A velhice não é um tempo inútil, é uma época para continuar a dar frutos
Quando a última geração que conheceu a guerra na Europa começa a desaparecer, a guerra regressa — e o Papa Francisco vê nessa coincidência não acaso, mas advertência. Em maio de 2022, com a Ucrânia a sangrar e milhões em fuga, Francisco dirigiu-se não aos generais nem aos diplomatas, mas aos avós: guardiões de uma memória viva que, se transmitida, pode ser o único antídoto contra a repetição da tragédia. A sua mensagem para o Dia dos Avós é um apelo à dignidade dos anciãos e à responsabilidade da memória como ato de paz.
- A invasão russa da Ucrânia já havia matado mais de três mil civis e deslocado treze milhões de pessoas quando o Papa tomou a palavra — a urgência moral era incontornável.
- Francisco identificou uma ruptura perigosa: a geração que viveu a guerra do século XX está a desaparecer precisamente quando a violência regressa, levando consigo a memória encarnada do que significa sofrer um conflito.
- A mensagem papal critica duramente a 'cultura do descarte' que isola os idosos, retirando-lhes voz e presença nas famílias e comunidades onde a sua experiência seria mais necessária.
- O Papa convoca os anciãos a recusarem o papel de espetadores passivos e a envolverem-se ativamente na transmissão de valores de compreensão, solidariedade e olhar fraterno para o outro.
- A celebração oficial da mensagem está marcada para o Dia dos Avós, a 24 de julho, transformando um gesto litúrgico num apelo político e espiritual de alcance global.
Francisco olhou para a guerra na Ucrânia e viu mais do que um conflito geopolítico. Viu uma coincidência que lhe pareceu um aviso: a violência regressara à Europa precisamente quando a última geração que a tinha vivido no século passado estava a desaparecer. A Rússia invadira a Ucrânia em fevereiro de 2022, e as Nações Unidas já contabilizavam mais de três mil civis mortos — um número provavelmente subestimado. Mais de treze milhões de pessoas tinham fugido, incluindo crianças e famílias inteiras com as vidas interrompidas.
Para o Papa, tratava-se de uma falha moral e uma ruptura na memória coletiva. Por isso pediu uma conversão que desmilitarizasse os corações — não apenas aos líderes políticos, mas aos avós e anciãos. Pediu-lhes que ensinassem às gerações presentes a ver os outros com a mesma ternura que dirigiam aos seus netos, e que oferecessem ajuda ou oração pelas crianças que sofriam na Ucrânia, no Afeganistão e no Sudão do Sul.
A mensagem continha também uma crítica velada ao modo como as sociedades ocidentais tratam os mais velhos. Francisco condenou a 'cultura do descarte' que isola os idosos em instalações assistenciais, oferecendo-lhes cuidados mas não projetos de existência, presença mas não participação. As sociedades mais desenvolvidas, disse, investem muito nesta fase da vida mas não a ajudam a ser vivida com sentido.
O convite era claro: que os anciãos recusassem o papel de espetadores e se envolvessem com família, filhos, netos e com os mais pobres. A velhice não era um tempo de abandono dos remos, mas uma nova missão. A mensagem seria celebrada oficialmente no Dia dos Avós, a 24 de julho — transformando uma data litúrgica num apelo à memória como ato de resistência contra a repetição da história.
Francisco olhou para o momento que o mundo atravessa e viu nele uma coincidência que não podia ser acidental. A guerra tinha regressado à Europa precisamente quando a última geração que a tinha vivido no século passado estava a desaparecer. Não era casualidade, disse o Papa numa mensagem divulgada em maio de 2022. Era um aviso.
O contexto era claro. A Rússia tinha invadido a Ucrânia em fevereiro, desencadeando uma ofensiva que já tinha matado mais de três mil civis segundo as Nações Unidas — um número que os organismos internacionais suspeitavam ser significativamente maior. Mais de treze milhões de pessoas tinham fugido, das quais mais de cinco milhões e seiscentas mil atravessaram as fronteiras do país. Crianças, famílias inteiras, vidas interrompidas. A comunidade internacional respondeu com armamento para Kiev e sanções contra Moscovo, mas a ferida estava aberta.
Francisco via nisto mais do que um conflito geopolítico. Via uma falha moral, uma ruptura na memória coletiva. Por isso pediu algo que soava simples mas exigia transformação profunda: uma conversão que desmilitarizasse os corações, que permitisse a cada pessoa reconhecer um irmão no outro. O mundo vivia uma provação severa, disse, marcada primeiro pela pandemia e depois por esta guerra que afetava a paz e o desenvolvimento em escala global.
Mas a sua mensagem não era apenas para os líderes políticos. Era para os avós, para os anciãos. Pediu-lhes que ensinassem às mulheres e aos homens do tempo presente a ver os outros com a mesma compreensão e o olhar terno que dirigiam aos seus netos. Pediu-lhes que oferecessem ajuda concreta ou oração pelas crianças que fugiam ou sofriam — as da Ucrânia, do Afeganistão, do Sudão do Sul. A mensagem seria celebrada oficialmente no Dia dos Avós, marcado para 24 de julho.
Mas havia também uma crítica implícita na sua fala. Francisco condenou o que chamou de cultura do descarte, aquela que considera os idosos irrelevantes, que prefere afastá-los, isolá-los em instalações onde recebem cuidados mas não participam da vida. As sociedades mais desenvolvidas, disse, investem muito nesta idade da vida mas não a ajudam a ser interpretada; oferecem planos assistenciais mas não projetos de existência. Era uma acusação velada contra o modo como o Ocidente trata quem envelheceu.
O Papa convidava os anciãos a recusarem esse papel de espetadores. Pediu-lhes que se envolvessem nas relações com família, filhos, netos, e também com os pobres e aflitos. Que não se limitassem a olhar pela janela, a estar na varanda do teatro mundial. A velhice, insistiu, não era um tempo inútil em que se abandonavam os remos. Era uma época para continuar a dar frutos, uma nova missão que esperava por cada um, um convite a olhar para o futuro.
Havia nesta mensagem uma tensão entre o desespero do momento — a guerra, as mortes, os deslocados — e uma esperança que repousava precisamente naqueles que tinham vivido conflitos anteriores. Como se Francisco acreditasse que a memória encarnada nos corpos dos idosos fosse a única defesa contra a repetição da história. Como se dissesse: enquanto houver quem se lembre, há ainda esperança de que não esqueçamos.
Citas Notables
Não é por acaso que a guerra voltou na Europa no momento em que a geração que a viveu no século passado está a desaparecer— Papa Francisco
A velhice não é um tempo inútil em que nos afastamos, mas é uma época para continuar a dar frutos— Papa Francisco
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
O Papa vê uma coincidência simbólica entre a guerra regressar à Europa e a geração que a viveu estar a desaparecer. Isso é uma observação sobre timing ou sobre algo mais profundo?
É ambas as coisas. Superficialmente, é uma observação sobre o momento histórico — a última testemunha viva está a sair de cena. Mas Francisco está a dizer algo mais: que a memória encarnada importa. Quando ninguém vivo se lembra do custo real da guerra, torna-se mais fácil começar uma.
E por isso pede aos avós que ensinem. Mas ensinem o quê, exatamente? Não é apenas história.
Não. É um modo de estar no mundo. Um olhar terno, uma compreensão que vem de ter vivido. Os avós não ensinam factos sobre a guerra — ensinam o que significa reconhecer um irmão no outro quando tudo te diz que é inimigo.
Há uma crítica forte à cultura do descarte. Parece que Francisco vê os idosos como descartáveis e depois quer usá-los como guardiões morais. Não é contraditório?
É uma crítica e um apelo simultâneos. Ele está a dizer: vocês foram postos de lado, mas vocês são essenciais. Não apesar de terem envelhecido, mas porque envelheceram. É uma reclamação de dignidade através da utilidade.
E as crianças da Ucrânia, do Afeganistão, do Sudão do Sul — por que nomeia esses lugares específicos?
Porque a guerra não é uma abstração. São lugares reais onde crianças reais estão a sofrer agora. Ao nomeá-los, Francisco recusa deixar a conversa ficar filosófica. Isto está a acontecer.