O cerco ao pluralismo: autoritarismo identitário substitui rigor científico nas universidades

Docentes e estudantes enfrentam vandalismo de veículos, ameaças de morte, pichações, suspensões acadêmicas e transferências forçadas de cursos devido a perseguição por divergência intelectual.
Quando convicções morais absolutas substituem argumentos baseados em pesquisa, o debate aberto morre.
O texto descreve como a imposição ideológica nas universidades substitui o rigor científico pelo autoritarismo.

Professores e estudantes sofrem vandalismo, ameaças e perseguição por divergências intelectuais, com casos documentados em USP, UFSCar, UFPE e outras instituições federais. Fenômeno reflete precariedade material das universidades, competição por recursos escassos e essencialização equivocada da diversidade que impõe identidades políticas obrigatórias.

  • Mais de 120 casos de violência contra docentes e estudantes catalogados por pesquisadores da UFF, USP e UFPR
  • Universidades federais operam com orçamento inferior à metade do que tinham em 2014
  • Manifesto pelo Pluralismo e a Liberdade Acadêmica criado no Centro MariAntonia da USP

Artigo analisa ascensão de identitarismo autoritário em universidades públicas brasileiras, documentando mais de 120 casos de violência contra docentes e estudantes que questionam imposição de pensamento único sob disfarce de justiça social.

Nos últimos anos, as universidades públicas brasileiras tornaram-se palco de um fenômeno perturbador: professores e estudantes enfrentam vandalismo, ameaças e perseguição por simplesmente divergirem em questões intelectuais. Na USP, uma professora de ciência política encontrou seu carro pichado com a frase "Fora nazistas" porque exibia um adesivo com a bandeira da Ucrânia. Na UFSCar, um docente teve seu veículo riscado e foi exposto nas redes sociais após explicar a uma aluna as diferentes correntes do feminismo — marxista, liberal e anarquista. Na UFPE, uma professora de cinema enfrentou seu carro completamente vandalizado e manifestantes a chamando de criminosa, situação que a forçou a se transferir de curso. Um professor de filosofia na mesma instituição recebeu ameaças de morte, teve seu gabinete pichado com frases como "Stalin matou foi pouco" e precisou instalar grades de ferro em sua sala, circulando pelo campus sob escolta da segurança universitária.

Essas não são histórias isoladas. Pesquisadores da UFF, USP e UFPR catalogaram mais de 120 casos semelhantes, envolvendo não apenas docentes, mas também técnicos, funcionários terceirizados e estudantes. Na UFOP, em 2022, alunos de medicina que compareceram a uma festa à fantasia vestidos como personagens do desenho "A corrida maluca" foram denunciados por suposto blackface e suspensos, com alguns abandonando a universidade. O padrão que emerge desses conflitos não se encaixa simplesmente na divisão esquerda-direita, mas na oposição fundamental entre democracia e autoritarismo. Ainda assim, discutir esses casos tornou-se tabu. Argumenta-se que seriam consequência inevitável da democratização do acesso ao ensino superior, e denunciá-los equivaleria a reagir contra políticas de inclusão — uma associação preconceituosa que presume a diversidade explicaria ou justificaria ataques.

Para compreender o fenômeno, é preciso olhar além dessa tese questionável. As universidades públicas brasileiras enfrentam uma crise material profunda. De aproximadamente dez milhões de estudantes universitários no país, mais da metade estuda a distância e cerca de 80% frequentam instituições privadas. As universidades públicas e o ensino presencial são vistos como privilégio pela maioria da população que, embora não as utilize diretamente, sabe que são mantidas com recursos públicos. Uma pesquisa da More in common com a Quaest em 2025 revelou que grande parte da população tem visão negativa sobre a universidade pública — dado que parece contradizer sua excelência científica, ignorando sua transformação desde as ações afirmativas. O fato é que as instituições são encaradas por muitos cidadãos, inclusive eleitores de esquerda, como redutos ideológicos que priorizam uma forma questionável de atuação política.

Dentro dos campi, essa politização assume contornos de imposição normativa sobre como a diversidade deveria operar. Existe um essencialismo equivocado no debate: presume-se que toda mulher é feminista, que todo aluno negro se identifica com o movimento negro, que todo estudante pobre é de esquerda. Essas visões buscam impor uma identidade política obrigatória ao alunato, além de venderem a falsa ideia de que não havia pesquisas sobre feminismo, racismo e temas similares antes das ações afirmativas. A essencialização da diversidade romantiza a realidade estudantil e revela miopia política ao buscar um "novo sujeito histórico" descolado de suas reais condições materiais. As universidades públicas federais operam hoje com orçamento inferior à metade do que tinham em 2014, apesar de serem mais numerosas e contarem com muito mais alunos. Esse contingente maior demanda mais apoio para permanência e conclusão dos estudos — como provou a recente greve estudantil nas estaduais paulistas, mostrando que "apenas entrar" não basta. A deterioração das condições de trabalho de docentes e técnicos compromete pesquisa e ensino, alimentando competição interna por recursos escassos e cargos com funções gratificadas, criados para gerir o novo perfil estudantil.

Os conflitos nas universidades brasileiras inserem-se em um fenômeno internacional que o sociólogo palestino Sari Hanafi conceituou como "liberalismo simbólico" — uma concepção política liberal-progressista em ideais, mas profundamente iliberal em ações, validando o autoritarismo do silenciamento e cancelamento de quem diverge. Nesse ambiente onde o pluralismo intelectual é recusado, a conformidade ideológica torna-se norma. A socióloga Ilana Redstone observa que o dissenso passou a ser visto como falha moral, com convicções morais absolutas tomando o lugar do debate racional. Quando argumentos baseados em pesquisa são substituídos pela imposição de convicção ideológica, a primeira vítima é o debate aberto, respeitoso e seguro. Atualmente, os conflitos mostram o encolhimento do espaço para divergência. O que resta é ameaça, perseguição e autoritarismo do argumento ad hominem contra o indivíduo em vez da ideia — frequentemente perpetrado por autodeclarados defensores de direitos humanos que incitam ataques a colegas por não comungarem de sua visão.

Tenta-se impor uma visão que trata temas e pesquisas como devendo servir a causas específicas às custas do rigor científico. A radicalização sustenta-se na crença de que a diversidade deve servir de base para militância assentada em "saberes essencializados" que competiriam com a ciência. Tais saberes e pretensas "novas epistemologias", embora se apresentem como vanguardistas, já têm quase meio século e enfrentam críticas inerentes a qualquer corrente que se torna novo establishment. Na tentativa de usar saberes como armas contra pesquisa metodologicamente orientada, grupos que essencializam identidades trazem-nos para a universidade em espírito populista. A retórica de que origem sociodemográfica traria relação unívoca entre saber, identidade e posição política só avança reagindo a críticas como se fossem discriminações, tentando justificar o injustificável: uso da violência para imposição do pensamento único.

Diante dessa erosão democrática, um grupo de professores de diversas áreas e estados reuniu-se no Centro MariAntonia da USP e criou o Manifesto pelo Pluralismo e a Liberdade Acadêmica, com amplo apoio de acadêmicos, técnicos e profissionais de outros campos. A iniciativa busca sensibilizar a comunidade — inclusive sindicatos docentes, até agora reticentes — contra a violência política nas universidades. O problema enfrentado pelas instituições é o conflito entre democracia e autoritarismo, entre pluralismo e pensamento único, entre valorizar debate qualificado ou violência política. A defesa do pluralismo e liberdade acadêmica é antídoto para o contexto cotidiano e contribuição para valorizar a universidade em sua relação com a sociedade brasileira. Sem condições de debate civilizado e pluralidade, caminha-se para agravamento das cisões internas, multiplicação dos expurgos e piora da imagem pública da universidade, o que retirará o apoio necessário para recompor seu orçamento e evitar que termine sucateada.

O dissenso passou a ser visto como uma falha moral
— Ilana Redstone, socióloga
A universidade pública responde à sociedade e não o contrário; ignorar o que a população pensa ou espera da instituição é descolar-se da realidade
— Richard Miskolci, autor do artigo
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Como você explica que esses casos de violência ocorram justamente em instituições que se apresentam como defensoras de direitos humanos?

Model

Há uma contradição profunda. Grupos que se declaram defensores de direitos humanos usam violência — vandalismo, ameaças, perseguição — contra colegas que simplesmente divergem. É o que Sari Hanafi chama de "liberalismo simbólico": progressista em ideais, mas profundamente autoritário em ações.

Inventor

Mas não seria natural que universidades mais diversas tivessem mais conflito?

Model

Essa é a tese que circula, mas os dados não sustentam. Pesquisadores da UFF, USP e UFPR encontraram 120 casos de violência, e o padrão não é simplesmente mais gente, mais conflito. É imposição de conformidade ideológica. O problema é autoritarismo, não diversidade.

Inventor

Qual é o papel da precariedade material nessa história?

Model

Fundamental. As universidades federais têm orçamento inferior à metade do que tinham em 2014. Há competição por recursos escassos, cargos com funções gratificadas, pressão por emendas parlamentares. Quando as condições materiais se deterioram, as tensões políticas se intensificam e explodem.

Inventor

Então você está dizendo que a essencialização das identidades é parte do problema?

Model

Exatamente. Presume-se que toda mulher é feminista, que todo aluno negro se identifica com o movimento negro. Isso impõe uma identidade política obrigatória. A diversidade conquistada pelas ações afirmativas é romantizada, descolada das reais condições materiais dos estudantes.

Inventor

O que diferencia esse autoritarismo de outras formas de polarização política?

Model

É polarização afetiva. Adversários do mesmo campo político são convertidos em inimigos. Não é debate sobre ideias — é campanha para expurgo e eliminação. Quando convicções morais absolutas substituem argumentos baseados em pesquisa, o debate aberto morre.

Inventor

Qual é a saída?

Model

O Manifesto pelo Pluralismo e a Liberdade Acadêmica tenta mobilizar a comunidade acadêmica contra essa violência política. Mas exige que sindicatos docentes, até agora reticentes, se posicionem. A universidade pública responde à sociedade — ignorar o que a população pensa é descolar-se da realidade.

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