PF cumpre segunda fase da Operação Disclosure contra Americanas após 6 meses de preparação

O que aprovou vai precisar convencer o que não aprovou
Mensagem de diretor financeiro da Americanas negociando com executivos do Itaú sobre ocultação de operações de risco.

PF aguardava desde fim de 2024 para executar operação que atingiu Carlos Alberto Sicupira e oito alvos, incluindo ex-conselheiros e executivos de Itaú, Bradesco e Santander. Investigação encontrou evidências de que bancos foram pressionados a ocultar operações de risco em cartas de circularização para auditores, ajudando Americanas a esconder situação financeira real.

  • Dez mandados cumpridos contra oito alvos no Rio e São Paulo em 25 de junho de 2026
  • Carlos Alberto Sicupira e executivos de Itaú, Bradesco e Santander foram investigados
  • Fraude estimada em R$ 25 bilhões pela empresa, mas PF cita R$ 54 bilhões
  • Americanas solicitou saída da recuperação judicial em 25 de março de 2026

Polícia Federal cumpriu segunda fase da Operação Disclosure contra fraudes na Americanas, com mandados contra acionista Sicupira e executivos de bancos credores. Investigação apura participação de acionistas e instituições financeiras em ocultação de operações de risco.

A Polícia Federal finalmente colocou nas ruas, na quinta-feira 25 de junho, aquilo que vinha preparando desde o fim do ano passado: a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga as fraudes na Americanas. Dez mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra oito pessoas no Rio de Janeiro e em São Paulo, atingindo Carlos Alberto Sicupira, um dos principais acionistas da varejista, ex-conselheiros e executivos de bancos que emprestaram dinheiro à companhia. Celulares e notebooks foram recolhidos. A autorização da Justiça, porém, só havia chegado uma semana antes.

O caso da Americanas veio à tona em 11 de janeiro de 2023, quando a fraude bilionária orquestrada pela antiga diretoria foi descoberta. A primeira fase das investigações já havia concluído que o ex-CEO Miguel Gutierrez encabeçou um esquema que desfalcou a empresa. Em março de 2025, o Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra 13 ex-executivos, mas até agora a Justiça não recebeu a acusação — ou seja, ainda não há réus formalmente constituídos no processo.

A segunda fase muda o foco. Agora a PF quer apurar se acionistas, seus representantes no conselho de administração e executivos de bancos participaram da fraude. Os investigadores coletaram depoimentos e acordos de colaboração premiada de ex-diretores que disseram aos policiais que tudo o que acontecia na empresa era repassado aos superiores. No caso dos bancos, há mensagens e e-mails que indicam pressão direta: a Americanas pediu a executivos das instituições financeiras que ocultassem operações de risco nas chamadas cartas de circularização — documentos enviados aos auditores que comprovam a situação financeira da empresa.

Um exemplo concreto vem de fevereiro de 2017. Fabio Abrate, então diretor financeiro da Americanas, escreveu em um grupo de WhatsApp chamado "Auditoria 2016": "Bom dia. Falei com Itaú agora novamente. Dois caras precisam aprovar. Um já aprovou e o outro não. Nosso gerente vai colocar os dois agora para se falarem. O que aprovou vai precisar convencer o que não aprovou". A Americanas havia sugerido ao Itaú duas opções: excluir o risco sacado da carta de circularização, ou mantê-lo mas enviar um documento adicional afirmando que essas operações não se enquadravam no que a Comissão de Valores Mobiliários considerava dívida. A mesma pressão foi feita a outras instituições. No caso do Itaú, o banco manteve a carta original mas respondeu a um pedido adicional de informações que não incluía o risco sacado. A primeira carta foi enviada em anexo no mesmo e-mail, mas não se sabe o que aconteceu com ela.

Os alvos da operação incluem, além de Sicupira, Paulo Lemann (ex-conselheiro e filho do acionista Jorge Paulo Lemann), Eduardo Saggioro (presidente do conselho), José Rudge (diretor do Itaú BBA), Gustavo Balassiano (ex-executivo do Itaú BBA), Carlos Pedras (diretor-executivo do Bradesco), André Juaçaba de Almeida (vice-presidente do Santander) e André Abdo (também do Santander). Segundo a PF, todos teriam "pleno conhecimento das fraudes contábeis praticadas ao longo dos anos" na empresa. A argumentação que sustentou o pedido da operação tem centenas de páginas.

A ação surpreendeu os investigados. Desde o ano passado esperavam ser chamados a depor, mas não imaginavam ser alvo de busca e apreensão. Há também questionamento entre advogados sobre o valor de R$ 54 bilhões citado pela PF como estimativa das fraudes contábeis. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio determinou o sequestro de bens dos investigados até esse limite. Mas o processo tem dívidas concursais de R$ 42,5 bilhões, a fraude foi calculada pela própria empresa em R$ 25 bilhões, e esse último valor é o que balizou o aumento de capital feito por acionistas e credores. "Não sei como chegaram a esse valor, não conseguimos entender essa conta", disse um advogado de um dos investigados.

A Americanas, enquanto isso, trabalha para acalmar funcionários, parceiros e fornecedores. Enviou comunicados reforçando que não estava envolvida diretamente na segunda fase da operação. A empresa solicitou sua saída da recuperação judicial em 25 de março, e essa decisão agora passa a ser analisada num cenário com possíveis novos desdobramentos. O juiz Paulo Assed Estefan, da 4ª Vara Empresarial da Comarca do Rio de Janeiro, tem o pedido sob análise. Há parecer favorável do administrador judicial e do Ministério Público. Mas um advogado especializado em recuperação judicial há 25 anos observa que, embora tecnicamente nada disso deveria importar, "é inegável que a dose de cautela do magistrado tende a aumentar, por uma questão de prudência". Os acionistas de referência divulgaram nota dizendo ter sido surpreendidos pela ação e reiterando que foram "continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria". Os bancos também se manifestaram: o Itaú disse que não é investigado mas colabora com as autoridades, o Santander afirmou estar ao lado das partes prejudicadas, e o Bradesco disse que acompanha e está à disposição.

Não sei como chegaram a esse valor, não conseguimos entender essa conta
— Advogado de um dos investigados, sobre o valor de R$ 54 bilhões citado pela PF
É inegável que a dose de cautela do magistrado tende a aumentar, por uma questão de prudência
— Advogado especializado em recuperação judicial há 25 anos, sobre a decisão do juiz
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Inventor

Por que a PF esperou seis meses entre a autorização e a execução da operação?

Model

A investigação precisava ser sólida. Centenas de páginas de argumentação foram necessárias para convencer a Justiça de que havia base para buscar e apreender bens de pessoas como Sicupira e executivos de bancos. Não é trivial acusar acionistas e banqueiros de participação em fraude.

Inventor

O que as mensagens do WhatsApp revelam que não era óbvio antes?

Model

Que havia negociação ativa. Não era a Americanas agindo sozinha — era a empresa pedindo explicitamente aos bancos que alterassem ou ocultassem informações. E os bancos respondendo, discutindo internamente, aprovando ou não. Isso muda a narrativa de fraude corporativa para possível conluio.

Inventor

Por que o valor de R$ 54 bilhões causa tanta confusão?

Model

Porque não bate com nada. A empresa calculou R$ 25 bilhões. O processo tem dívidas de R$ 42,5 bilhões. Ninguém consegue explicar como a PF chegou a 54. Se o número está errado, toda a base do sequestro de bens fica questionável.

Inventor

A saída da recuperação judicial ainda é viável?

Model

Tecnicamente sim. A empresa está gerando receita, o prejuízo caiu 34%, as vendas cresceram 20%. Mas agora o juiz está sob holofotes. Ninguém quer ser o magistrado que libertou a Americanas da recuperação judicial no meio de uma operação da PF contra seus acionistas.

Inventor

Os bancos realmente não sabiam o que estava acontecendo?

Model

Eles dizem que não, que recusaram pedidos da antiga gestão. Mas há e-mails mostrando pressão, discussão interna, aprovações condicionadas. A questão é: até que ponto colaboração com um cliente em dificuldade vira conluio em fraude?

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