Parnaíba figura entre as 50 cidades mais violentas do Brasil, aponta Anuário

Parnaíba registrou 46,30 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes em 2022; Brasil teve 18 mil estupros em 2022, com 61,4% das vítimas crianças entre 0 e 13 anos.
A violência sexual no Brasil é predominantemente doméstica
Reflexão sobre onde e por quem ocorrem 68,3% dos estupros registrados no país.

Parnaíba é a única cidade do Piauí entre as 50 mais violentas do país, com 46,30 mortes intencionais por 100 mil habitantes em 2022. Brasil registrou maior número de estupros da história: 18 mil casos, com 61,4% das vítimas entre 0 e 13 anos; 68,3% ocorrem na residência.

  • Parnaíba ocupa 38º lugar no ranking de violência, com 46,30 mortes intencionais por 100 mil habitantes em 2022
  • Piauí registrou crescimento de 6,6% em homicídios entre 2021 e 2022, enquanto Brasil caiu 2,4%
  • Brasil registrou 18 mil estupros e 57 mil estupros de vulnerável em 2022, crescimento de 8,2%
  • 61,4% das vítimas de estupro tinham entre 0 e 13 anos; 10% tinham menos de 4 anos
  • 68,3% dos estupros ocorrem na residência da vítima; 86,1% das crianças conheciam o agressor

Parnaíba aparece em 38º lugar no ranking de violência do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2022, com taxa de 46,30 mortes intencionais por 100 mil habitantes. Brasil registra recorde histórico de estupros.

Parnaíba entrou para um ranking que ninguém quer integrar. No levantamento divulgado em julho de 2023 pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cidade piauiense ocupava a 38ª posição entre os municípios mais violentos do país. Os números que sustentam essa posição são brutais: 46,30 mortes violentas intencionais para cada grupo de 100 mil habitantes em 2022. É um dado que reduz a abstração da estatística a algo tangível — em uma cidade de cem mil pessoas, quase 47 delas foram vítimas de homicídio naquele ano.

Parnaíba é a única cidade do Piauí que aparece nessa lista das cinquenta mais violentas do Brasil. Seu vizinho imediato no ranking é Caxias, no Maranhão, localizada a cerca de 70 quilômetros de Teresina, que ocupa a 37ª posição. A capital piauiense, por sua vez, registrou um movimento preocupante em sentido oposto: o número de mortes violentas intencionais cresceu 7,21% entre 2021 e 2022, passando de 319 para 342 vítimas. Em todo o estado do Piauí, o crescimento foi de 6,6%, com o total subindo de 736 mortes em 2021 para 785 em 2022.

Esse aumento estadual contrasta com a tendência nacional. O Brasil como um todo registrou uma queda de 2,4% no número de homicídios no mesmo período. A Região Nordeste acompanhou essa redução, com diminuição de 4,5%. Mas o Piauí seguiu na contramão. Quando se observa o perfil das vítimas de homicídio no país, emerge um padrão perturbador: 91,4% são homens, 76,9% são pessoas negras, e metade delas — 50,2% — tinha entre 12 e 29 anos.

A Bahia concentra a maior parte dos municípios mais violentos do Brasil. Jequié, cidade do interior baiano com cerca de 156 mil habitantes, ocupa o primeiro lugar no ranking nacional com uma taxa de 88,80 mortes intencionais por 100 mil habitantes. Santo Antônio de Jesus, conhecida como a segunda capital do estado, aparece em segundo lugar com 88,3 mortes por 100 mil habitantes. Essas cidades estão em outro patamar de violência comparadas a Parnaíba, mas o padrão é o mesmo: cidades de médio porte enfrentando crises de segurança que as colocam entre as mais perigosas do país.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que vem sendo publicado desde 2011, trouxe em sua edição de 2023 um dado que chocou: o Brasil registrou o maior número de estupros de sua história. Foram mais de 18 mil casos de estupro e quase 57 mil casos de estupro de vulnerável em 2022, representando um crescimento de 8,2% em relação a 2021. Mulheres foram vítimas em mais de 88% dos casos; homens em 11,3%.

O que torna esse número ainda mais alarmante é a idade das vítimas. Meninas entre 0 e 13 anos representaram 61,4% de todas as vítimas de estupro no país. Dentro desse grupo, aproximadamente 10% das crianças abusadas tinham menos de quatro anos. Esses crimes não ocorrem em ruas escuras ou em lugares desconhecidos. Segundo o anuário, 68,3% dos estupros acontecem dentro da residência da vítima, enquanto apenas 9,4% ocorrem em vias públicas.

Os agressores, na maioria dos casos, não são estranhos. Entre as vítimas de 0 a 13 anos, 86,1% conheciam o agressor, e 64,4% desses agressores eram membros da família. Para vítimas com mais de 14 anos, 77,2% conheciam seus agressores. Parceiros e ex-parceiros foram responsáveis por 24,3% dos estupros registrados. A violência sexual no Brasil, portanto, é predominantemente doméstica, perpetrada por pessoas próximas, e direcionada desproporcionalmente a crianças.

Parnaíba é a única cidade do Piauí entre as 50 mais violentas do Brasil
— Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023
O Brasil registrou o maior número de estupros da história desde que o anuário começou a ser publicado em 2011
— Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023
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Inventor

Por que Parnaíba aparece isolada nesse ranking entre as cidades piauienses?

Model

Porque a violência não se distribui uniformemente. Parnaíba tem características que a colocam nessa posição — densidade populacional, dinâmica econômica, fluxos migratórios — enquanto outras cidades do estado não enfrentam o mesmo nível de homicídios.

Inventor

E o crescimento de 6,6% no Piauí enquanto o Brasil cai 2,4% — isso é coincidência?

Model

Não. Sugere que o estado está fora da curva nacional. Enquanto políticas de segurança funcionam em outras regiões, o Piauí segue em direção oposta. Isso aponta para falhas específicas na implementação local.

Inventor

Os números de estupro parecem desconectados da violência letal. São crises diferentes?

Model

São manifestações da mesma raiz. A violência contra mulheres e crianças é sistêmica, mas invisível porque acontece dentro de casa. Os homicídios são públicos; os estupros são privados. Ambos revelam a mesma falha de proteção.

Inventor

Por que 61% das vítimas de estupro têm menos de 14 anos?

Model

Porque crianças são vulneráveis e dependentes. Quem as agride — geralmente alguém da família — sabe que elas não conseguem se defender ou denunciar. É predação facilitada pela proximidade e pelo poder.

Inventor

Se 68% dos estupros ocorrem em casa, como a segurança pública deveria responder?

Model

Essa é a questão difícil. Segurança pública tradicional não entra em casas. Exige prevenção, educação, denúncia, investigação rigorosa. Mas primeiro exige que a sociedade reconheça que o perigo está dentro, não fora.

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