Parentes de Toffoli foram sócios de fundo ligado à rede do caso Banco Master

Um ministro que relata um caso não deveria ter ligações financeiras com a rede investigada
A questão central levantada pela conexão entre o fundo Arleen, a família de Toffoli e a rede do Banco Master.

Quando o poder judiciário e os interesses financeiros se entrelaçam em silêncio, a confiança nas instituições começa a se desfazer. Empresas ligadas a familiares do ministro Dias Toffoli, relator no STF do inquérito sobre fraudes do Banco Master, receberam investimentos de um fundo conectado indiretamente à rede investigada pelo Banco Central. A revelação, feita pela Folha de S.Paulo com base em registros da Receita Federal e da CVM, não configura acusação formal, mas coloca em evidência a tensão permanente entre a imparcialidade que a toga exige e os laços que a vida constrói.

  • Um fundo chamado Arleen manteve participações em duas empresas da família de Toffoli enquanto ele conduzia, como relator, o inquérito mais sensível ligado ao Banco Master.
  • A conexão entre o Arleen e a rede investigada pelo Banco Central é indireta, mas documentada: passa pelo fundo RWM Plus e pelos veículos associados ao Maia 95, todos administrados pela Reag, ela própria investigada por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC.
  • Uma auditoria registrada na CVM apontou falhas graves na documentação do Arleen, levando a empresa responsável a se recusar a emitir parecer — sinal de que as contas do fundo não resistiram ao escrutínio técnico.
  • Decisões de Toffoli no caso já geraram críticas: o sigilo imposto ao processo e a convocação de uma acareação com diretor do Banco Central foram interpretados como condutas que merecem explicação.
  • O ministro não se manifestou até a publicação da reportagem, e o caso segue em aberto enquanto o TCU aguarda decisão sobre retomar inspeção presencial no Banco Central.

Um fundo de investimentos chamado Arleen manteve participações em duas empresas ligadas a familiares do ministro Dias Toffoli até pelo menos maio de 2025. Uma delas, a Tayayá Administração e Participações, é responsável por um resort no interior do Paraná; a outra, a DGEP Empreendimentos, é uma incorporadora imobiliária da mesma região que teve um primo de Toffoli entre seus sócios. A revelação, feita pela Folha de S.Paulo, ganha peso pelo fato de o ministro ser o relator, no STF, do inquérito que apura fraudes atribuídas ao Banco Master.

O Arleen não é investigado diretamente, mas aparece conectado à estrutura apontada pelo Banco Central como parte da suposta rede de fraudes do banco controlado por Daniel Vorcaro. A ligação é indireta: o fundo foi cotista do RWM Plus, que também recebeu recursos de fundos associados ao Maia 95 — um dos seis veículos citados pelo BC nas apurações. Todos tinham como administradora a Reag, empresa investigada na operação Carbono Oculto por suspeitas de lavagem de dinheiro para o PCC.

Criado em 2021 com um único cotista e encerrado antes do prazo original de 20 anos, o Arleen concentrava seus recursos em apenas quatro ativos no último balanço disponível, incluindo as duas empresas da família Toffoli e o próprio RWM Plus. Uma auditoria registrada na CVM naquele mesmo período identificou falhas na documentação do fundo, levando a empresa responsável a se abster de emitir qualquer parecer sobre suas contas.

Desde que o caso chegou ao STF — após a defesa de Vorcaro argumentar que a investigação deveria tramitar na Corte —, decisões de Toffoli geraram questionamentos públicos: o sigilo imposto ao processo e a convocação de uma acareação com um diretor do Banco Central foram alvo de críticas. O ministro não se pronunciou até a publicação da reportagem. Paralelamente, uma inspeção in loco no Banco Central, determinada pelo ministro Jhonatan de Jesus em outro aspecto do caso, permanece suspensa à espera de decisão do plenário do TCU.

Um fundo de investimentos chamado Arleen manteve participações em duas empresas ligadas a familiares do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, até pelo menos maio de 2025. As duas companhias eram a Tayayá Administração e Participações, responsável por um resort em Ribeirão Claro no Paraná, e a DGEP Empreendimentos, uma incorporadora imobiliária da mesma cidade que contou com um primo de Toffoli como sócio. A informação foi revelada pela Folha de S.Paulo e levanta questões sobre potencial conflito de interesses, já que o ministro é o relator do inquérito que apura fraudes atribuídas ao Banco Master.

O Arleen em si não é alvo de investigação, mas aparece conectado à estrutura apontada pelo Banco Central como parte da suposta rede de fraudes do banco controlado por Daniel Vorcaro. A ligação ocorre de forma indireta: o Arleen foi cotista do fundo RWM Plus, que também recebeu recursos de fundos associados ao Maia 95, um dos seis veículos citados pelo BC nas apurações sobre o Banco Master. Todos esses fundos tinham como administradora a Reag, empresa que é investigada na operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro para o PCC.

O fundo Arleen foi criado em 2021 com apenas um cotista e foi encerrado no fim de 2024, apesar de seu prazo original de duração ser de 20 anos. No último balanço disponível, de maio de 2025, o fundo concentrava seus recursos em quatro ativos, incluindo as duas empresas ligadas à família de Toffoli e o RWM Plus. Uma auditoria registrada na CVM naquele mesmo mês apontou falhas na documentação do Arleen, levando a empresa responsável a se abster de emitir parecer sobre as contas do fundo.

Toffoli é o relator do inquérito que apura as fraudes atribuídas ao Banco Master desde que o caso chegou ao STF, após a defesa de Vorcaro alegar que a investigação deveria tramitar na Corte. Desde então, decisões do ministro geraram questionamentos: a condução do processo sob sigilo e a convocação de uma acareação envolvendo um diretor do Banco Central foram alvo de críticas. Procurado, o STF informou que Toffoli não se manifestou até a publicação da reportagem da Folha.

As relações societárias citadas constam em bases da Receita Federal e em documentos da CVM, analisados pela Folha com apoio de plataformas de jornalismo investigativo. O ministro Jhonatan de Jesus, que é relator de outro aspecto do caso, havia determinado uma inspeção in loco na autoridade monetária, que foi suspensa e aguarda decisão do plenário do TCU. A documentação deficiente do Arleen e suas conexões indiretas com a rede investigada do Banco Master permanecem sob escrutínio enquanto o caso segue seu curso.

O Arleen não é alvo de investigação, mas aparece conectado, por meio de outros fundos, à estrutura apontada pelo Banco Central como parte da suposta teia de fraudes do Master
— Folha de S.Paulo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um fundo de investimentos que não é alvo de investigação aparece nesta história?

Model

Porque ele conecta duas coisas que não deveriam estar conectadas: a família de um ministro e a rede financeira suspeita que ele próprio está julgando. Não é crime estar ligado a algo suspeito, mas é um problema quando quem julga tem laços com quem está sendo julgado.

Inventor

O fundo Arleen foi encerrado em 2024. Isso apaga as evidências?

Model

Não. Os registros da Receita Federal e da CVM ficam. E o timing é interessante — encerrado antes que a auditoria de maio de 2025 apontasse as falhas na documentação. Mas encerrar um fundo é legal; o que importa é por que foi encerrado tão cedo.

Inventor

Toffoli sabia que seus parentes estavam neste fundo?

Model

Não sabemos. Ele não se manifestou. Mas é exatamente isso que levanta a questão: um ministro que relata um caso não deveria ter que responder perguntas sobre ligações financeiras de sua família com a rede investigada?

Inventor

A Reag, a administradora, é investigada por lavagem de dinheiro. Isso prova que o Arleen também lavava dinheiro?

Model

Não. Mas mostra que o Arleen estava dentro de um ecossistema que o BC identificou como suspeito. Estar dentro de um ecossistema suspeito não é crime, mas é razão para transparência.

Inventor

O que muda agora?

Model

Tudo depende do TCU. Se a inspeção in loco no Banco Central for aprovada, pode haver mais luz sobre como essa rede funcionava. E se houver, Toffoli pode ter que se afastar do caso.

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