O 'sangue doce' é um mito sem qualquer fundamento científico
Desde tempos imemoriais, a humanidade atribuiu ao 'sangue doce' a razão pela qual alguns corpos atraem mais mosquitos do que outros — mas a ciência desfaz esse mito com elegância: são as moléculas voláteis do odor natural da pele que guiam estes insetos. O que começa como uma curiosidade biológica revela-se, afinal, uma questão de saúde pública global: os mosquitos matam cerca de 725 mil pessoas por ano, e o aquecimento climático está a alargar o seu território para latitudes que julgávamos seguras. Lisboa, Lisboa, e o sul da Europa já não são exceção.
- O mito do 'sangue doce' persiste culturalmente, mas investigadores do Instituto de Medicina Molecular confirmam que são compostos químicos da pele — e não propriedades do sangue — que tornam certas pessoas alvos preferidos dos mosquitos.
- A dengue, sem vacina eficaz nem tratamento específico, infeta dezenas de milhões de pessoas por ano e mata mais de 20 mil, sobretudo crianças — e o facto de 40 a 80% das infeções serem assintomáticas torna o controlo da transmissão quase impossível.
- O mosquito-tigre asiático já colonizou partes do sul europeu, e Portugal viveu o maior surto de dengue registado na Europa, na Madeira — sinais de que o risco deixou de ser apenas tropical.
- O projeto NOVIRUSES2BRAIN, financiado pela Comissão Europeia, tenta desenvolver um único medicamento capaz de combater dengue e zika, com a exigência adicional de atravessar a barreira placentária e chegar ao cérebro para prevenir danos neurológicos.
Há uma crença popular que resiste ao tempo: a de que os mosquitos preferem certas pessoas porque o seu sangue é mais doce. Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular em Lisboa, desmonta essa ideia sem hesitação. O que atrai os mosquitos fêmea são moléculas voláteis libertadas pela pele — dois desses compostos, o decanal e o undecanal, têm até aroma cítrico e aparecem em alguns perfumes. Os mosquitos macho, curiosamente, não se alimentam de sangue.
Mas a picada é apenas o início de uma história muito mais grave. Os mosquitos são os animais mais mortíferos do planeta, responsáveis por cerca de 725 mil mortes anuais. A malária lidera em número de casos — 240 milhões por ano —, mas a dengue preocupa de forma particular: não existe vacina eficaz para uso em larga escala nem medicamento específico, o vírus apresenta-se em quatro versões sem imunidade cruzada entre si, e entre 40 a 80% das infeções são assintomáticas, tornando o controlo da transmissão extraordinariamente difícil.
O aquecimento global agrava o cenário. O mosquito-tigre asiático já se instalou em partes do sul europeu, e Portugal registou na Madeira o maior surto de dengue da história europeia. Castanho é direto: a erradicação destas doenças é uma miragem. Dengue e zika estão demasiado bem adaptados à coexistência com mosquitos e humanos para serem eliminados sem ferramentas muito mais poderosas do que as que existem hoje.
É nesse contexto que o projeto NOVIRUSES2BRAIN, financiado pela Comissão Europeia, ganha urgência. O objetivo é desenvolver um medicamento capaz de atacar simultaneamente dengue e zika, que consiga atravessar a barreira placentária para proteger fetos e chegar ao cérebro para prevenir complicações neurológicas. À medida que o clima muda e as doenças avançam para norte, o tempo para nos prepararmos vai encurtando.
Há uma ideia que muitos de nós carregamos desde a infância: a de que certos corpos são simplesmente mais atraentes para os mosquitos, que eles escolhem as suas vítimas com base na doçura do sangue. Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular em Lisboa, tem uma mensagem clara para quem acredita nisso: esqueça tudo o que ouviu.
O conceito do "sangue doce" é um mito sem qualquer fundamento científico. O que realmente determina se um mosquito vai picar uma pessoa ou outra tem pouco a ver com as propriedades do sangue em si. Segundo um estudo de 2022, a verdadeira razão é muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais complexa: o odor natural do corpo. Moléculas voláteis libertadas pela pele desencadeiam reações fisiológicas nos mosquitos fêmea que as levam a atacar. Curiosamente, dois destes compostos — o decanal e o undecanal — têm um aroma cítrico e são usados em alguns perfumes. Os mosquitos macho, note-se, não se alimentam de sangue.
Mas a questão dos mosquitos vai muito além da incómoda comichão de uma picada. Estes insetos são, de facto, os animais mais mortíferos do planeta. Estimativas globais apontam para cerca de 725 mil mortes por ano causadas por doenças transmitidas por mosquitos — um número que ultrapassa em muito o das mortes causadas por serpentes ou qualquer outro animal selvagem. A malária continua a ser a doença mais conhecida, com aproximadamente 240 milhões de casos anuais em todo o mundo. Mas existem outras ameaças igualmente graves: febre amarela, zika, chikungunya e, particularmente preocupante, a dengue.
A dengue merece atenção especial. Ao contrário da malária, que pode ser prevenida com medicamentos e vacinas, a dengue não tem fármacos específicos nem uma vacina eficaz para uso em larga escala. É a doença viral transmitida por mosquitos com maior impacto global, causando dezenas de milhões de infecções anuais e mais de 20 mil mortes, sobretudo em crianças. O vírus existe em quatro versões diferentes, sem imunidade cruzada entre elas, o que significa que uma pessoa pode contrair dengue várias vezes durante a sua vida. Ainda mais preocupante: entre 40 e 80% das infecções por dengue são assintomáticas, dificultando enormemente o controlo da transmissão.
O aquecimento global está a amplificar este problema de forma dramática. Com a expansão das zonas tropicais e subtropicais, os mosquitos transmissores de doenças estão a conquistar novos territórios. Na Europa continental, particularmente no sul, já existem áreas colonizadas pelo mosquito-tigre asiático, uma espécie invasora que tem ganho terreno devido às alterações climáticas. Isto significa que o risco de surtos de dengue e zika em países como Portugal está a aumentar. Portugal já vivenciou um surto de dengue na Madeira, o mais significativo registado na Europa até à data.
Castanho alerta para a urgência do desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas, mas as perspectivas não são animadoras. A erradicação destas doenças é, nas suas palavras, uma miragem. Vírus como dengue e zika estão demasiado bem adaptados à coexistência com mosquitos e humanos. A evolução conjunta entre estes três elementos remonta aos primórdios da humanidade. Sem vacinas extremamente eficazes e medicamentos muito potentes, controlar estas doenças em larga escala é praticamente impossível.
O Instituto de Medicina Molecular está a trabalhar num projeto chamado NOVIRUSES2BRAIN, financiado pela Comissão Europeia, que procura desenvolver um medicamento capaz de atacar simultaneamente dengue e zika. O desafio é particular: o medicamento precisa de atravessar a barreira placentária para proteger fetos em desenvolvimento, e também deve chegar ao cérebro dos infetados para prevenir complicações neurológicas. É um trabalho urgente, porque à medida que o clima muda e as doenças se expandem para o norte europeu e para a América do Norte, a pressão para encontrar soluções vai aumentar. Como diz o ditado português, quem vai para o mar avia-se em terra. Quanto mais cedo nos prepararmos para as epidemias do futuro, melhor.
Citações Notáveis
A ideia de que são as propriedades do sangue de cada pessoa, nomeadamente a 'doçura', que determinam a atração dos mosquitos, não tem fundamento— Miguel Castanho, Instituto de Medicina Molecular
Infelizmente, a erradicação é uma miragem. Vírus como dengue e zika estão muito bem adaptados a conviver com mosquitos e humanos— Miguel Castanho, Instituto de Medicina Molecular
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Então o "sangue doce" é realmente apenas uma história que contamos a nós mesmos?
Completamente. É uma das coisas mais persistentes que as pessoas acreditam, mas não tem qualquer base científica. O que realmente atrai um mosquito é o seu odor natural — moléculas que o seu corpo liberta naturalmente.
E isso significa que algumas pessoas são simplesmente mais atraentes para os mosquitos do que outras?
Sim, um estudo recente de 2022 sugere exatamente isso. Nem todos somos igualmente atraentes. Tem a ver com a química do nosso corpo, não com o tipo de sangue que temos.
Mas se é só uma questão de odor, porque é que a dengue é tão perigosa? Não é apenas uma picada?
Porque a dengue não tem cura. Não existe um medicamento específico nem uma vacina eficaz em larga escala. Quando a malária apareceu, conseguimos desenvolver ferramentas para a combater. Com dengue, ainda não conseguimos. E mata mais de 20 mil pessoas por ano, muitas delas crianças.
Parece que o aquecimento global está a piorar tudo isto.
Está. Os mosquitos estão a expandir-se para territórios onde antes não existiam. Portugal já teve um surto de dengue na Madeira. Agora o mosquito-tigre está a colonizar o sul da Europa. É uma ameaça real e crescente.
Então podemos erradicar estas doenças?
Infelizmente, não. Estes vírus estão demasiado bem adaptados. Têm coexistido connosco há milhares de anos. Sem vacinas e medicamentos muito eficazes, o melhor que podemos fazer é controlar os surtos, não eliminar a ameaça.
E o que está a ser feito para encontrar essas soluções?
Há investigação em curso, como o projeto NOVIRUSES2BRAIN, que tenta desenvolver um medicamento que chegue ao cérebro — tanto do feto em desenvolvimento como do paciente infetado. Mas é um trabalho longo e complexo.