A proteção celular está lá, mesmo quando anticorpos caem
Em janeiro de 2022, Israel inaugurou uma nova fronteira na resposta global à Covid-19 ao aplicar uma quarta dose de vacina, provocando um debate científico que revelou tanto os avanços quanto os limites do conhecimento humano diante de um vírus em constante transformação. As evidências disponíveis mostravam que os anticorpos aumentavam, mas não impediam infecções pela ômicron — enquanto a proteção mais profunda, celular e silenciosa, permanecia de pé. No Brasil, a quarta dose foi aprovada apenas para imunossuprimidos, refletindo a cautela de especialistas que lembravam: antes de avançar, era preciso garantir que todos tivessem ao menos o reforço já recomendado.
- A variante ômicron escapou parcialmente dos anticorpos vacinais, multiplicando infecções mesmo em pessoas com três doses e pressionando governos a considerar um novo reforço.
- Estudos israelenses mostraram aumento de anticorpos com a quarta dose, mas não conseguiram demonstrar proteção contra infecção — deixando a ciência sem resposta definitiva.
- No Brasil, o anúncio precipitado do governador Doria sobre quarta dose para toda a população de São Paulo foi revertido dias depois, expondo a tensão entre política e evidência científica.
- Idosos vacinados com Coronavac em 2021 emergem como grupo de maior vulnerabilidade, com especialistas alertando para a urgência de uma quarta dose específica para esse público.
- A prioridade declarada pelo Ministério da Saúde era completar esquemas vacinais incompletos antes de ampliar reforços, enquanto o horizonte apontava para uma vacinação anual contra Covid-19, como já ocorre com a gripe.
Em janeiro de 2022, Israel tornou-se o primeiro país a aplicar uma quarta dose de vacina contra a Covid-19, acendendo um debate mundial sobre a necessidade de novos reforços. A questão chegou sem resposta fácil: as evidências científicas ainda eram insuficientes para recomendar a medida de forma ampla, e especialistas pediam cautela.
O pano de fundo era a ômicron, variante altamente transmissível que contornava parte da proteção dos anticorpos. Muitos vacinados com três doses se infectavam, embora as vacinas continuassem cumprindo o papel mais essencial — evitar casos graves, internações e mortes. Ainda assim, algumas hospitalizações entre trivacinados alimentaram o debate sobre um quarto reforço.
Os estudos israelenses trouxeram dados ambíguos: a quarta dose elevava os anticorpos, mas não impedia infecções pela ômicron. A imunologista Cristina Bonorino lembrava que a proteção celular de memória — menos visível, mas presente — mantinha os trivacinados protegidos. Para ela, a terceira dose era necessária; falar em quarta era prematuro.
No Brasil, o Ministério da Saúde aprovou a quarta dose apenas para imunossuprimidos acima de 12 anos. O anúncio do governador Doria de estender o reforço a toda a população paulista durou poucos dias antes de ser recuado. O ministro Queiroga foi direto: a prioridade era garantir o reforço para quem ainda não o havia recebido.
O cenário mais urgente envolvia idosos vacinados com Coronavac em 2021, cujos níveis de proteção já mostravam queda significativa. A infectologista Rosana Richtmann considerava urgente uma quarta dose para esse grupo. Julio Croda, da Fiocruz, reforçava a preocupação com os que receberam reforço em setembro ou outubro daquele ano.
Olhando adiante, especialistas projetavam que o Sars-CoV-2 se tornaria endêmico, com campanhas anuais de vacinação semelhantes às da gripe. Novas vacinas com proteção mais duradoura ou eficazes nas vias nasais estavam no horizonte. Até lá, o desafio imediato era convencer quem hesitava diante da perspectiva de reforços sucessivos — e garantir que ninguém ficasse para trás no esquema já recomendado.
Em janeiro de 2022, Israel se tornou o primeiro país a aplicar uma quarta dose de vacina contra a Covid-19, movimento que logo despertou interesse e dúvidas em governos e sistemas de saúde ao redor do mundo. Meses depois, a questão ainda permanecia em aberto: seria necessário um quarto reforço para a população em geral, ou apenas para grupos específicos? A resposta, segundo especialistas consultados na época, era clara — as evidências científicas ainda eram insuficientes para recomendar a quarta dose de forma irrestrita.
O contexto que levou à discussão era bem definido. A variante ômicron havia mudado o cenário da pandemia, mostrando-se muito mais transmissível e capaz de contornar parcialmente a proteção dos anticorpos gerados pela vacinação. Com isso, cresceu o número de pessoas infectadas mesmo após terem recebido as três doses — os chamados escapes vacinais. Porém, as vacinas continuavam cumprindo seu papel mais importante: proteger contra casos graves, internações e mortes. A maioria das pessoas vacinadas com reforço que se infectava apresentava sintomas leves. Ainda assim, alguns indivíduos com as três doses precisavam de hospitalização, o que levou autoridades de saúde a considerar a quarta aplicação.
Os estudos vindos de Israel, o país pioneiro nessa estratégia, ofereciam um quadro incompleto. Uma pesquisa com 274 profissionais de saúde que receberam três doses de vacinas de mRNA seguidas de uma quarta dose de Pfizer mostrou que havia aumento na quantidade de anticorpos no sangue após a quarta injeção, semelhante ao pico observado após a terceira. Mas havia um porém crucial: esse aumento de anticorpos não impediu infecções. Outro estudo israelense confirmou que a quarta dose não conseguiu evitar infecções pela ômicron, embora os pesquisadores levantassem a possibilidade de que um intervalo de apenas um mês entre doses pudesse ter sido insuficiente.
A ciência, porém, apontava para uma camada de proteção que não era tão visível nos números de anticorpos. As vacinas induzem uma resposta imunológica celular de memória, que responde rapidamente quando o vírus verdadeiro entra em contato com o organismo. Cristina Bonorino, imunologista e professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, explicava que essa proteção celular, embora não fosse medida facilmente, estava presente. Mesmo com o declínio de anticorpos neutralizantes, indivíduos vacinados com três doses permaneciam protegidos. Para ela, a terceira dose era necessária, mas falar sobre uma quarta ainda era prematuro.
No Brasil, o Ministério da Saúde havia aprovado a quarta dose apenas para pessoas imunossuprimidas acima de 12 anos — transplantados, pessoas vivendo com HIV, em tratamento para câncer, em hemodiálise ou usando medicamentos imunossupressores. Em fevereiro, o governador de São Paulo João Doria anunciou que toda a população do estado receberia a quarta dose, mas recuou dias depois, dizendo que o estado apenas avaliava a possibilidade. O ministro da Saúde Marcelo Queiroga foi claro: não havia previsão de quarta dose para a população geral, e a prioridade era garantir o reforço para quem ainda não o havia recebido.
Quanto à segurança, os dados disponíveis eram tranquilizadores. Os efeitos adversos observados com reforços eram leves, e esperava-se o mesmo com a quarta dose. No estudo israelense, 80% dos eventos adversos foram locais, desaparecendo em até dois dias. Renato Kfouri, pediatra e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, ressalvava que com mais de 11 bilhões de doses aplicadas globalmente, efeitos colaterais graves eram raríssimos, mas isso não significava que a quarta dose devesse ser aplicada sem dados de segurança adequados.
O cenário se tornava mais complexo quando se considerava a queda de eficácia ao longo do tempo. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos mostravam que a proteção do reforço caía após quatro meses, embora permanecesse alta em torno de 78%. No Reino Unido, pesquisas indicavam que a dose de reforço oferecia proteção 20 vezes maior contra hospitalização e morte em comparação com apenas duas doses, especialmente para maiores de 50 anos. Julio Croda, pesquisador da Fiocruz, observava que idosos brasileiros que receberam o reforço em setembro ou outubro de 2021 poderiam precisar de uma quarta dose justamente por essa diminuição de proteção. Havia ainda um grupo particularmente vulnerável: idosos vacinados com duas doses de Coronavac e um reforço também de Coronavac, para os quais não existiam dados de proteção após quatro meses. Rosana Richtmann, infectologista que integrava o comitê de assessoramento do governo federal para vacinas, considerava urgente uma quarta dose para esse grupo.
Olhando para o futuro, especialistas acreditavam que o Sars-CoV-2 se tornaria um vírus endêmico, como o influenza, possivelmente levando a campanhas anuais de vacinação. Raquel Stucchi, infectologista e professora da Unicamp, apontava que novidades viriam naquele ano, incluindo vacinas com duração mais longa de proteção ou maior eficácia em neutralizar o vírus nas vias nasais, como as vacinas em spray. Até lá, porém, a prioridade era acelerar a vacinação das pessoas com esquema incompleto e melhorar a comunicação sobre a importância dos reforços, já que muitos hesitavam diante da perspectiva de reforços sucessivos.
Citas Notables
Essa proteção celular, embora não seja medida, ela está lá, então mesmo quando há o decaimento de anticorpos neutralizantes, sabemos que o indivíduo vacinado com três doses está protegido— Cristina Bonorino, imunologista e professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre
Para esse grupo é urgente uma quarta dose, porque eles já têm maior risco e não receberam a proteção de reforço com a Pfizer— Rosana Richtmann, infectologista do comitê de assessoramento do governo federal para vacinas
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Israel foi o primeiro país a tentar a quarta dose se os estudos não mostravam que ela impedia infecção?
Israel estava em uma posição de urgência. Tinha uma população envelhecida, a ômicron estava circulando rapidamente, e alguns vacinados ainda precisavam de hospitalização. Eles decidiram agir antes de ter certeza absoluta.
Mas se os anticorpos aumentavam e as infecções continuavam, qual era o ponto?
Aí está o cerne da questão. Os anticorpos são apenas uma parte da história. O corpo tem essa memória imunológica celular que responde rápido quando encontra o vírus de verdade. Não é visível nos testes, mas está lá.
Então por que o Brasil não fez o mesmo que Israel?
O Brasil foi mais conservador. Sem evidências sólidas de que a quarta dose beneficiaria toda a população, o governo preferiu restringir para imunossuprimidos, que têm risco muito maior. Era uma escolha mais cautelosa.
E aqueles idosos que tomaram Coronavac três vezes? Por que eles eram diferentes?
Porque não havia dados sobre como essa combinação específica se comportava após quatro meses. Eles já tinham risco elevado naturalmente, e a incerteza sobre a proteção deles era maior. Era um vazio de informação que precisava ser preenchido.
A quarta dose vai ser para sempre, ou eventualmente voltamos ao normal?
Ninguém sabia ao certo. Mas os especialistas apostavam que o vírus viraria endêmico, como a gripe. Talvez uma dose anual no futuro. Mas isso dependia de vacinas melhores, que estavam em desenvolvimento.