"O trem do mundo multipolar já saiu da estação", afirma Pepe Escobar

O trem do mundo multipolar já saiu da estação
Pepe Escobar afirma que a transição para uma ordem internacional multipolar é irreversível, independentemente dos conflitos regionais.

De Samarcanda, cidade que já foi encruzilhada de civilizações, o correspondente Pepe Escobar argumenta que a transição para um mundo multipolar é irreversível — e que os conflitos na Ucrânia e em torno de Taiwan são apenas sintomas visíveis de uma reconfiguração histórica mais profunda. Em sua leitura, as sanções ocidentais contra a Rússia ferem mais a Europa do que o alvo pretendido, enquanto a aliança sino-russa consolida uma nova arquitetura de poder global. O que está em jogo, sugere ele, não é a defesa de democracias, mas o destino de um império em declínio que trava suas batalhas finais em solo alheio.

  • A guerra na Ucrânia é enquadrada não como defesa da soberania, mas como um choque entre a OTAN e a Eurásia por influência geopolítica — e o Ocidente, segundo Escobar, está perdendo esse embate.
  • Seis pacotes de sanções contra a Rússia estão destruindo a economia alemã e europeia, criando uma inversão perversa em que o punidor se torna a principal vítima.
  • A China avança sobre Taiwan com paciência estratégica: um ensaio de bloqueio total que demonstra poder sem precipitar conflito aberto, com Xi Jinping acelerando o processo de forma calculada.
  • A parceria militar China-Rússia se aprofunda como pilar central da nova ordem multipolar, desafiando a capacidade ocidental de conter ambas as potências simultaneamente.
  • A Europa, na metáfora de Boaventura Sousa Santos adotada por Escobar, caminha para se tornar um grande Porto Rico — vassala econômica de um império americano em declínio que usa o continente como campo de batalha.

De Samarcanda, no coração do Uzbequistão, o correspondente Pepe Escobar conversou com Leonardo Attuch, da TV 247, para oferecer uma leitura da geopolítica contemporânea que desafia a narrativa ocidental. Para ele, os conflitos em curso — Ucrânia e Taiwan — são sintomas de uma transição já irreversível: a emergência de um mundo multipolar. "O trem já saiu da estação", afirmou, sugerindo que nenhuma pressão militar ou diplomática ocidental será capaz de deter esse movimento histórico.

Sobre a Ucrânia, Escobar é direto: o conflito não é uma batalha pela democracia, mas um episódio no choque entre a OTAN e a Eurásia. E as sanções econômicas contra a Rússia, em sua avaliação, produziram um efeito perverso — são os países europeus, especialmente a Alemanha, que mais sofrem com as restrições, enquanto Moscou encontra caminhos alternativos.

Em relação a Taiwan, o analista enfatiza o cálculo estratégico de Pequim: uma resposta medida, de longo prazo, que inclui ensaios de bloqueio total à ilha. Xi Jinping, em sua metáfora, já colocou a sexta marcha — acelerado, mas controlado. A parceria militar entre China e Rússia, nesse contexto, emerge como um dos pilares estruturais da nova ordem que se forma.

Ao comentar a ascensão de Liz Truss no Reino Unido, Escobar sugeriu que barreiras raciais implícitas ainda moldam as democracias liberais ocidentais. E, concordando com o sociólogo Boaventura Sousa Santos, concluiu que a Europa caminha para se tornar um grande Porto Rico — colônia econômica de um império que, após as humilhações no Afeganistão e na Ucrânia, vive o ocaso de sua hegemonia inconteste.

De Samarcanda, no coração do Uzbequistão, onde as antigas rotas da seda ganham nova vida no século XXI, o correspondente internacional Pepe Escobar ofereceu uma leitura da geopolítica contemporânea que desafia a narrativa ocidental dominante. Em conversa com o jornalista Leonardo Attuch, editor da TV 247, ele argumentou que os conflitos em curso — a guerra na Ucrânia, as tensões em torno de Taiwan — são sintomas de uma transição histórica já irreversível: a emergência de um mundo multipolar que não será detido por crises regionais ou pressão militar.

Para Escobar, a Ucrânia funciona como peça de um tabuleiro muito maior. Não é o conflito em si que importa, mas o que ele representa: o choque entre a OTAN e a Eurásia por influência e poder. "O trem do mundo multipolar já saiu da estação", afirmou ele, sugerindo que a história se move em uma direção que nenhuma potência ocidental conseguirá reverter. Essa perspectiva reposiciona o conflito ucraniano não como uma batalha pela democracia ou pela soberania nacional — como frequentemente é enquadrado no Ocidente — mas como um episódio em uma reconfiguração maior das relações internacionais.

O analista foi particularmente crítico quanto aos efeitos das sanções econômicas contra a Rússia. Segundo sua avaliação, os países europeus — especialmente a Alemanha — tornaram-se as principais vítimas dessa estratégia. Seis pacotes de sanções, em sua visão, estão destruindo a economia europeia enquanto a Rússia encontra formas de contornar as restrições. Isso sugere uma inversão perversa: quem pretendia punir o adversário acabou prejudicando seus próprios aliados.

Sobre Taiwan, Escobar ofereceu uma leitura que enfatiza o cálculo estratégico chinês em detrimento de qualquer impulso agressivo imediato. A resposta de Pequim, argumentou, será medida, executada no seu próprio tempo e com horizonte de longo prazo. Ele descreveu a estratégia chinesa como um ensaio de bloqueio total da ilha — um exercício de poder que demonstra capacidade sem necessariamente desencadear conflito aberto. Xi Jinping, em sua metáfora, já colocou a sexta marcha, sugerindo que o processo está em movimento acelerado mas controlado.

A parceria entre China e Rússia emergiu como elemento central em sua análise. Não se trata apenas de alinhamento político, mas de cooperação militar de alto nível que reforça a capacidade de ambas as potências de resistir à pressão ocidental. Essa aliança, na visão de Escobar, é um dos pilares da nova ordem multipolar.

Ao comentar a sucessão de Boris Johnson no Reino Unido, Escobar ofereceu uma observação que revela sua visão sobre as estruturas de poder ocidentais. A vitória de Liz Truss, em sua análise, não seria resultado de mérito ou capacidade, mas de uma barreira racial implícita: um indiano não poderia ser primeiro-ministro britânico. Essa afirmação sugere que mesmo as democracias liberais ocidentais operam sob limitações que refletem hierarquias históricas.

Escobar concordou com a tese do sociólogo Boaventura Sousa Santos de que a Europa está se tornando um grande Porto Rico — uma colônia econômica do império americano. Nessa visão, o continente europeu não é mais um ator independente, mas um vassalo de uma potência em declínio. A guerra na Ucrânia, portanto, não é uma defesa da Europa, mas uma guerra do império contra a Eurásia, travada em território europeu e às custas da economia europeia. O império, em sua análise, sofreu duas humilhações históricas: o Afeganistão e agora a Ucrânia. Essas derrotas marcam o fim de uma era de hegemonia inconteste.

A Ucrânia é um peão no meio do jogo entre OTAN e Eurásia
— Pepe Escobar
Estamos assistindo à guerra entre o império e seus vassalos contra a Eurásia. O Império está sofrendo duas humilhações: uma no Afeganistão e uma na Ucrânia
— Pepe Escobar
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Quando você diz que o trem do mundo multipolar já saiu da estação, está sugerindo que essa transição é irreversível?

Model

Exatamente. Não é uma possibilidade futura, é um processo em curso. Os conflitos que vemos agora — Ucrânia, Taiwan — são tentativas de frear algo que já está em movimento. Mas a história não volta para trás.

Inventor

E por que a Europa se torna vítima dessa transição, e não beneficiária?

Model

Porque a Europa não é um ator independente nesse jogo. Ela está presa entre o império americano em declínio e a Eurásia em ascensão. As sanções que impõe à Rússia destroem sua própria economia enquanto o império continua intacto.

Inventor

Você vê a resposta chinesa a Taiwan como contida, não agressiva. Por quê?

Model

Porque os chineses pensam em décadas, não em anos. Taiwan não é um problema que precisa ser resolvido amanhã. É um processo que se desenrola no tempo deles, com bloqueios, pressão econômica, demonstração de força. Paciência estratégica.

Inventor

A parceria China-Rússia muda o equilíbrio de poder?

Model

Muda tudo. Não é apenas aliança política. É cooperação militar de altíssimo nível. Significa que o Ocidente não consegue isolar nenhuma das duas potências porque elas se sustentam mutuamente.

Inventor

Você mencionou que a Europa virou um Porto Rico. Isso significa que perdeu sua soberania?

Model

Não perdeu, nunca teve. A Europa é um vassalo que acredita ser livre. Faz a guerra do império, paga o preço econômico, e chama isso de defesa dos valores ocidentais.

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