Esse jovem passou a adolescência trancado em casa, em vez de interagindo
Em apenas um ano, a obesidade entre jovens brasileiros de 18 a 24 anos cresceu 90%, revelando que uma geração moldada pelo isolamento pandêmico, pelo sedentarismo e pela má alimentação está chegando à vida adulta com o peso de doenças que antes pertenciam a faixas etárias mais velhas. O inquérito Covitel 2023, que ouviu 9 mil brasileiros de todas as regiões, não apenas registra números alarmantes — ele expõe uma crise silenciosa de saúde pública que, sem resposta estrutural do Estado, promete se transformar em fardo econômico e humano por décadas.
- A obesidade juvenil quase dobrou em um único ano, saltando de 9% para 17,1% entre os jovens de 18 a 24 anos — uma velocidade que surpreendeu até os próprios pesquisadores.
- Sedentarismo, noites mal dormidas, dieta pobre em vegetais e consumo abusivo de álcool formam um quadro de hábitos que se consolidaram durante a pandemia e não foram revertidos.
- As consequências já são concretas: 1,4 milhão de jovens têm hipertensão, 750 mil têm diabetes, e quase um terço relata ansiedade — doenças que antes chegavam décadas mais tarde.
- Especialistas alertam que o Brasil caminha para uma crise de produtividade e sobrecarga do sistema de saúde se políticas públicas focadas nessa faixa etária não forem implementadas com urgência.
- A solução exigida vai além da medicina: impostos sobre ultraprocessados e álcool, promoção de atividade física e ambientes urbanos que protejam a saúde mental são apontados como caminhos necessários.
Em um único ano, a obesidade entre jovens brasileiros de 18 a 24 anos saltou de 9% para 17,1% — um crescimento de 90% que surpreendeu até quem acompanha esses dados há anos. O dado vem do Covitel 2023, inquérito que ouviu 9 mil brasileiros para mapear fatores de risco para doenças crônicas. Para Luciana Vasconcelos Sardinha, da Vital Strategies, o padrão era conhecido — má alimentação, álcool, inatividade —, mas a velocidade do salto não era esperada. Ela lembra que esses jovens passaram o fim da adolescência confinados, trocando interação social por telas.
Os números sustentam o diagnóstico. Apenas 36,9% dos jovens dessa faixa etária praticam os 150 minutos semanais de atividade física recomendados pela OMS, enquanto 76,1% passam três horas ou mais por dia em frente a telas por lazer. Metade não dorme o suficiente. Essa é também a faixa etária que menos consome frutas e vegetais e que mais bebe refrigerante — 24,3% consomem essas bebidas cinco vezes ou mais por semana. Um em cada três relatou episódio recente de consumo abusivo de álcool.
As consequências já se materializam: cerca de 1,4 milhão de jovens têm hipertensão e 750 mil têm diabetes. A saúde mental acompanha o declínio físico — 31,6% relatam ansiedade e 14,1%, depressão. O fenômeno não é exclusivo dos jovens, já que mais da metade da população brasileira está com excesso de peso, mas a velocidade da mudança nessa faixa etária é o que alarma os especialistas.
Pedro Hallal, coordenador do Covitel, lembrou que a inatividade física causa mais de 5 milhões de mortes por ano no mundo. Sardinha vai além: sem políticas públicas de estado — que incluam impostos sobre ultraprocessados, álcool e tabaco, e ambientes urbanos que favoreçam a saúde mental —, o Brasil verá seus jovens chegarem à meia-idade já sobrecarregados por doenças crônicas, com impactos profundos na produtividade e no sistema de saúde.
Em um ano, a obesidade entre jovens brasileiros de 18 a 24 anos dobrou quase. Saltou de 9% para 17,1% da população nessa faixa etária — um aumento de 90% que surpreendeu até os pesquisadores que acompanham esses números há anos. O dado vem do Covitel 2023, um inquérito telefônico que ouviu 9 mil brasileiros de todas as regiões do país para mapear os fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis. Quando Luciana Vasconcelos Sardinha, gerente sênior de doenças crônicas não transmissíveis da Vital Strategies, viu o resultado, reconheceu o padrão — má alimentação, consumo de álcool, falta de movimento — mas não esperava um salto tão abrupto. "Esse é um jovem que passou o fim da sua adolescência, que é um momento de muita interação, na pandemia. Em vez disso, ele estava dentro de casa", observou.
Os números explicam por que. Apenas 36,9% dos jovens de 18 a 24 anos praticam os 150 minutos semanais de atividade física que a Organização Mundial da Saúde recomenda. Enquanto isso, 76,1% passam três horas ou mais por dia em frente a telas — celulares, tablets, televisão — para lazer. Metade deles não dorme o suficiente para a idade. E quando comem, comem mal: essa faixa etária é a que menos consome frutas, verduras e legumes, e a que mais bebe refrigerante e sucos artificiais. Um em cada três jovens relatou episódio recente de consumo abusivo de álcool — quatro doses ou mais para mulheres, cinco para homens, em uma mesma ocasião.
As consequências já aparecem. Aproximadamente 1,4 milhão de jovens de 18 a 24 anos têm hipertensão. Outros 750 mil têm diabetes. A saúde mental também sofre: 31,6% dos brasileiros dessa idade relatam ansiedade, e 14,1% depressão. O padrão não é exclusivo dos jovens — mais da metade de toda a população brasileira (56,8%) está com excesso de peso — mas a velocidade da mudança nessa faixa etária é o que alarma os especialistas. Entre os 45 e 54 anos, o excesso de peso chega a 68,5%. Entre os mais jovens, já está em 40,3%.
O quadro geral da alimentação brasileira é desolador. Menos da metade da população consome verduras e legumes cinco vezes ou mais por semana. O mesmo vale para frutas. Quem mais come esses alimentos são os idosos com 65 anos ou mais, as mulheres, as pessoas com maior escolaridade e quem vive na região Sul — um padrão que revela desigualdade no acesso. Embora a renda não tenha sido questionada diretamente, essas características sugerem que pessoas de renda mais alta conseguem comprar alimentos saudáveis com mais facilidade. Já o refrigerante e os sucos artificiais aparecem na mesa de 17,8% dos brasileiros cinco vezes ou mais por semana. Entre os jovens adultos, esse número sobe para 24,3%.
A atividade física também está longe do ideal. Apenas 31,5% de todos os brasileiros praticam pelo menos 150 minutos de exercício moderado ou vigoroso por semana. Pedro Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas e coordenador do Covitel, lembrou que a inatividade física causa mais de 5 milhões de mortes por ano no mundo. Os homens se exercitam mais que as mulheres. Quem tem mais escolaridade e é mais jovem também tende a se mover mais — mas mesmo assim, os números são insuficientes.
O tabagismo, pelo menos, estagnou. Nos últimos anos, a prevalência se manteve estável em 11,8% da população. Sardinha atribui isso ao fato de o cigarro convencional ser muito barato no Brasil — é o segundo mais barato das Américas, sem reajuste desde 2016. Entre os jovens, 9,4% fumam cigarro convencional, mas 22,5% já experimentaram narguilé e 23,9% já fumaram cigarro eletrônico. O consumo regular de álcool é relatado por 7,2% da população, com maior prevalência no Sudeste e entre homens. Mas o consumo abusivo é mais preocupante: 22,1% da população relataram esse padrão nos 30 dias anteriores à entrevista, e entre os jovens adultos, o índice chegou a 32,6%.
Sardinha insiste que os jovens são uma força econômica para o país, e esse cenário representa um grande problema. Se a tendência continuar, o Brasil terá uma população de obesos com doenças crônicas não transmissíveis, com impactos na produtividade, no sistema de saúde e na economia. Ela defende políticas públicas de estado focadas nessa população — desde a promoção de atividade física até impostos seletivos sobre produtos que causam risco à saúde, como álcool, tabaco e ultraprocessados. A saúde mental também exige atenção intersetorial: 26,8% dos brasileiros receberam diagnóstico de ansiedade, com maiores índices entre adultos jovens e mulheres. O dado é expressivo, e Sardinha ressalta que não basta colocar saúde mental na agenda — é preciso que outras áreas, como urbanismo e segurança pública, criem ambientes que protejam a saúde mental das pessoas. Sem isso, o Brasil seguirá vendo seus jovens adoecerem mais rápido do que esperado.
Citas Notables
Esse é um jovem que passou o fim da sua adolescência, que é um momento de muita interação, na pandemia. Em vez disso, ele estava dentro de casa— Luciana Vasconcelos Sardinha, gerente sênior de doenças crônicas não transmissíveis da Vital Strategies
A inatividade física causa mais de 5 milhões de mortes por ano no mundo. Políticas públicas de promoção da atividade física são urgentes em todo o território nacional— Pedro Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas e coordenador do Covitel
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que esse aumento de 90% em apenas um ano? Parece desproporcional.
A pandemia acelerou tudo. Esses jovens passaram o fim da adolescência trancados em casa, sem interação, sem movimento. Quando saíram, já tinham novos hábitos — mais tela, menos atividade, pior alimentação.
Mas a pandemia acabou. Por que os números não melhoraram?
Porque os hábitos pegaram. Quando você passa meses em casa comendo mal e não se movendo, isso vira normal. Além disso, a alimentação saudável é cara. Refrigerante é barato. Ficar em casa é fácil.
A pesquisa mostra que apenas 36,9% dos jovens fazem atividade física suficiente. Isso é muito pouco.
É. E enquanto isso, 76% passam três horas ou mais por dia em telas. A competição é desigual. A tela é sempre acessível, sempre ali. Exercício exige sair de casa, gastar dinheiro, ter espaço.
E a saúde mental? Por que tantos jovens com ansiedade e depressão?
Porque tudo está conectado. Você não dorme bem, não se move, come mal, bebe demais. Seu corpo fica inflamado, seu cérebro sofre. E depois vem a ansiedade, a depressão. Não é só psicológico.
O que muda se nada for feito?
Uma geração inteira de adultos doentes. Menos produtivos, mais afastados do trabalho, mais custos para o sistema de saúde. E economicamente, o país perde. Esses jovens são a força econômica do Brasil.