170 metros por ano é suficiente para manter o cenário de impacto em jogo
No vasto teatro do sistema solar, um asteroide de 300 metros chamado Apophis voltou a ocupar o centro das atenções científicas. Astrónomos da Universidade do Havai, liderados por Dave Tholen, detectaram em 2020 que uma força térmica subtil — a aceleração Yarkovsky — está a desviar o Apophis da sua órbita gravitacional pura, recolocando na mesa a possibilidade de um impacto com a Terra em 2068, cenário que havia sido matematicamente descartado. A ciência não anuncia catástrofe, mas recusa agora a certeza do alívio: o cosmos, como sempre, exige que continuemos a olhar.
- Um efeito físico invisível a olho nu — a pressão da radiação térmica solar — está a empurrar o Apophis 170 metros por ano para fora da órbita que os cientistas consideravam segura.
- O que parecia resolvido voltou a ser uma questão em aberto: o impacto de 2068, descartado pelos modelos anteriores, é agora novamente uma possibilidade científica legítima.
- Em 2029, o asteroide passará tão perto da Terra que será visível a olho nu e atravessará o cinturão de satélites de comunicação — um ensaio dramático sem colisão, mas que antecede décadas de incerteza.
- Investigadores do Jet Propulsion Laboratory refinaram os cálculos e apresentaram os resultados à comunidade astronómica internacional, sinalizando que a vigilância sobre o Apophis terá de ser contínua e rigorosa.
- A ciência não prevê catástrofe — prevê observação: antes de 2068, e provavelmente muito antes, os astrónomos saberão se existe risco real, mantendo o Apophis sob escrutínio permanente.
Dave Tholen, da Universidade do Havai, e a sua equipa alteraram o que se sabia sobre um dos asteróides mais vigiados do sistema solar. Ao analisar novas observações obtidas com o telescópio Subaru no início de 2020, detectaram que o Apophis — um corpo rochoso de 300 metros, descoberto em 2004 — está a ser influenciado pela aceleração Yarkovsky, uma força que surge da absorção e emissão assimétrica de calor solar. O resultado: o asteroide desvia-se da sua órbita gravitacional pura a cerca de 170 metros por ano, o suficiente para reabrir um cenário de impacto com a Terra em 2068 que os cientistas tinham dado por encerrado.
O Apophis já era conhecido pelo seu encontro próximo com a Terra marcado para 13 de abril de 2029, quando passará tão perto do planeta que será visível a olho nu e cruzará o cinturão de satélites de comunicação. Esse momento, embora extraordinariamente próximo, não representa perigo de colisão. O verdadeiro ponto de interrogação situa-se décadas mais tarde, e é aí que a nova descoberta ganha peso.
Os cálculos foram refinados por Davide Farnocchia, do Jet Propulsion Laboratory, e apresentados no encontro virtual de 2020 da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Astronómica Americana. A mensagem dos investigadores é de cautela, não de alarme: o impacto não é provável nem iminente, mas deixou de ser impossível. As observações continuarão, e muito antes de 2068 a ciência terá uma resposta mais clara. Por agora, o Apophis permanece sob vigilância — e a incerteza, devidamente controlada, é o único veredicto disponível.
Um astrónomo da Universidade do Havai acaba de mudar o cálculo de risco para um dos asteróides mais vigiados do sistema solar. Dave Tholen e a sua equipa detectaram um efeito físico subtil mas consequente no Apophis — o chamado "asteróide do caos" — que recoloca na mesa um cenário que os cientistas acreditavam estar descartado: um impacto potencial com a Terra em 2068.
O Apophis é um objeto de 300 metros que já tinha capturado a atenção dos astrónomos desde a sua descoberta em 2004. O que o torna particularmente notável é o seu encontro próximo com a Terra marcado para 13 de abril de 2029, quando passará tão perto que se tornará visível a olho nu e penetrará no cinturão de satélites de comunicação que orbitam o planeta. Mas esse encontro de 2029, embora dramaticamente próximo, não representa perigo de colisão. O verdadeiro ponto de interrogação é o que acontece depois.
A descoberta de Tholen centra-se num fenómeno chamado aceleração Yarkovsky. Trata-se de uma força extremamente fraca que surge quando um asteróide absorve energia da luz solar e depois a irradia novamente como calor. Esse processo de absorção e emissão térmica não é uniforme — o asteróide aquece de um lado e arrefece do outro — e essa assimetria gera uma pequena força que altera gradualmente a sua órbita. Antes desta detecção, os astrónomos tinham concluído que o Apophis seguiria uma trajetória puramente gravitacional, e nesse cenário um impacto em 2068 era matematicamente impossível.
Mas as novas observações obtidas com o telescópio Subaru no início de 2020 revelaram que a aceleração Yarkovsky está efectivamente a actuar no Apophis. O asteróide está a afastar-se da sua órbita gravitacional pura a uma taxa de aproximadamente 170 metros por ano. Essa distância pode parecer insignificante numa escala humana, mas ao longo de décadas, num sistema tão sensível como o das órbitas planetárias, é suficiente para manter viva a possibilidade de um impacto em 2068. "As novas observações foram suficientemente boas para revelar a aceleração Yarkovsky de Apophis e mostram que o asteróide está a afastar-se de uma órbita puramente gravitacional em cerca de 170 metros por ano, o que é suficiente para manter o cenário de impacto de 2068 em jogo", explicou Tholen.
Os cálculos da órbita foram refinados por Davide Farnocchia, do Jet Propulsion Laboratory, e os resultados foram apresentados no encontro virtual de 2020 da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Astronómica Americana. O que é importante compreender é que esta descoberta não significa que um impacto seja provável ou iminente. Significa apenas que o cenário deixou de ser descartado. Os astrónomos continuam a fazer observações para refinar a compreensão de como exactamente o efeito Yarkovsky afecta a órbita do Apophis. Antes de 2068 — e provavelmente muito antes — saberão se há alguma probabilidade real de colisão. Por enquanto, o Apophis permanece sob vigilância, e a ciência segue o seu curso de incerteza controlada.
Citações Notáveis
As novas observações foram suficientemente boas para revelar a aceleração Yarkovsky de Apophis e mostram que o asteróide está a afastar-se de uma órbita puramente gravitacional em cerca de 170 metros por ano, o que é suficiente para manter o cenário de impacto de 2068 em jogo.— Dave Tholen, astrónomo da Universidade do Havai
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que uma força tão pequena — 170 metros por ano — muda completamente o cenário de risco?
Porque estamos a falar de órbitas. Pequenas mudanças acumulam-se. Ao longo de 48 anos, 170 metros por ano soma-se. E as órbitas são sensíveis — uma mudança de alguns quilómetros na trajectória pode ser a diferença entre passar ao lado e colidir.
Então os astrónomos estavam errados antes?
Não estavam errados. Tinham razão com base no que sabiam. Não tinham detectado o efeito Yarkovsky no Apophis. Agora detectaram. A ciência funciona assim — refina-se com melhores observações.
Porque é que o efeito Yarkovsky é tão difícil de detectar?
É uma força extremamente fraca. Radiação térmica não uniforme num objeto de 300 metros. Precisa de telescópios muito bons e de observações muito precisas. O Subaru conseguiu capturá-lo.
E se o impacto em 2068 for real? Temos tempo para fazer algo?
Temos 48 anos. Isso é tempo suficiente para enviar uma sonda, para desviar o asteróide, para planear. Mas primeiro precisamos de saber se é realmente uma ameaça. As observações contínuas vão responder a isso.
Porque é que o encontro de 2029 é tão importante então?
Porque é uma oportunidade de observação perfeita. O asteróide passa perto o suficiente para ser visto a olho nu. Os telescópios vão poder estudá-lo em detalhe. Isso vai refinar ainda mais os cálculos de risco para 2068.