O legado destrutivo de Jack Welch que moldou executivos brasileiros e o capitalismo moderno

Demissões em massa promovidas por Welch e seus seguidores causaram desemprego estrutural, transferência de produção para o exterior, encolhimento da classe média americana e aumento da pobreza em comunidades inteiras.
Transformou a gestão em um jogo de soma zero
Descrição de como Jack Welch redefiniu a cultura corporativa americana priorizando ganhos para acionistas acima de tudo.

Jack Welch transformou a GE em empresa mais valiosa do mundo, mas sua metodologia de demissões em massa e financeirização gerou aumento exponencial da desigualdade salarial nos EUA. O trio brasileiro Lemann, Telles e Sicupira seguem modelo Welch na 3G Capital, replicando práticas de capitalismo extrativista que concentram riqueza em poucos, conforme evidenciado no escândalo das Americanas.

  • Jack Welch transformou a GE de 14 bilhões para 600 bilhões de dólares em valor de mercado entre 1981 e 2001
  • Diferença salarial CEO-trabalhador saltou de 50 vezes para 368 vezes durante seus 20 anos na GE
  • Lemann, Telles e Sicupira (3G Capital) seguem modelo Welch e estão envolvidos no escândalo das Americanas
  • Gastou 130 bilhões de dólares em mil aquisições durante sua gestão

Novo livro critica o legado de Jack Welch, CEO da GE que revolucionou a gestão corporativa americana priorizando lucros aos acionistas, influenciando executivos brasileiros e aumentando desigualdade global.

Jack Welch morreu em 2020, mas sua sombra ainda paira sobre o capitalismo global. O executivo que transformou a General Electric numa máquina de criar riqueza — saltando de 14 bilhões de dólares em valor de mercado em 1981 para 600 bilhões em 2001 — deixou um legado que vai muito além dos balanços de uma empresa. Ele redefiniu o que significa ser um CEO, estabelecendo um modelo de gestão que prioriza lucros aos acionistas acima de tudo mais, e essa filosofia moldou gerações de líderes empresariais em todo o mundo, incluindo três brasileiros que se tornaram bilionários: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, sócios da 3G Capital e principais acionistas da Americanas.

Um novo livro do jornalista David Gelles, do New York Times, intitulado "The Man Who Broke Capitalism" (O Homem Que Quebrou o Capitalismo), desconstrói o mito do guru de gestão. Gelles argumenta que Welch não apenas mudou a face do mundo corporativo americano — ele o deformou. Durante seus 20 anos à frente da GE, o executivo implementou uma metodologia deliberada baseada em três táticas principais: demissões em massa, aquisições frenéticas e financeirização da companhia. Ele adotava um sistema de ranqueamento de colaboradores conhecido como 20-70-10, no qual os 20% melhores recebiam bônus, enquanto os 10% mais mal avaliados eram eliminados. Essa política foi posteriormente adotada pela Ambev, a cervejaria brasileira do trio.

Os números revelam a escala da transformação. Em 20 anos, Welch gastou 130 bilhões de dólares em mil aquisições. Transformou o braço financeiro da GE, a GE Capital, na principal fonte de lucro da empresa. E enquanto as ações subiam e os executivos ficavam ricos, a desigualdade salarial explodia. Em 1980, um CEO de uma grande empresa americana ganhava em média 1,85 milhão de dólares por ano. Em 2000, 21,5 milhões. A diferença entre o salário de um CEO e do trabalhador médio era de 50 vezes quando Welch assumiu a GE. Quando se aposentou, essa proporção havia saltado para 368 vezes.

O que torna essa história particularmente relevante para o Brasil é a influência direta que Welch exerceu sobre o trio de bilionários brasileiros. Lemann, Telles e Sicupira são leitores de longa data dos livros de Welch e admiradores de suas metodologias. Eles replicaram seu modelo em suas próprias empresas, praticando o que Gelles chama de "capitalismo extrativista" — um sistema em que a maior parte da riqueza gerada fica concentrada nas mãos de um grupo muito seleto. O escândalo das Americanas, envolvendo alegações de fraude contábil, não é isolado. Segundo Gelles, esse tipo de comportamento potencialmente duvidoso acompanha toda a carreira do trio, de uma companhia para outra, frequentemente operando no limite da legalidade.

Mas o legado destrutivo de Welch vai além dos números e dos escândalos corporativos. Suas políticas de demissões em massa não eram apenas uma estratégia de redução de custos — elas representavam uma mudança fundamental na forma como as empresas americanas viam seus funcionários e suas comunidades. Cidades inteiras perderam sua principal atividade econômica quando Welch transferiu a produção para o exterior em busca de lucros maiores. A classe média americana começou a encolher. Uma porção cada vez maior de pessoas passou a lutar para sobreviver na economia mais rica do mundo.

Gelles argumenta que Welch não era simplesmente um produto de seu tempo, apesar das teorias de Milton Friedman sobre maximização de valor aos acionistas que dominavam os anos 1980. Antes de Welch, em nenhum lugar do mundo uma companhia lucrativa havia promovido demissões em massa apenas para se manter lucrativa. Ele transformou a gestão corporativa em um jogo de soma zero, onde ganhos para alguns significavam perdas para muitos. E enquanto isso acontecia, Welch manteve uma imagem pública positiva, conseguindo ser popular por décadas, mesmo enquanto fazia coisas ruins.

Pouco depois de Welch se aposentar, a GE ruiu como um castelo de cartas. Seu braço financeiro foi duramente afetado pela crise do subprime em 2008. Mas o dano já estava feito. A metodologia Welch havia se propagado por toda a comunidade empresarial global. Gelles identificou cerca de 20 a 30 pessoas que trabalharam diretamente com Welch e depois lideraram outras grandes companhias. Inúmeras outras foram influenciadas por sua cultura. Hoje, enquanto CEOs continuam tomando decisões que colocam lucros acima de pessoas, comunidades e meio ambiente, fazendo malabarismos financeiros para tornar seus ganhos melhores do que realmente são, o fantasma de Jack Welch segue vivo no capitalismo contemporâneo.

Sem Jack Welch, as coisas seriam diferentes — e, eu diria, melhores
— David Gelles, autor de 'The Man Who Broke Capitalism'
Ele transformou a gestão em um jogo de soma zero onde ganhos para alguns significavam perdas para muitos
— David Gelles, sobre a metodologia de Jack Welch
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Se Jack Welch tivesse feito escolhas diferentes, o capitalismo seria radicalmente diferente?

Model

Absolutamente. Ele foi uma figura singular que mudou fundamentalmente as expectativas no mundo corporativo. Sem ele, as coisas seriam diferentes — e, eu diria, melhores.

Inventor

Mas ele não estava apenas respondendo às pressões econômicas da época? Milton Friedman e a maximização de valor aos acionistas não eram ideias do ar?

Model

Sim, havia mudanças econômicas nos anos 1980. Mas a questão é como você responde aos desafios. Antes de Welch, nenhuma companhia lucrativa havia promovido demissões em massa apenas para se manter lucrativa. Ele não foi produto do tempo — ele criou o tempo.

Inventor

O que você acha que o motivava? Ganância pura?

Model

Havia o componente de querer enriquecer, claro. Mas ele era extremamente competitivo. O problema é que não era um jogo para quem estava perdendo o emprego. Não havia nele nenhum sentido de responsabilidade pelo bem comum. Era uma pessoa extremamente individualista, auto centrada.

Inventor

E o trio brasileiro? Eles simplesmente copiaram o modelo?

Model

Eles são fãs de longa data e leitores dos livros de Welch. Esse tipo de alegações e escândalos acompanha toda a carreira deles. Praticam um capitalismo extrativista em que a riqueza fica concentrada em um grupo muito seleto.

Inventor

É possível sair desse ciclo? Como se muda uma cultura corporativa tão enraizada?

Model

Não é fácil. Algumas empresas pararam de dar indicadores trimestrais, como a Unilever. Estão surgindo modelos alternativos como a LTSE, uma bolsa de valores de longo prazo. Mas desfazer os danos será um projeto de gerações.

Inventor

Então precisamos de regulamentação?

Model

Vai exigir regulamentação e também líderes corporativos que entendam que maximizar lucro não é a melhor maneira de cuidar das pessoas. Vai demorar.

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