Flávio promete a Trump mudanças no Pix, Mercosul e redes sociais se eleito

O Brasil busca maneiras de se desvincular das amarras do Mercosul
Flávio promete negociar acordos bilaterais com os EUA fora da estrutura do bloco regional.

Em um gesto que embaralha diplomacia e campanha eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro enviou ao governo americano um pedido de pausa nas tarifas contra o Brasil — e ofereceu, em troca, um esboço do país que pretende construir caso vença outubro. A carta revela como a política comercial entre as duas nações se tornou palco de disputas internas brasileiras, com um pré-candidato negociando concessões futuras enquanto o governo atual tenta convencer Washington pelos canais tradicionais. No horizonte, pairam questões mais profundas sobre soberania, alinhamentos geopolíticos e os limites entre oposição legítima e promessas feitas a potências estrangeiras.

  • Com tarifas retaliatórias de 25% sobre produtos brasileiros prestes a entrar em vigor, Flávio Bolsonaro age fora dos canais diplomáticos convencionais para tentar segurar o impacto antes das eleições de outubro.
  • A carta ao USTR transforma promessas de campanha em moeda de negociação internacional: restrições ao Pix, desonerações para empresas americanas de cartão de crédito e acordos bilaterais que contornariam o Mercosul.
  • O senador sugere que ministros do STF poderiam ser cassados por um Congresso mais forte da oposição, alinhando-se às críticas de Trump sobre censura de redes sociais — e escalando a tensão com o Judiciário brasileiro.
  • O governo Lula contesta as acusações americanas e negocia pelos canais oficiais, enquanto a Febraban defende o Pix como infraestrutura aberta e não discriminatória, contrariando a narrativa da investigação americana.
  • Flávio está inscrito para falar diretamente em audiência pública nos EUA em 6 de julho, tornando a disputa comercial também um palco de visibilidade para sua pré-candidatura.

Na quinta-feira, 2 de julho, o senador Flávio Bolsonaro enviou uma manifestação formal ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos pedindo que Washington aguarde as eleições brasileiras de outubro antes de aplicar novas tarifas sobre produtos do Brasil. O argumento central: um "tarifaço" agora beneficiaria Lula, que tem apresentado as retaliações americanas como ataques à soberania nacional.

A carta não foi apenas um pedido de pausa — foi também um cardápio de promessas. Caso eleito, Flávio disse que nomearia imediatamente um negociador comercial e adotaria medidas concretas: o Pix não seria conectado a sistemas de pagamento instantâneo não ocidentais, sinalizando recuo em qualquer aproximação com a China nesse campo; o setor de cartões de crédito seria desonerado, beneficiando grandes empresas americanas; e o Brasil buscaria acordos bilaterais com os EUA fora das "amarras do Mercosul". As promessas respondem diretamente às queixas do governo Trump, que acusa o Brasil de favorecer o Pix em detrimento de empresas financeiras americanas e de conceder tarifas preferenciais a México e Índia.

Flávio também se alinhou às críticas de Trump sobre redes sociais, reconhecendo que tribunais brasileiros emitiram decisões sigilosas para remoção de conteúdos políticos. Mas argumentou que tarifas não resolveriam o problema — a solução estaria no Legislativo, com a possível cassação de ministros do STF caso a oposição ganhe força após outubro. Sugeriu ainda sanções financeiras e restrições de visto como alternativa mais cirúrgica às tarifas amplas.

A manifestação omitiu episódios que complicam a narrativa do senador: sua própria solicitação de dezenas de milhões de reais do banco Master para um filme em homenagem ao pai, e indícios de que fraudes no INSS começaram ainda durante o governo Jair Bolsonaro, segundo a Polícia Federal.

Do outro lado, o governo Lula negocia pelos canais oficiais, com o chanceler Mauro Vieira argumentando que tarifas amplas imporiam custos reais à economia americana. A Febraban defendeu o Pix como infraestrutura aberta e não discriminatória. Flávio está inscrito para uma audiência pública nos EUA em 6 de julho — onde a disputa comercial se tornará também vitrine de campanha.

Na quinta-feira, 2 de julho, o senador Flávio Bolsonaro enviou uma manifestação formal ao governo americano com um pedido direto: aguarde as eleições brasileiras de outubro antes de aplicar novas tarifas contra produtos importados do Brasil. Na carta dirigida ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, ele solicitou uma suspensão de pelo menos 180 dias, argumentando que um novo "tarifaço" beneficiaria justamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem enquadrado as retaliações americanas como ataques à soberania nacional.

Flávio, pré-candidato do PL à presidência, ofereceu em troca uma série de promessas sobre como seu governo conduziria as relações comerciais com os Estados Unidos. Caso eleito, disse que nomearia imediatamente um negociador para conduzir negociações de boa-fé e implementaria medidas específicas para responder às acusações americanas de comércio desleal. O contexto dessa manifestação é uma investigação comercial iniciada em julho do ano anterior, que foi concluída no início de junho recomendando tarifas retaliatórias de 25% sobre produtos brasileiros. A investigação foi acionada após o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, articular junto à Casa Branca retaliações ao país na tentativa de evitar a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal — condenação que ocorreu em setembro por tentativa de golpe de estado.

Entre as medidas que Flávio prometeu estão restrições ao Pix: o sistema não seria conectado a meios de pagamento instantâneos internacionais não ocidentais, uma sinalização clara de que não avançaria em acordos com a China nesse campo. Ele também prometeu desonerar o setor de cartões de crédito, beneficiando grandes empresas americanas, e buscar acordos bilaterais de comércio com os EUA que libertassem o Brasil das "amarras do Mercosul". Essas promessas respondem diretamente às queixas americanas: o governo Trump acusa o Brasil de prejudicar injustamente empresas americanas ao favorecer o Pix, exigindo que instituições financeiras com mais de 500 mil contas o ofereçam sem taxas e o destaquem na tela principal dos aplicativos. O USTR também critica o Brasil por conceder tarifas mais baixas a México e Índia através de acordos comerciais preferenciais.

Flávio também se alinhou com as críticas de Trump sobre interferência de instituições brasileiras no funcionamento das redes sociais. Concordou que tribunais brasileiros emitiram decisões sigilosas determinando que empresas americanas removessem conteúdos políticos e suspendessem perfis, em alguns casos com alcance global. Porém, argumentou que tarifas não resolveriam o problema. A solução, segundo ele, estaria no Legislativo: ministros do Supremo Tribunal Federal poderiam ser cassados caso a oposição a Lula ganhasse força no Congresso após outubro. Ele mencionou que dezenas de pedidos de impeachment contra membros da Corte estão parados, mas poderiam avançar com mais força da oposição. Sugeriu ainda que sanções financeiras e restrições de visto contra autoridades responsáveis seriam uma "abordagem mais adequada" do que tarifas amplas.

Sobre corrupção, Flávio afirmou que a gestão de seu pai, de 2019 a 2022, transcorreu sem qualquer esquema de corrupção sistêmica de escala comparável aos escândalos do PT. Na manifestação, não mencionou que ele próprio solicitou ao banqueiro Daniel Vorcaro aportes de dezenas de milhões de reais do banco Master para a gravação de um filme em homenagem ao seu pai — 61 milhões de reais foram liberados até a liquidação do banco em novembro. Também não abordou que investigações da Polícia Federal indicam que fraudes no INSS começaram antes do governo atual, incluindo durante a gestão de Jair Bolsonaro.

O governo Lula, por sua vez, contesta as acusações americanas e tem feito rodadas de negociações com autoridades americanas para convencer a Casa Branca a não impor as novas tarifas. Também enviou uma manifestação ao USTR, assinada pelo ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, argumentando que "amplas tarifas sobre produtos brasileiros imporiam custos reais à economia dos EUA". A Federação Brasileira de Bancos defendeu o Pix em nota divulgada em junho, afirmando que a conclusão da investigação americana decorre de "informações incompletas acerca de seus objetivos e funcionamento", e que o sistema é uma infraestrutura de pagamento aberta e não discriminatória. Flávio está inscrito para participar de uma audiência pública nos EUA no dia 6 de julho, onde poderá apresentar seus argumentos diretamente.

A gestão do presidente Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, transcorreu sem qualquer esquema de corrupção sistêmica de escala comparável
— Flávio Bolsonaro, na manifestação ao governo Trump
O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos
— Federação Brasileira de Bancos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Flávio enviou essa manifestação agora, especificamente?

Model

Porque o prazo para manifestações sobre as tarifas vencia em 1º de julho. Ele precisava se colocar como uma alternativa viável antes que Trump tomasse a decisão final.

Inventor

Mas ele está pedindo para Trump esperar as eleições brasileiras. Por que Trump faria isso?

Model

Porque Flávio argumenta que tarifas agora beneficiariam Lula, fortalecendo a campanha dele. Se Trump quer um aliado no Brasil, faz sentido esperar para ver quem vence em outubro.

Inventor

E se Lula vencer mesmo assim?

Model

Então Flávio terá oferecido promessas que não poderá cumprir. Mas ele está apostando que a oposição ganha força, ou que pelo menos consegue influenciar a negociação.

Inventor

Essa coisa de cassar ministros do STF — é realista?

Model

Tecnicamente, sim. O Senado pode cassar ministros. Mas exige uma maioria qualificada e é politicamente custoso. Flávio está sinalizando que, com mais força no Congresso, isso seria possível.

Inventor

E o Pix? Por que os americanos se importam tanto?

Model

Porque é um sistema que funciona muito bem, é gratuito, e tira mercado de empresas americanas de pagamento. Para Trump, é concorrência desleal. Para Flávio, é uma inovação que não pode abandonar completamente, então promete apenas não conectá-lo à China.

Inventor

Ele está sendo honesto sobre corrupção?

Model

Não. Ele recebeu 61 milhões de reais de um banco para fazer um filme sobre seu pai, e não mencionou isso. Também ignorou que fraudes no INSS começaram antes do governo Lula.

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