Líderes locais pedem mais financiamento da UE para enfrentar alterações climáticas e crise habitacional

Ondas de calor, secas, incêndios florestais e inundações tornam comunidades mais vulneráveis; crise habitacional deixa cidadãos incapazes de pagar rendas.
A crise climática nunca desapareceu das nossas cidades
Kata Tüttő, Presidente do Comité das Regiões, sobre a urgência de financiamento europeu para adaptação territorial.

Após ondas de calor extremas, cidades e regiões pressionam a UE para garantir apoio específico à adaptação climática no próximo orçamento plurianual. A crise habitacional europeia requer 153 mil milhões de euros anuais para construir dois milhões de casas, com líderes a destacar necessidade de financiamento previsível.

  • 153 mil milhões de euros anuais necessários para construir dois milhões de casas por ano na UE
  • Banco Europeu de Investimentos aumentará investimento em habitação de 5 para 6 mil milhões de euros entre 2025 e 2026
  • Meta de 35% para despesas relacionadas com clima e ambiente no próximo orçamento plurianual da UE
  • Lisboa investiu 560 milhões de euros do Next Generation Europe em projetos habitacionais

Autoridades locais e regionais da UE exigem maior financiamento para mitigação climática e construção de habitação acessível, alertando que o próximo orçamento plurianual pode enfraquecer metas ambientais.

A Europa está a aquecer, e as cidades estão a sentir o peso dessa transformação de forma imediata. Depois de uma das ondas de calor mais extremas alguma vez registadas na Europa Central e Ocidental, os líderes locais e regionais reuniram-se em Bruxelas para fazer um apelo direto à União Europeia: o próximo orçamento plurianual precisa de incluir financiamento claro e específico para que as cidades e regiões possam adaptar-se e mitigar os efeitos das alterações climáticas. Não é um pedido abstrato. É uma exigência que vem do terreno, de quem está a lidar todos os dias com as consequências.

No debate com Teresa Ribera, Vice-Presidente Executiva da Comissão Europeia, os representantes locais foram diretos: cada onda de calor, cada seca, cada incêndio florestal, cada inundação torna as comunidades mais vulneráveis. Kata Tüttő, Presidente do Comité das Regiões Europeu e membro do Conselho Municipal de Budapeste, foi particularmente clara: "nos últimos anos, a atenção política da Europa tem-se voltado para as fronteiras, a segurança e as crises geopolíticas. Contudo, para os líderes locais e regionais, a crise climática nunca desapareceu." A questão agora é se as autoridades locais e regionais, que são responsáveis pela implementação da maioria das medidas de adaptação e mitigação, terão ainda os recursos necessários para continuar.

O Comité das Regiões adotou, a 1 de julho, um parecer que alerta para um risco concreto: a estrutura proposta para o próximo orçamento plurianual pode enfraquecer o cumprimento das metas climáticas e ambientais da UE e aumentar as disparidades territoriais. A meta de 35% para despesas relacionadas com clima e ambiente — que sobe até 43% nos Planos Nacionais e Regionais de Parceria — será difícil de alcançar sem uma apropriação territorial forte, uma clara atribuição de responsabilidades entre os diferentes níveis de governo e um financiamento previsível. Teresa Ribera reconheceu a urgência: "as alterações climáticas são uma assassina silenciosa. No continente mais rico do mundo, não estamos suficientemente preparados para os eventos extremos." A Comissão Europeia promete adotar uma estratégia de adaptação no último trimestre de 2026, mas os líderes locais querem garantias agora.

A crise habitacional europeia é igualmente urgente e igualmente exigente em termos de recursos. Os líderes locais e regionais reunidos em Bruxelas foram claros: é hora de passar da ambição política ao investimento concreto. As cidades e regiões estão a lidar com a crise habitacional nos seus territórios e estão preparadas para implementar soluções, mas precisam de melhor acesso ao financiamento e de apoio adequado da UE. Os números são impressionantes: a Comissão Europeia estima que serão necessários cerca de 153 mil milhões de euros por ano para financiar a construção de aproximadamente dois milhões de casas anualmente em toda a UE. O Banco Europeu de Investimentos disponibilizou cerca de 5 mil milhões de euros em financiamento à habitação em 2025, e a Comissão confirmou a intenção de aumentar esse investimento para 6 mil milhões de euros em 2026.

Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, participou na discussão e trouxe a perspetiva de uma cidade que conseguiu investir 560 milhões de euros do Next Generation Europe em projetos habitacionais. Mas foi claro sobre a realidade: "a habitação é o maior desafio das nossas cidades e regiões. Os nossos cidadãos já não conseguem pagar os preços da habitação." Moedas rejeitou soluções simplistas. "Não existem soluções mágicas. Não se trata de uma questão de 'ou um ou outro'. É um problema de oferta e de procura. É um problema público e privado. É um problema de burocracia e de impostos." Do lado da oferta, defendeu a necessidade de construir mais, a um ritmo mais acelerado e a um custo mais baixo, acelerando a emissão de licenças, reduzindo burocracia, incorporando inteligência artificial nas decisões sobre licenças e adotando inovação com novos materiais e construção modular. Do lado da procura, sublinhou a necessidade de alargar programas para ajudar jovens e profissionais a pagar renda, reduzir impostos como o imposto de selo para jovens, e investir em habitação e oportunidades de emprego para pessoas sem-abrigo.

Moedas foi também claro sobre o que vem a seguir: "com o fim da próxima geração de projetos habitacionais, as cidades europeias necessitam de novos programas habitacionais específicos." Defendeu mais investimento privado através de parcerias público-privadas, em que o público disponibiliza o terreno e o privado constrói habitação acessível. A sessão plenária do Comité das Regiões em Bruxelas, que Moedas presidiu a uma parte, refletiu a urgência que atravessa toda a Europa: as cidades estão a aquecer, as casas são inacessíveis, e o financiamento europeu precisa de acompanhar a realidade do terreno.

Em paralelo, os líderes locais e regionais também adotaram uma posição unânime sobre a Política Agrícola Comum para o período 2028-2034, apelando a um papel mais preponderante das autoridades locais e regionais, a um sistema de apoio ao rendimento justo e previsível para os agricultores, e a uma abordagem equilibrada entre objetivos económicos, ambientais e sociais. José Manuel Gonçalves, Presidente da Câmara Municipal do Peso da Régua, destacou que "para Portugal em geral, e para o Douro em particular, a renovação geracional na agricultura é estratégico e determinante para a sustentabilidade do território." Helena Teodósio, Presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, reforçou: "é fundamental acionar medidas favoráveis ao aumento do rendimento dos agricultores, ao reforço da resiliência do setor e garantam o melhor futuro às comunidades rurais." O que emerge de Bruxelas é um padrão claro: as autoridades locais e regionais estão na linha da frente de três crises simultâneas — climática, habitacional e agrícola — e estão a exigir que a UE coloque o dinheiro onde a política diz estar.

A habitação é o maior desafio das nossas cidades e regiões. Os nossos cidadãos já não conseguem pagar os preços da habitação.
— Carlos Moedas, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
As alterações climáticas são uma assassina silenciosa. No continente mais rico do mundo, não estamos suficientemente preparados para os eventos extremos.
— Teresa Ribera, Vice-Presidente Executiva da Comissão Europeia
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que os líderes locais estão a fazer este apelo agora, especificamente?

Model

Porque as ondas de calor extremas deixaram claro que não é mais uma ameaça futura. É uma realidade presente. As cidades estão a aquecer, os rios estão a secar, e as comunidades estão a ficar mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, o próximo orçamento plurianual da UE está a ser desenhado, e há o risco real de que não inclua o financiamento específico que as autoridades locais precisam para responder.

Inventor

Mas a UE não está já a investir em clima e habitação?

Model

Está, mas de forma fragmentada e insuficiente. O Banco Europeu de Investimentos disponibilizou 5 mil milhões de euros em habitação em 2025, e vai aumentar para 6 mil milhões em 2026. Mas para construir dois milhões de casas por ano em toda a UE, são necessários 153 mil milhões de euros anuais. A diferença é abismal. E no clima, a meta é 35% das despesas, mas sem financiamento previsível e sem responsabilidades claras entre os diferentes níveis de governo, é difícil de alcançar.

Inventor

O que é que Carlos Moedas quis dizer com "não existem soluções mágicas"?

Model

Que o problema é multifacetado. Não é só construir mais casas. É também reduzir burocracia, incorporar inovação, criar parcerias público-privadas, ajudar as pessoas a pagar renda, reduzir impostos. É um problema de oferta e procura, público e privado, burocracia e impostos. Nenhuma medida isolada resolve. Precisa-se de todas.

Inventor

E a agricultura? Porque é que isso aparece no mesmo debate?

Model

Porque é outra crise territorial. A renovação geracional na agricultura está a falhar. Os jovens não veem futuro no setor. As autoridades locais estão a dizer que a Política Agrícola Comum precisa de garantir rendimento justo e previsível para os agricultores, caso contrário as comunidades rurais vão esvaziar-se.

Inventor

Qual é o risco se a UE não responder?

Model

Que as disparidades territoriais aumentem. Que as cidades fiquem ainda mais caras e inacessíveis. Que as comunidades rurais se esvaziem. Que as regiões menos ricas fiquem ainda mais para trás. E que as cidades não consigam adaptar-se aos eventos climáticos extremos que já estão a acontecer.

Want the full story? Read the original at RTP ↗
Contact Us FAQ