O planeta arrefece enquanto a Terra se mexe: sismos, convecção e resiliência

O sismo de magnitude 7.6 na Venezuela causou destruição massiva em Caracas e zonas urbanas densamente povoadas entre montanha e mar, com comparação ao duplo sísmico Turquia-Síria que matou 60 mil pessoas.
A segurança custa muito caro, e só um país rico consegue pagá-la.
Reflexão sobre por que a Venezuela, apesar de regulamentação antissísmica exigente, permanece vulnerável a terramotos devastadores.

No norte da Venezuela, onde a Placa das Caraíbas desliza silenciosamente há mais de um século, a Terra libertou de uma vez toda a tensão acumulada num sismo de magnitude 7.6 que sacudiu Caracas e as suas zonas urbanas densamente habitadas. O acontecimento não é apenas uma tragédia geológica — é também o retrato de uma sociedade que conhece o risco mas não tem meios para se defender dele. A ciência explica o tremor; a economia explica a devastação.

  • Um sismo de magnitude 7.6 — possivelmente dois em rápida sucessão, separados por 39 segundos — rompeu praticamente toda a espessura da Placa das Caraíbas sob o norte da Venezuela, concentrando energia destrutiva sobre Caracas.
  • A população urbana está comprimida entre uma cordilheira de 2700 metros e o mar, numa zona que já viu 20 mil mortos em deslizamentos de terra há menos de três décadas — a geografia não perdoa.
  • A Venezuela possui regulamentação antissísmica desde 2001, mas o colapso económico tornou-a letra morta: dos 300 sismógrafos existentes, apenas 4 ou 5 funcionavam antes do sismo.
  • Com um PIB per capita de cerca de 4 mil dólares anuais e hiperinflação histórica, o país não tem capacidade de fiscalizar construções nem de investir nos sistemas de alerta e proteção que a ciência recomenda.
  • A comparação com o duplo sísmico da Turquia e Síria — que matou 60 mil pessoas — paira sobre uma população igualmente densa mas ainda mais vulnerável economicamente.

A Terra arrefece enquanto se move. No interior do planeta, material quente sobe nas dorsais oceânicas e material frio desce nas zonas de subducção — um processo de convecção que move continentes e liberta energia em forma de terramotos. Foi este mecanismo que sacudiu a Venezuela há pouco, num sismo que não surpreendeu a geologia, mas que encontrou um país sem defesas.

A Placa das Caraíbas desliza lateralmente em relação à América do Sul a 2 centímetros por ano. No norte da Venezuela, essa tensão acumulou-se durante mais de um século desde o último grande sismo, em 1900. Quando a rutura aconteceu, foi quase total — toda a espessura da placa cedeu, num movimento de cerca de dois metros ao longo de uma falha que atravessa a zona urbana de Caracas. O sismo atingiu magnitude 7.6, possivelmente como dois eventos em rápida sucessão separados por 39 segundos e 100 quilómetros, concentrando ainda mais energia sobre a capital.

A Venezuela deveria estar preparada. Tem regulamentação antissísmica exigente desde 2001. Mas é também um país em colapso: apesar de deter quase 20% das reservas mundiais de petróleo, o seu PIB per capita ronda os 4 mil dólares anuais. A hiperinflação e a degradação institucional tornaram as normas de construção letra morta. Dos 300 sismógrafos existentes, apenas 4 ou 5 estavam operacionais. A ciência sabe onde estão os riscos; falta a riqueza para os enfrentar.

A geografia agrava tudo. A população urbana está espremida entre uma cordilheira de 2700 metros e o mar — a mesma zona que há 27 anos viu 20 mil pessoas morrer em deslizamentos de terra. O contraste com o Japão é revelador: numa das regiões mais sísmicas do mundo, a qualidade construtiva, a educação pública e os sistemas de alerta precoce salvam vidas que noutros países se perdem.

O futuro da resiliência sísmica passa por melhorias graduais e mensuráveis — classificações de edifícios semelhantes às de eficiência energética, onde cada passo conta. Não é possível isolar sismicamente todas as cidades de uma vez. Mas enquanto a Terra continua a mover-se e a libertar energia em zonas de risco bem conhecidas, a única defesa real é a qualidade daquilo que construímos sobre ela.

A Terra arrefece enquanto se mexe. Parece um paradoxo num planeta que sufoca de calor, mas é exatamente isto que explica o sismo devastador que sacudiu a Venezuela há pouco. Não estamos a falar do calor que sentimos à superfície, mas do interior do planeta, onde o material quente sobe nas dorsais oceânicas e o material frio desce nas zonas de subducção, num processo de convecção que move continentes e liberta energia em forma de terramotos.

A Venezuela situa-se numa zona de risco sísmico extremo. A Placa das Caraíbas, uma placa oceânica anormalmente espessa com cerca de 20 quilómetros de profundidade, desliza lateralmente em relação à América do Sul a uma velocidade de 2 centímetros por ano. Nas Caraíbas, a placa mergulha sob a América do Sul, formando aquele rosário de ilhas paradisíacas. Mas no norte da Venezuela, ela apenas desliza. Durante mais de um século, essa tensão acumulou-se. O último grande sismo na região tinha ocorrido em 1900. Cento e vinte anos depois, toda essa deformação foi libertada num movimento de aproximadamente dois metros, concentrado numa falha que atravessa a zona urbana de Caracas.

O sismo atingiu magnitude 7.6, uma magnitude muito elevada. O que torna este acontecimento particularmente complexo é que pode ter sido, na verdade, dois sismos em rápida sucessão — separados por apenas 39 segundos e cerca de 100 quilómetros de distância. A rutura inicial desencadeou uma segunda rutura numa zona adjacente, concentrando ainda mais energia sobre Caracas. Alguns investigadores, como o Instituto Geofísico e Vulcanológico Italiano, interpretam o acontecimento como um único sismo com uma zona de rutura de 210 quilómetros. A distinção importa menos do que o facto de que a rutura foi praticamente completa — toda a espessura da placa das Caraíbas rompeu, de cima a baixo.

Mas a Venezuela é um país que deveria estar preparado para isto. Tem regulamentação antissísmica exigente desde 2001, atualizada após o grande sismo de 1967. O problema é que a Venezuela é também um país em colapso económico. Apesar de possuir cerca de 300 mil milhões de barris de reservas provadas de petróleo bruto — quase 20% das reservas mundiais — o seu PIB per capita caiu para cerca de 4 mil dólares anuais, um sexto do que um português ganha. A hiperinflação histórica, a degradação institucional e a pobreza extrema significam que as normas de construção, por muito exigentes que sejam no papel, raramente são fiscalizadas ou cumpridas. Dos 300 sismógrafos que existiam no país, apenas 4 ou 5 estavam funcionais antes do sismo. Não há recursos para implementar as medidas de proteção que a ciência recomenda.

A geografia agrava tudo isto. A população urbana está espremida numa zona muito estreita entre uma cordilheira que atinge 2700 metros de altitude e o mar. É uma zona que já conheceu desastres naturais catastróficos — há 27 anos, chuvas torrenciais provocaram deslizamentos de terra que mataram 20 mil pessoas no estado de Vargas. Agora, um sismo de magnitude comparável ao duplo sísmico da Turquia e Síria, que matou 60 mil pessoas, atingiu uma população igualmente densa mas muito mais vulnerável.

O que distingue a resiliência sísmica não é a sorte geológica, mas a riqueza nacional e a qualidade construtiva. O Japão demonstra isto: apesar de estar numa das zonas mais sísmicas do planeta, os seus edifícios de aço, a sua educação pública sobre segurança sísmica e a sua capacidade de implementar sistemas de alerta precoce significam que grandes terramotos não provocam o número de mortes que provocam noutros lugares. A Islândia, apesar de ser uma ilha pequena com vulcões ativos, tem uma população de baixa densidade, construção de madeira de alta qualidade e educação muito elevada — uma sociedade resiliente. A Venezuela tem o oposto: densidade urbana extrema, construção frequentemente deficiente, e uma economia que não consegue investir em proteção.

O futuro da resiliência sísmica passa por classificações de edifícios semelhantes às que existem para eficiência energética — A, B, C, D, E — de modo que cada melhoria, por pequena que seja, seja vista como progresso. Não é possível isolar sismicamente todos os edifícios de Lisboa ou Caracas. Mas é possível, gradualmente, melhorar a qualidade construtiva. O perfeito é inimigo do bom. E enquanto a Terra continua a arrefecer-se, movendo-se, libertando energia em zonas de risco conhecidas, a única defesa real que temos é a qualidade daquilo que construímos.

A Terra arrefece da mesma maneira como nós arrefecemos uma sopa quando agarramos numa colher e damos voltas à sopa para ela arrefecer. E a Terra para arrefecer, anda.
— Miguel Miranda, geofísico
Só consegue ter uma ação antissísmica significativa um país rico, porque a segurança custa muito caro.
— Miguel Miranda, geofísico
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Quando dizes que a Terra arrefece, parece contra-intuitivo. Estamos a falar de um planeta que está a aquecer por causa das emissões de carbono.

Model

Exatamente. Mas estamos a falar de duas coisas completamente diferentes. A atmosfera está a aquecer. O interior da Terra está a arrefecer, e tem estado a arrefecer há biliões de anos. É um processo de convecção — o material quente sobe, o material frio desce, e isso move tudo.

Inventor

E esse movimento é o que causa os sismos?

Model

É o que causa a maioria dos sismos grandes, sim. A energia envolvida nesse processo de arrefecimento interior é tão vasta que nenhum outro mecanismo — nem o aquecimento atmosférico, nem as variações do nível do mar — consegue gerar sismos de magnitude comparável.

Inventor

Mas então, se sabemos que isto vai acontecer, porque é que não conseguimos prever os sismos?

Model

Porque sabemos onde podem acontecer — nas fronteiras de placas — mas não sabemos quando. É como um processo de Poisson: a média é constante, mas cada acontecimento é independente. Podes ter um sismo num ano e depois nada durante 200 anos.

Inventor

A Venezuela tinha regulamentação antissísmica desde 2001. Porque é que isso não ajudou?

Model

Porque regulamentação sem fiscalização e sem recursos é apenas papel. Um país rico pode impor normas e verificar se são cumpridas. Um país pobre não consegue. É tão simples quanto isto.

Inventor

Então a solução é ser rico?

Model

A solução é ter capacidade de investimento em qualidade construtiva. Mas também é ser realista: não podes isolar sismicamente toda uma cidade. O que podes fazer é melhorar gradualmente, edifício a edifício, zona a zona. Progresso constante, não perfeição.

Inventor

E se o próximo sismo for ainda maior?

Model

Então teremos mais destruição. É por isso que a resiliência importa tanto. Não podes evitar o sismo. Mas podes fazer com que as pessoas sobrevivam a ele.

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