Consomem plantas em combinações específicas, como se soubessem exatamente o que estão fazendo
Nas florestas de Bornéu, orangotangos vêm sendo observados há duas décadas escolhendo plantas medicinais em combinações que desafiam a explicação do acaso. Um estudo publicado na Scientific Reports, baseado em mais de doze mil registros alimentares, sugere que esses primatas consomem espécies com propriedades terapêuticas documentadas de forma seletiva e sequencial — um comportamento que ecoa, à sua maneira, a antiga busca humana por cura. A fronteira entre instinto e conhecimento, entre natureza e cultura, revela-se mais porosa do que a ciência supunha.
- Orangotangos em Kalimantan consomem plantas medicinais em sequências específicas com frequência muito acima do que o acaso justificaria, acendendo o debate sobre automedicação animal.
- A espécie mais consumida, a Fibraurea tinctoria, possui propriedades contra malária, febre e inflamação — e aparece na dieta dos animais mesmo sem valor nutritivo aparente.
- Pesquisadores cruzaram vinte anos de dados com o conhecimento etnomedicinal das comunidades Dayak, revelando que o que os orangotangos escolhem coincide com o que gerações humanas já usavam como remédio.
- A líder do estudo, Georgia Allen, alerta que ainda não é possível afirmar que os animais se autodiagnosticam conscientemente, mas os padrões observados vão claramente além da alimentação comum.
- A questão central permanece aberta: esse saber terapêutico é transmitido de geração em geração ou é expressão de um instinto mais profundo — e a resposta pode redefinir o que entendemos por cultura animal.
Há vinte anos, pesquisadores acompanham orangotangos nas florestas de Kalimantan, a porção indonésia de Bornéu. O que começou como observação rotineira de hábitos alimentares revelou algo perturbador: os animais parecem escolher plantas medicinais em combinações deliberadas, como se seguissem uma lógica terapêutica própria.
O estudo, publicado na Scientific Reports, analisou mais de doze mil registros de alimentação coletados entre 2003 e 2023 no Parque Nacional de Sabangau. Entre as nove espécies principais identificadas, a Fibraurea tinctoria se destacou — uma planta com propriedades analgésicas, anti-inflamatórias e antitérmicas, usada tradicionalmente contra malária e hepatite. O dado mais revelador foi que essas plantas medicinais apareciam juntas na dieta dos orangotangos com frequência muito superior ao acaso, mesmo não sendo parte central de sua alimentação cotidiana.
Para decifrar o significado dessas escolhas, os pesquisadores recorreram ao conhecimento das comunidades Dayak de Bornéu. Dois especialistas locais, Hendri Shagara e Iwan Shinyo, tornaram-se coautores do estudo e ajudaram a mapear propriedades medicinais de mais de duzentas espécies vegetais culturalmente significativas. A colaboração foi decisiva: confirmou que as plantas selecionadas pelos orangotangos tinham usos terapêuticos documentados há gerações.
O comportamento não é inédito. Fêmeas já foram flagradas mastigando folhas e aplicando a pasta em partes doloridas do corpo; um orangotango de Sumatra usou a mesma Fibraurea tinctoria para tratar uma ferida no rosto. Mas o novo estudo mostra que esse padrão é mais sistemático e generalizado do que se imaginava.
A pesquisadora Georgia Allen, que liderou o trabalho como parte de seu mestrado na Universidade de Exeter, é cautelosa: não é possível afirmar que os animais se diagnosticam como humanos. Ainda assim, os dados sugerem consumo seletivo com finalidade que ultrapassa a nutrição. A pergunta que fica é se esse saber é herdado culturalmente ou inscrito no instinto — uma questão que promete guiar investigações futuras sobre a origem da medicina e da inteligência animal.
Há vinte anos, pesquisadores observam orangotangos na ilha de Bornéu comendo plantas. Não é o comportamento em si que chama atenção — esses animais incluem centenas de espécies vegetais em sua dieta. O que intriga os cientistas é o padrão: os orangotangos parecem escolher combinações específicas de plantas medicinais, em sequências deliberadas, como se soubessem exatamente o que estão fazendo.
Um novo estudo publicado na revista Scientific Reports analisou duas décadas de registros alimentares de orangotangos-de-bornéu que vivem em Kalimantan, a porção indonésia da ilha. Entre 2003 e 2023, pesquisadores documentaram mais de doze mil eventos de alimentação no Parque Nacional de Sabangau, anotando quais plantas os animais comiam e em que ordem. O que emergiram desses dados foram padrões que sugerem algo além da simples nutrição: comportamentos que, em outros primatas, estão associados à automedicação.
A pesquisa identificou nove espécies de plantas principais consumidas pelos orangotangos, sendo a Fibraurea tinctoria a mais frequente. Essa planta possui propriedades analgésicas, antitérmicas, anti-inflamatórias e diuréticas — características que poderiam ajudar a combater malária, hepatite B, febre tifoide e icterícia. Mas o mais revelador foi descobrir que essas plantas medicinais apareciam juntas na dieta dos animais com uma frequência muito maior do que o acaso explicaria. Algumas delas não constituem parte significativa da alimentação geral dos orangotangos, o que sugere que são consumidas por benefícios específicos, não como alimento cotidiano.
Para identificar quais plantas tinham propriedades terapêuticas, os pesquisadores consultaram o conhecimento tradicional das comunidades Dayak, uma etnia de Bornéu com centenas de subgrupos distintos. Dois especialistas locais, Hendri Shagara e Iwan Shinyo, foram coautores do estudo e ajudaram a mapear registros etnomedicinais de mais de duzentas espécies de plantas culturalmente significativas. Essa colaboração foi crucial: permitiu aos cientistas reconhecer que as plantas que os orangotangos escolhiam tinham, de fato, usos medicinais documentados há gerações.
O comportamento não é inteiramente novo na observação científica. Há anos, pesquisadores flagraram fêmeas de orangotango mastigando folhas de Dracaena cantleyi e aplicando a mistura com saliva em partes específicas do corpo — um gesto que poderia aliviar dores musculares ou articulares. Em outro caso documentado, um orangotango de Sumatra usou a Fibraurea tinctoria em forma de pasta para tratar uma ferida no rosto. Mas o que o novo estudo revela é que esse comportamento é mais sistemático e generalizado do que se pensava.
Ainda assim, os pesquisadores são cautelosos em suas conclusões. Georgia Allen, que liderou o estudo como parte de seu mestrado na Universidade de Exeter, afirma que não é possível dizer, nesta etapa, que os orangotangos estão conscientemente se diagnosticando como os humanos fazem. Mas as descobertas sugerem que eles consomem seletivamente plantas com propriedades medicinais de maneiras que vão além da simples nutrição. A questão que permanece aberta é como esses animais aprendem essas combinações terapêuticas: será que herdam o conhecimento de geração para geração, ou é instinto puro?
O fenômeno não é exclusivo dos orangotangos. Chimpanzés, por exemplo, foram observados engolindo folhas inteiras ou mastigando as medulas de plantas da espécie Vernonia amygdalina, provavelmente para se livrar de parasitas internos. Esses achados abrem uma janela para compreender como outros primatas lidam com a doença e a dor — e sugerem que a automedicação pode ser uma estratégia muito mais antiga e disseminada do que imaginávamos.
Notable Quotes
Nossas descobertas sugerem que eles consomem seletivamente determinadas plantas com propriedades medicinais de maneiras que vão além da simples nutrição— Georgia Allen, pesquisadora que liderou o estudo
Algumas espécies de plantas apareceram juntas na dieta dos orangotangos com uma frequência muito maior do que esperávamos aparecer por acaso— Georgia Allen
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como os pesquisadores conseguem saber que as plantas que os orangotangos comem têm propriedades medicinais de verdade?
Eles consultaram especialistas locais das comunidades Dayak, que usam essas plantas há séculos. O conhecimento tradicional validou o que a biologia moderna já sabia sobre as propriedades das plantas.
Mas isso não poderia ser coincidência? Talvez os orangotangos apenas gostem do sabor dessas plantas.
É possível, mas improvável. As plantas medicinais não representam uma parte significativa da dieta geral desses animais — eles as comem em combinações específicas e sequências deliberadas, não ao acaso.
Como sabem que é uma sequência deliberada e não apenas a ordem em que encontram as plantas?
Porque essas combinações aparecem juntas com uma frequência muito maior do que o acaso explicaria. Se fosse aleatório, você esperaria ver padrões diferentes a cada observação.
Os orangotangos poderiam estar aprendendo isso uns com os outros?
Sim, é uma possibilidade que os pesquisadores mencionam. Pode ser conhecimento transmitido de geração para geração, como uma tradição cultural entre os grupos.
Então eles estão se automedicando conscientemente, como nós?
Não sabemos. Podem estar fazendo isso por instinto, ou por aprendizado, ou por ambos. O que sabemos é que o comportamento existe e segue padrões — mas a intenção por trás dele ainda é um mistério.
Isso muda a forma como vemos esses animais?
Muda, sim. Sugere que os orangotangos têm uma relação sofisticada com seu ambiente — não apenas comem o que encontram, mas parecem reconhecer e buscar plantas específicas para necessidades específicas.