A guerra é feita por seres humanos, portanto pode ser interrompida por seres humanos
Ury acredita que a paz mundial é possível, citando exemplos como o fim da Guerra Fria, apartheid na África do Sul e acordo de 50 anos com as FARC na Colômbia. O 'possibilista' propõe três características essenciais: curiosidade para entender perspectivas, criatividade para encontrar soluções e colaboração para atacar problemas conjuntamente.
- William Ury, 70 anos, cofundador do Programa de Negociação de Harvard
- Mediou acordo entre Israel e Egito em Camp David em 1978
- Trabalhou 6 anos como conselheiro do presidente colombiano Juan Manuel Santos durante negociações com as FARC
- Negociou acordo que encerrou disputa de 7 anos entre Abílio Diniz e Casino em 2013
O antropólogo William Ury, cofundador do Programa de Negociação de Harvard, lança livro defendendo que conflitos tidos como insolúveis podem ser transformados através de curiosidade, criatividade e colaboração.
William Ury chegou à Amazônia brasileira e ouviu uma canção que o marcou: não dê conselhos a quem não quer ouvir. Essa lição simples atravessa toda a sua carreira de cinco décadas mediando conflitos que o mundo considerava impossíveis de resolver. Aos 70 anos, o antropólogo americano cofundador do Programa de Negociação de Harvard lança agora o livro "Sim, É Possível – Sobreviver e Prosperar em uma Era de Conflitos" para explicar como transformar batalhas que parecem insolúveis em acordos que funcionam.
Ury não é um otimista ingênuo nem um pessimista resignado. Ele se chama "possibilista". Passou cinco décadas vendo com os próprios olhos acordos históricos acontecerem: estava em Camp David em 1978 quando Jimmy Carter conseguiu fazer o primeiro-ministro israelense Menachem Begin e o presidente egípcio Anwar Sadat assinarem um tratado de paz após décadas de guerras. Trabalhou seis anos como conselheiro do presidente colombiano Juan Manuel Santos durante as negociações secretas em Havana que levaram as FARC a entregar as armas após 50 anos de conflito armado. Viu a Guerra Fria terminar, o apartheid na África do Sul desaparecer, católicos e protestantes na Irlanda do Norte deixarem de se matar. O mundo está mais polarizado agora, diz, mas isso não o desanima. A guerra é feita por seres humanos, portanto pode ser interrompida por seres humanos.
O segredo, segundo Ury, repousa em três características que todo "possibilista" deve cultivar: curiosidade, criatividade e colaboração. Curiosidade para entender a perspectiva do outro lado, não como concordância, mas como compreensão genuína. Criatividade para encontrar soluções que ninguém havia imaginado. Colaboração para atacar o problema em conjunto em vez de atacar um ao outro. Quando entra em conflito, a tendência natural é reagir sem pensar, agir com raiva. O maior obstáculo não é a pessoa difícil do outro lado da mesa, seja um membro da família, um cliente, um partido político ou um país. O maior obstáculo é você mesmo. Por isso, a base de qualquer negociação bem-sucedida é dar um passo atrás e perguntar o que é realmente importante. É preciso chegar ao sim consigo mesmo antes de chegar lá com os outros.
Essa filosofia ganhou forma concreta em um caso que Ury conhece bem: a disputa entre Abílio Diniz e o grupo Casino, que consumiu a família durante anos. Em 2013, Ana Maria Diniz, filha de Abílio, procurou Ury em um seminário. Ele perguntou ao empresário o que ele queria: dinheiro, ações, eliminação de cláusulas de não-concorrência. Abílio respondeu com essas coisas. Ury perguntou novamente. Depois de um longo silêncio, Abílio disse: liberdade. Ele havia sido sequestrado anos antes e sentia-se prisioneiro naquele conflito. Ury voou para Paris, encontrou-se com David Rothschild, mentor de Jean-Charles Naouri, presidente do conselho do Casino. Em 45 minutos, esboçaram uma fórmula simples em um papel. Ury voltou ao Brasil, encontrou Abílio na terça-feira. Na sexta, os dois adversários estavam em um escritório de advocacia em São Paulo assinando um acordo que encerrava sete anos de disputa. Quando perguntou a Abílio como se sentia, ele respondeu: consegui tudo que queria, mas o mais importante foi ter recuperado minha vida.
Ury tem conexões profundas com o Brasil. Foi casado com uma brasileira, seus filhos falam português, considera o país seu segundo lar. Tornou-se amigo de Abílio Diniz através daquela negociação. Agora vê uma oportunidade histórica para o Brasil desempenhar um papel crucial em dois conflitos urgentes. Na Venezuela, com eleições cujo resultado é intensamente contestado e tensões crescentes, Ury acredita que o presidente Lula, que era amigo de Hugo Chávez, está melhor posicionado do que qualquer outro líder para mediar uma transição. Sugere até que Brasil e Vaticano trabalhem juntos nessa mediação, criando um processo legítimo e mutuamente aceito onde todos os lados possam se beneficiar, não apenas o vencedor.
Na Ucrânia, Ury trabalhou nos bastidores. Visitou o país duas vezes quando ainda havia oportunidades para evitar a guerra. Quando o conflito estourou, reuniu-se com representantes de Rússia, Ucrânia, China, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França para elaborar ideias de como apoiar negociações. Nos primeiros meses, havia uma chance real de encerrar a guerra. A Casa Branca pediu que escrevesse um memorando. A ideia era simples: Putin e Zelensky anunciariam conjuntamente o fim da guerra no dia 15 de maio, o Dia da Vitória que celebra a derrota dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Ambos poderiam reivindicar vitória. Não funcionou então, mas Ury vê uma nova janela nos próximos meses, com Biden direcionando atenção americana para trabalhar com russos, ucranianos, europeus e chineses.
O mundo está vivendo uma era de policrises e mudanças aceleradas, diz Ury. Inteligência artificial, aquecimento global, polarização crescente. É como estar no mar com ondas turbulentas. Precisamos aprender a surfar. E para isso, precisamos lidar com as diferenças através de mais diálogo e escuta. A empatia é a vacina contra intolerância religiosa e polarização. A maneira mais simples de ser empático é ouvir na perspectiva da outra parte. Isso comunica respeito, a concessão mais barata a se fazer. Não custa nada a você e significa tudo para a outra parte. Nessa era de conflitos, o possível é o novo sim.
Citas Notables
Consegui tudo que queria, mas o mais importante foi ter recuperado minha vida— Abílio Diniz, após acordo com Casino
A guerra é feita por seres humanos, então pode ser interrompida por nós— William Ury, respondendo sobre possibilidade de paz mundial
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
O senhor passou 50 anos vendo conflitos que pareciam impossíveis se transformarem em acordos. O que mudou em você nesse tempo?
Aprendi que a mudança é sempre possível, mas nunca é rápida. Quando comecei, havia a Guerra Fria. Todos pensavam que o Muro de Berlim seria eterno. Mas vi pessoas comuns, líderes, comunidades inteiras encontrarem caminhos que ninguém imaginava. Isso me ensinou paciência e esperança ao mesmo tempo.
Mas como alguém consegue ser empático com um adversário que o odeia?
Empatia não é concordância. Não é gostar da pessoa. É ouvir genuinamente a perspectiva dela, entender o que ela realmente quer além das posições que anuncia. Abílio Diniz queria dinheiro e ações, mas o que ele realmente queria era liberdade. Quando você descobre isso, tudo muda.
E se a outra parte não quer ouvir? Se está fechada?
Então você não fala. Aprendi isso em uma canção na Amazônia: não dê conselhos a quem não quer ouvir. Às vezes, o papel de um mediador é criar o espaço onde a escuta se torna possível. É trazer um terceiro lado que ambos confiam.
O senhor acredita que a paz mundial é realmente possível?
Perguntei aos anciãos do povo mais pacífico do planeta, que vive na Malásia, por que eles não entram em guerra. Disseram que não se pode controlar tsunamis ou terremotos. Mas a guerra é feita por seres humanos. Portanto, pode ser interrompida por seres humanos. Isso é a resposta.
E o Brasil, qual é o seu papel agora?
O Brasil está melhor posicionado do que qualquer outro país para mediar na Venezuela. O presidente Lula era amigo de Chávez. Há uma oportunidade histórica para ele ajudar uma transição onde todos se beneficiem, não apenas o vencedor. É um momento raro.