uma indemnização depois de o sindicato de ilustradores apresentar uma ação judicial por violação de direitos de autor.
Os dois irmãos em questão, Mohamed al-Najjar, de 23 anos, e Muhanad al-Najjar, de 25, foram condenados a 20 anos de prisão pela morte da sua irmã, Ryan al-Najjar, de 18 anos. O pai, Khaled, recebeu 30 anos. O crime ocorreu em maio de 2024, quando o corpo de Ryan foi encontrado num pântano perto de um parque natural nos Países Baixos. Segundo as autoridades, a rapariga foi estrangulada pelo pai e atirada à água com as mãos amarradas e a boca tapada com fita adesiva. Os procuradores descreveram a morte como um "crime de honra", motivado pela convicção de que Ryan estava a envergonhar a família ao adotar o que consideravam comportamentos ocidentais — aparecer em vídeos do TikTok sem véu, usar maquilhagem, viver de forma independente.
Urban explicou o que a incomodou em três pontos distintos. Primeiro, o seu trabalho foi utilizado sem autorização. Segundo, foi apropriado por um partido político quando ela procura manter a sua prática o mais neutra e independente possível. Terceiro, a distorção foi feita com inteligência artificial, o que a deixou particularmente perturbada. Numa publicação no Instagram, comparou a manipulação de um desenho forense à alteração de uma notícia — quando se muda a imagem, muda-se a verdade que ela comunica. O facto de as imagens terem sido manipuladas para fins políticos comprometeu a neutralidade do seu trabalho e violou os seus direitos de autor.
Maikel Boon, deputado do PVV, contactou Urban para pedir desculpa e oferecer compensação após a ação judicial. O valor não foi divulgado. Boon já tinha sido acusado de manipular imagens para fins políticos noutras ocasiões. Ao jornal De Telegraaf, admitiu que o acto foi "muito estúpido", embora tenha argumentado que uma imagem alterada deixaria de estar protegida por direitos de autor — uma posição que não se sustentou legalmente.
Urban afastou-se completamente do PVV após o incidente. Disse que, mesmo que o partido estivesse alinhado com as suas opiniões políticas, nunca teria consentido na manipulação. "Honestamente, o PVV está muito distante das minhas opiniões políticas", afirmou.
O caso dos irmãos sírios revela uma dinâmica familiar marcada pela opressão. O tribunal descreveu a morte de Ryan como "um momento trágico e sombrio na história de uma família marcada pela opressão das mulheres". Um dos irmãos confessou à polícia que via a irmã como alguém que "manchava a honra da família". O pai, Khaled, conseguiu fugir para a Síria após o crime, onde voltou a casar. Enviou duas cartas à imprensa neerlandesa afirmando ser o único responsável e negando o envolvimento dos filhos, mas as autoridades consideram que o homicídio foi planeado pelos três. Khaled está na lista de fugitivos da Interpol, mas os Países Baixos não têm acordo de cooperação judicial com a Síria, o que impede a sua extradição.
Notable Quotes
Há três coisas que me incomodam. Primeiro, o meu trabalho foi utilizado sem a minha autorização. Segundo, isto foi feito para um partido político. E terceiro, a distorção foi feita com Inteligência Artificial.— Petra Urban, ilustradora
Um momento trágico e sombrio na história de uma família marcada pela opressão das mulheres. Um crime de honra, uma forma de femicídio.— Tribunal Judicial de Lelystad
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que um partido político manipularia um desenho forense? Qual era o objetivo?
Tornar os suspeitos mais ameaçadores visualmente, para reforçar uma narrativa política sobre imigração e segurança. A imagem alterada comunica algo diferente da realidade.
E Petra Urban — como é que ela descobriu que o seu trabalho tinha sido manipulado?
Provavelmente através das redes sociais, onde o PVV publicou a imagem. O sindicato de ilustradores depois agiu em seu nome.
O deputado Boon realmente acreditava que podia alterar uma imagem e deixá-la fora da proteção de direitos de autor?
Aparentemente sim, ou pelo menos tentou argumentar isso. Mas a lei não funciona assim. Uma vez que crias algo, está protegido, alterado ou não.
E quanto ao crime em si — era realmente um crime de honra?
O tribunal foi explícito: sim. A rapariga morreu porque a família considerava que ela tinha adotado valores ocidentais demais. Vídeos no TikTok, maquilhagem, liberdade — isso foi considerado uma desonra.
O pai conseguiu escapar?
Fugiu para a Síria e voltou a casar. Enviou cartas negando o envolvimento dos filhos, mas o tribunal provou que os três planearam tudo juntos. Está procurado, mas os Países Baixos não podem extraditá-lo.
Então este caso é sobre dois problemas diferentes — manipulação política de imagens e um crime de honra?
Exatamente. A manipulação do desenho é o que torna a história pública agora, mas o crime subjacente é o que realmente importa.