Se o psicólogo não for bem formado, pode ser substituído por IA
A Apsy investirá R$ 40 milhões em uma instituição premium que combina psicanálise clássica com neurociência moderna e terapia cognitivo-comportamental. Psicologia é o segundo curso mais procurado no ensino superior privado brasileiro, com 346,5 mil estudantes, refletindo crescente interesse pela saúde mental.
- Faculdade Apsy será inaugurada em 2027 na Vila Olímpia, São Paulo, com investimento de R$ 40 milhões
- Psicologia é o segundo curso mais procurado no ensino superior privado brasileiro, com 346,5 mil estudantes
- Pesquisa de 2025 mostrou que mais de 20% dos jovens entre 18 e 21 anos já usam IA generativa para orientação em saúde mental
Primeira faculdade exclusiva de Psicologia do Brasil será lançada em 2027 na Vila Olímpia com currículo inovador que integra neurociência e IA, rompendo com o ensino tradicional focado em autores clássicos.
Cristiano Nabuco está construindo algo que não existe no Brasil: uma faculdade dedicada inteiramente à Psicologia. Quando as portas abrirem em 2027, na Vila Olímpia, em São Paulo, o prédio ainda em obras na Rua Alvorada será o primeiro de seu tipo no país — uma instituição premium com mensalidades altas e um currículo que promete romper com décadas de tradição acadêmica.
Nabuco coordenou até 2023 uma unidade do Instituto de Psiquiatria da USP no Hospital das Clínicas, focada em pessoas com dependência de tecnologia. Ele vê urgência onde outros veem apenas continuidade. "As instituições, em geral, são muito engessadas", diz. "Não dá para a gente ficar esperando, porque o tempo está passando." Sua preocupação não é abstrata. Pesquisa publicada em 2025 nos Estados Unidos revelou que mais de um em cada cinco jovens entre 18 e 21 anos já recorreu à inteligência artificial generativa em busca de orientação sobre saúde mental. Dois terços desses usuários faziam isso pelo menos uma vez por mês. Mais de 90% consideravam as respostas úteis. Para Nabuco, se o psicólogo não for bem formado para lidar com essa realidade, pode ser substituído por IA.
O curso que está sendo desenhado rompe com o que Nabuco chama de "establishment" das faculdades tradicionais. Sim, os alunos estudarão Vygotsky e Piaget — autores clássicos que moldaram a formação em Psicologia no Brasil por gerações. Mas não apenas isso. A neurociência ocupará espaço central. Exames de ressonância magnética funcional, ferramentas que não existiam na época de Freud, ajudarão os estudantes a compreender transtornos como depressão. Haverá uma sala chamada Sigmund Freud, onde a psicanálise será ensinada. Mas ao lado dela, terapia cognitivo-comportamental — uma abordagem que busca compreender a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos e que aparece menos na formação brasileira do que outras correntes.
O modelo pedagógico que Nabuco propõe é o que ele chama de "ensino baseado em evidências clínicas", com "prática deliberada" desde o primeiro dia, sob supervisão de professores. Não é aprendizado teórico seguido de prática. É prática desde o início, informada por teoria. Os professores ainda estão sendo selecionados, e o projeto prevê intercâmbio com instituições e profissionais no exterior. O processo seletivo será incomum: além de prova tradicional e entrevistas, candidatos escreverão sobre como enxergam a saúde mental atualmente. Nabuco quer avaliar, como diz, o "DNA" de cada candidato — se está alinhado com o propósito da instituição.
A Apsy, como será chamada, é a primeira faculdade da Artmed, uma editora que começou no Rio Grande do Sul e hoje integra o grupo +A Educação, com cursos de pós-graduação na área da saúde e plataformas educacionais. O investimento é de R$ 40 milhões. A decisão de lançar uma faculdade exclusiva de Psicologia chega em momento de interesse extraordinário pela carreira. Nos últimos anos, Psicologia se tornou um dos cursos mais concorridos da Fuvest, o vestibular da USP, com cerca de 60 candidatos por vaga. No ensino superior privado, os números são ainda mais impressionantes: Psicologia é o segundo curso com maior número de matrículas presenciais no país, com 346,5 mil estudantes, atrás apenas de Direito, que tem 565,6 mil. Esse interesse reflete uma mudança cultural profunda — a saúde mental deixou de ser tabu e se tornou prioridade.
O que Nabuco está tentando fazer é antecipar o que a profissão de psicólogo será quando esses alunos se formarem, não o que ela é hoje. Uma profissão onde a inteligência artificial não é uma ameaça distante, mas uma realidade presente. Onde neurociência não é um complemento opcional, mas parte do núcleo do conhecimento. Onde a prática clínica começa no primeiro dia, não no último ano. Se conseguir, terá criado não apenas uma faculdade diferente, mas um modelo que força a profissão a se repensar.
Citações Notáveis
As instituições, em geral, são muito engessadas. Não dá para a gente ficar esperando, porque o tempo está passando.— Cristiano Nabuco, coordenador da Apsy
A gente rompe com esse establishment de faculdades em que você vai estudar Vygotsky, Piaget. Mas a gente tem que colocar neurociência, porque, na época deles, não tinham equipamentos de ressonância magnética funcional.— Cristiano Nabuco
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que agora? Por que uma faculdade inteira de Psicologia, e não apenas um programa inovador dentro de uma universidade maior?
Porque as universidades grandes estão presas em estruturas que levam anos para mudar. Nabuco viu isso de perto na USP. Uma faculdade nova pode começar do zero, sem carregar o peso das decisões de 50 anos atrás.
Mas Freud, Piaget, Vygotsky — esses nomes não desaparecem só porque você abre uma faculdade nova. Por que mantê-los?
Porque eles não estão errados. Estão incompletos. A neurociência não contradiz Freud; ela responde perguntas que Freud não podia fazer. Você precisa dos dois.
A pesquisa sobre jovens usando IA para saúde mental — isso assusta você?
Assusta se o psicólogo não souber lidar com isso. Mas se você forma alguém que entende tanto psicanálise quanto neurociência quanto IA, essa pessoa não é substituída. Ela trabalha com a IA, não contra ela.
Como você seleciona um aluno que "tem o DNA certo"?
Você não quer só inteligência. Quer alguém que realmente se importa com saúde mental, que pensa sobre isso além da sala de aula. O texto sobre como enxergam a saúde mental hoje revela isso.
R$ 40 milhões é muito dinheiro. Quem vai pagar as mensalidades?
Gente que acredita que Psicologia premium vale a pena. Assim como existe medicina premium, administração premium. Se você oferece algo diferente, encontra quem quer pagar por isso.