El Niño ativo e potencialmente extremo: cientistas temem repetição de desastre de 1877

Referência histórica ao El Niño de 1877-1878 que matou até 50 milhões de pessoas através de fomes, secas e doenças epidémicas em múltiplos continentes.
A atmosfera e os oceanos estão substancialmente mais quentes
Cientista alerta que extremos climáticos podem ser mais intensos num planeta já aquecido.

O El Niño está oficialmente ativo no Pacífico, e a sua chegada antecipada e acelerada leva a NOAA a estimar uma probabilidade de 63% de se tornar 'muito forte' entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A sombra que paira sobre este fenómeno é histórica: em 1877, um episódio de intensidade semelhante desencadeou secas, fomes e epidemias que ceifaram até 50 milhões de vidas em vários continentes. O que distingue este momento não é apenas o fenómeno em si, mas o planeta em que ele agora se manifesta — oceanos mais quentes, atmosfera mais energética, e sociedades mais vulneráveis a choques simultâneos.

  • O El Niño emergiu mais cedo e mais rapidamente do que o esperado, com temperaturas do Pacífico oriental já 2,1°C acima da média — um sinal típico de episódios fortes em formação.
  • Cientistas evocam o El Niño de 1877-1878, quando falhas de monções, secas em múltiplos continentes e surtos de doenças mataram até 4% da população mundial da época.
  • Num planeta já aquecido, os extremos associados ao fenómeno — secas prolongadas, chuvas intensas, colapsos agrícolas — podem ultrapassar a capacidade atual de resposta humanitária e logística.
  • Os impactos regionais estão a ser mapeados: o sul dos EUA pode tornar-se mais húmido, enquanto o noroeste enfrenta agravamento da seca, e a época de furacões no Atlântico deverá ser abaixo da média — mas uma única tempestade pode bastar para causar devastação.
  • A comunidade científica não prevê uma repetição automática de 1877, mas alerta que o contexto climático atual amplifica os riscos de qualquer episódio de grande intensidade.

O El Niño está ativo. A confirmação veio da NOAA, e os dados que a acompanham são suficientemente sérios para manter os climatologistas em alerta: há uma probabilidade de 63% de o fenómeno se tornar 'muito forte' entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, potencialmente entre os maiores registados desde 1950. O que surpreendeu os especialistas foi a velocidade — este episódio emergiu muito mais cedo do que a maioria, com temperaturas no Pacífico oriental já 2,1°C acima da média, um padrão associado a episódios fortes em desenvolvimento.

A referência histórica que estrutura a preocupação científica é o El Niño de 1877-1878. Uma subida de cerca de 2,7°C na temperatura da superfície do mar desencadeou uma cascata de perturbações em vários continentes: monções falhadas na Índia, secas devastadoras em África, no Sudeste Asiático, na Austrália e no Brasil, colapsos agrícolas no norte da China. O verdadeiro custo veio depois, quando populações já fragilizadas pela escassez foram atingidas por surtos de malária, cólera, peste e varíola. Estima-se que a combinação de fome e doença tenha matado até 50 milhões de pessoas — cerca de 4% da população mundial da época.

O mundo atual dispõe de ferramentas que não existiam em 1877: previsão meteorológica sofisticada, redes humanitárias globais, comércio internacional. Mas também é mais populoso, mais interdependente, e parte de uma base climática já mais quente. Deepti Singh, da Washington State University, alertou que secas simultâneas e prolongadas semelhantes às da década de 1870 podem voltar a acontecer — e que a atmosfera e os oceanos substancialmente mais quentes de hoje podem tornar os extremos ainda mais intensos.

Os impactos regionais variam: nos EUA, o sul tende a ficar mais fresco e húmido, enquanto o noroeste pode ver a seca agravar-se. A época de furacões no Atlântico deverá ser abaixo da média, mas os especialistas recordam que basta uma tempestade atingir terra para provocar devastação — como o furacão Andrew em 1992, formado durante um verão de El Niño. O fenómeno natural sempre fez parte do sistema climático. A novidade é o contexto em que agora se desenvolve, e é esse contexto que transforma a sua chegada numa notícia que vai muito além da meteorologia.

O El Niño chegou. Não é uma previsão distante ou uma possibilidade remota — a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos confirmou que as condições estão presentes agora, e tudo aponta para que se intensifiquem significativamente durante o inverno do hemisfério norte que se aproxima. O que torna isto preocupante não é apenas o fenómeno em si, mas o espectro que o acompanha: cientistas temem que este episódio possa aproximar-se dos níveis de intensidade registados em 1877, quando secas, falhas agrícolas e doenças mataram mais de 50 milhões de pessoas em várias regiões do mundo.

O El Niño ocorre quando as águas do Pacífico aquecem acima do normal, alterando padrões meteorológicos globais durante meses. Neste momento, as temperaturas da superfície do mar na zona monitorizada estão pelo menos 0,5 graus Celsius acima da média, e deverão manter-se assim nos próximos meses. Mas o verdadeiro ponto de inflexão chega quando a anomalia térmica sobe para 2 graus Celsius ou mais — o que caracteriza um episódio "forte" ou "super". A NOAA estima agora uma probabilidade de 63% de o fenómeno se tornar "muito forte" entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, potencialmente figurando entre os maiores desde 1950.

A velocidade com que isto se desenvolveu surpreendeu até aos especialistas. Chad Merrill, meteorologista sénior da AccuWeather, observou que a maioria dos episódios de El Niño começa no outono, mas este emergiu "muito mais cedo e mais depressa do que o esperado". Na região central do Pacífico, a temperatura estava 0,7 graus Celsius acima do normal. No Pacífico oriental, as águas já ultrapassavam 2,1 graus Celsius acima da média — um padrão típico de episódios fortes em desenvolvimento.

A referência histórica que mantém os climatologistas acordados é o El Niño de 1877-1878. Nessa altura, uma subida de aproximadamente 2,7 graus Celsius na temperatura da superfície do mar desencadeou perturbações em múltiplos continentes. Partes de África, do Sudeste Asiático e da Austrália enfrentaram secas graves e incêndios florestais devastadores. As monções falharam na Índia. No norte da China, a seca provocou colapsos nas colheitas. No Brasil, rios secaram e a agricultura foi duramente atingida. Mas o verdadeiro custo veio depois: populações já fragilizadas pela escassez alimentar foram atingidas por surtos de malária, peste, disenteria, varíola e cólera. Alguns investigadores estimam que a combinação de fome e doenças tenha matado até 4% da população mundial da época.

O mundo de hoje é diferente em muitos aspectos. Temos capacidade de previsão mais sofisticada, redes humanitárias globais, comércio internacional e sistemas de saúde mais desenvolvidos. Mas também somos mais populosos, mais interdependentes, e estamos a aquecer a partir de uma base climática já mais elevada. Deepti Singh, professora associada na Washington State University, alertou que secas simultâneas e prolongadas, semelhantes às da década de 1870, podem voltar a acontecer. A diferença crucial, disse, é que "a atmosfera e os oceanos estão substancialmente mais quentes" do que nessa época, o que pode tornar os extremos associados ainda mais intensos.

Os impactos regionais já estão a ser mapeados. Nos Estados Unidos, o El Niño costuma trazer temperaturas acima do normal à metade norte do país e a partes do Alasca, enquanto o sul, especialmente entre o Texas e o Sudeste, tende a ser mais fresco e húmido. O fenómeno altera a trajetória das tempestades, aumentando a probabilidade de chuva acima da média na Califórnia, no Sudoeste, na costa do Golfo e em grande parte do Sudeste. Em contraste, zonas das Montanhas Rochosas do norte, do vale do Ohio, dos Grandes Lagos e do vale do Mississippi podem enfrentar condições mais secas. No noroeste dos Estados Unidos e nas Montanhas Rochosas setentrionais, os especialistas temem agravamento da seca já existente.

O El Niño também afecta a época de furacões no Atlântico. Em geral, o fenómeno pode reduzir a formação de ciclones tropicais mais intensos, ao alterar os ventos em altitude. A AccuWeather prevê agora uma época abaixo da média, com menos tempestades nomeadas e menos furacões de grande intensidade. Mas Paul Pastelok, responsável por previsões de longo prazo da AccuWeather, recorda que basta uma tempestade atingir terra para provocar devastação. O furacão Andrew, que chegou ao sul da Florida como categoria 5 em 1992 e causou 65 mortes a nível global, formou-se durante um verão de El Niño.

A chegada do El Niño não significa, por si só, uma repetição automática de 1877. Cada episódio é diferente e os impactos dependem da intensidade, da duração, da interação com outros padrões atmosféricos e da vulnerabilidade de cada região. Mas o alerta dos cientistas é claro: num planeta já aquecido, um El Niño muito forte pode empurrar temperaturas, secas, chuvas extremas e falhas agrícolas para níveis mais difíceis de gerir. O fenómeno natural sempre fez parte do sistema climático. A novidade é o contexto em que agora se desenvolve — oceanos mais quentes, atmosfera mais carregada de energia, e sociedades mais expostas a choques simultâneos. É isso que transforma a chegada do El Niño numa notícia que vai muito além da meteorologia.

A maioria dos episódios de El Niño começa no outono, mas este desenvolvimento surge muito mais cedo e mais depressa do que o esperado
— Chad Merrill, meteorologista sénior da AccuWeather
A atmosfera e os oceanos estão substancialmente mais quentes do que nessa época, o que pode tornar os extremos associados ainda mais intensos
— Deepti Singh, professora associada na Washington State University
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Porque é que os cientistas estão tão preocupados com este El Niño em particular?

Model

Porque se intensificar como as previsões sugerem, poderá aproximar-se dos níveis de 1877, quando matou dezenas de milhões de pessoas. Mas desta vez, o planeta já está mais quente, o que pode amplificar os extremos.

Inventor

E se não se intensificar tanto? Se ficar num nível "forte" mas não "muito forte"?

Model

Mesmo assim, um El Niño forte altera padrões de chuva e seca em múltiplas regiões simultaneamente. O risco é que várias crises aconteçam ao mesmo tempo — secas na Ásia, chuvas extremas noutro lado, falhas agrícolas em vários continentes.

Inventor

Os Estados Unidos têm sistemas de previsão e infraestrutura. Porque é que isto é uma ameaça para um país desenvolvido?

Model

Porque mesmo com aviso prévio, não se pode evitar uma seca prolongada ou uma tempestade devastadora. O furacão Andrew formou-se durante um El Niño e matou 65 pessoas. A infraestrutura ajuda, mas não elimina o risco.

Inventor

O que torna este El Niño diferente de outros que já ocorreram?

Model

Desenvolveu-se muito mais cedo e rapidamente do que o normal. E está a acontecer num planeta que já está aquecido — os oceanos e a atmosfera têm mais energia, o que pode intensificar os extremos associados.

Inventor

Se 1877 matou 50 milhões de pessoas, porque é que não estamos a ver previsões igualmente sombrias agora?

Model

Porque o mundo mudou. Temos comércio global, sistemas de saúde, redes humanitárias. Mas também somos mais interdependentes — uma falha agrícola numa região afecta preços noutras. E há mais gente. O contexto é diferente, mas o risco é real.

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