Neurocientista derruba mito de cérebros diferentes entre homens e mulheres

O cérebro aprende pelo exemplo. Sem diversidade visível, gera-se ameaça por estereótipo.
Professora de neurociência explica como a ausência de mulheres em espaços de poder prejudica o desempenho de outras mulheres.

Estudos sensacionalistas sobre cérebros diferentes entre homens e mulheres carecem de base científica sólida e perpetuam estereótipos de gênero há séculos. O cérebro é plástico e se reorganiza continuamente; diferenças neurológicas entre sexos, quando existem, são minúsculas e não justificam conclusões sobre capacidades distintas.

  • Manchete do Daily Mail de 2013 reproduziu estudo da Universidade da Pensilvânia sobre diferenças cerebrais entre sexos
  • Neurocientista Gina Rippon publica livro desmontando mitos sobre cérebros femininos e masculinos
  • Diferenças cerebrais entre sexos, quando existem, são minúsculas e não justificam conclusões sobre capacidades distintas
  • Meninas e meninos apresentam desempenho idêntico em testes de orientação espacial, segundo olimpíada de cartografia

Pesquisadora inglesa Gina Rippon publica livro desmontando teses de diferenças cerebrais entre sexos, mostrando como neurossexismo reforça estereótipos e desigualdades de gênero.

Uma manchete do Daily Mail de 2013 ainda incomoda a neurocientista inglesa Gina Rippon. "Cérebro de homens e mulheres: a verdade!", dizia o título, acompanhado de um estudo da Universidade da Pensilvânia que prometia provar, de uma vez por todas, que o cérebro feminino era mais intuitivo e emocionalmente inteligente, enquanto o masculino se destacava em lógica e coordenação espacial. Tabloides sensacionalistas e jornais respeitáveis como o The Independent amplificaram a notícia com entusiasmo. Afinal, há séculos a ciência tenta demonstrar, com precisão matemática, que homens e mulheres possuem estruturas cerebrais fundamentalmente distintas que explicariam seus comportamentos e capacidades.

Rippon decidiu questionar essa certeza. Seu novo livro, "Gênero e os nossos cérebros: Como a neurociência acabou com o mito de um cérebro feminino ou masculino", recém-lançado no Brasil pela editora Rocco, traça um histórico minucioso dos estudos nesta área e aponta para uma verdade incômoda: o cérebro é plástico, nunca para de se reorganizar, e muito do que acreditamos sobre diferenças neurológicas entre os sexos repousa em premissas reducionistas. A pesquisadora examina até a influência de detalhes aparentemente triviais — brinquedos rosa para meninas, azuis para meninos — na formação mental de bebês. Com humor e rigor científico, ela desconstrói as bases dos bestsellers que prometem explicar por que "homens são de Marte" ou como "as mulheres pensam".

Rippon integra um coletivo internacional que se autodenomina neurofeminista e cunhou o termo "neurossexismo" para descrever exatamente este fenômeno: a perpetuação de estereótipos de gênero através de discursos que se apresentam como cientificamente fundamentados. "Desde o fim do século XVIII, uma agenda domina as análises do cérebro: a diferença entre homens e mulheres", explica ela em entrevista por videoconferência de Birmingham. "O mundo vai melhorar quando isso for irrelevante. O melhor caminho são pesquisas voltadas para a individualidade." Ela reconhece que diferenças cerebrais entre os sexos existem em alguns níveis elementares, mas as descreve como "minúsculas" — insuficientes para justificar as conclusões grandiosas que circulam na mídia sobre quem lê melhor um mapa ou quem é mais multitarefa.

Marina Nucci, pesquisadora do Instituto de Medicina Social da Uerj, explica que o neurossexismo funciona como um reforço de estereótipos tanto em contextos científicos quanto leigos. O exemplo clássico: mulheres seriam "cerebralmente" mais empáticas ou verbalmente mais hábeis, enquanto homens teriam maior capacidade de orientação espacial. Nucci descobriu essas ideias durante seu doutorado em Saúde Coletiva e conectou-se ao NeuroGenderings, o coletivo internacional que Rippon integra e que trabalha para expor como reducionismos biológicos são apresentados ao público. "Dizer que as mulheres são diferentes é mais curioso do que afirmar que os sexos são basicamente a mesma coisa, não é?", brinca Rippon sobre por que essas narrativas ganham tanto espaço.

A realidade prática contradiz os mitos. Angelica Di Maio, cartógrafa e professora do Instituto de Geociência da UFF, coordena a Olimpíada Brasileira de Cartografia para alunos do ensino médio. Ela observa que meninas e meninos apresentam desempenho idêntico nas provas que envolvem orientação espacial — correm com mapa e bússola, interpretam dicas do terreno. Ambos vão bem e fracassam na mesma proporção. A questão dos hormônios frequentemente surge quando Rippon apresenta seu trabalho. Teriam eles papel determinante na organização neural? A pesquisadora salienta que estudos sobre este tema são conduzidos principalmente em animais, o que limita drasticamente as conclusões. "Sabemos que os níveis hormonais estão ligados a expectativas sociais em humanos", afirma. "Hormônios têm um papel, mas não de forma simplificada e direta como acreditam." Ela cita no livro uma pesquisa sobre síndrome pré-menstrual em que mulheres foram deliberadamente levadas a acreditar que estavam naquele momento do ciclo — e acabaram relatando sintomas correspondentes. Isso não significa negar que algumas mulheres enfrentem problemas físicos e emocionais reais relacionados a flutuações hormonais, mas ilustra como expectativas moldam percepção.

Leticia de Almeida, professora de Neurociência da UFF, reconhece que há muita discussão sobre cérebro e gênero, mas um ponto é consensual entre pesquisadoras: não existe aspecto cerebral que incapacite mulheres para qualquer função. Qualquer tentativa de explicar cientificamente por que mulheres seriam menos capazes soa tão misógino quanto o pensamento do médico e psicólogo Gustave Le Bon, que escreveu em 1895 que "as mulheres representam as formas mais inferiores da evolução humana". "Há diferença cognitiva entre homens e mulheres? Ao que parece, são pequenas", diz Letícia. "Mesmo que exista, não justifica, de maneira alguma, não estarmos presentes em todos os espaços de poder e decisão." Ela aponta para um fenômeno psicológico importante: o cérebro aprende pelo exemplo. Quando não se enxerga diversidade em espaços de liderança, gera-se a "ameaça por estereótipo", um mecanismo que prejudica o desempenho de grupos sub-representados. O trabalho de Rippon e do coletivo neurofeminista busca justamente evitar que manchetes sensacionalistas voltem a disseminar mitos, redirecionando a pesquisa para a compreensão da individualidade em vez de diferenças sexuais presumidas.

Desde o fim do século XVIII, uma agenda domina as análises do cérebro: a diferença entre homens e mulheres. O mundo vai melhorar quando isso for irrelevante.
— Gina Rippon, neurocientista
Há diferença cognitiva entre homens e mulheres? Ao que parece, são pequenas. Mesmo que exista, não justifica não estarmos presentes em todos os espaços de poder e decisão.
— Leticia de Almeida, professora de Neurociência da UFF
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que uma manchete de jornal de 2013 ainda importa tanto para a pesquisadora?

Model

Porque ela exemplifica um padrão que se repete há séculos: a mídia amplifica estudos que prometem explicar diferenças entre homens e mulheres como se fossem verdades definitivas. Rippon quer quebrar esse ciclo.

Inventor

Mas diferenças cerebrais entre os sexos realmente não existem?

Model

Existem em níveis muito elementares, mas são minúsculas. O problema não é a existência delas, é como a ciência e a mídia as usam para justificar desigualdades e estereótipos.

Inventor

Como brinquedos coloridos influenciam o cérebro de um bebê?

Model

O cérebro é plástico, se reorganiza continuamente. Quando uma menina cresce cercada de certos estímulos e expectativas, seu cérebro se desenvolve em resposta a isso. Não é biologia pura; é biologia moldada pela cultura.

Inventor

E quanto aos hormônios? Eles não explicam diferenças comportamentais?

Model

Hormônios têm papel, mas não isolado. Estão ligados a expectativas sociais. Um estudo mostrou que mulheres relatavam sintomas de TPM quando acreditavam estar naquele período — mesmo quando não estavam. A mente interfere.

Inventor

Qual é o perigo real do neurossexismo?

Model

Reforça desigualdades. Se você acredita que mulheres são biologicamente menos capazes em certos campos, não as coloca em posições de liderança. E quando não veem exemplos de sucesso, elas mesmas internalizam a limitação.

Inventor

Como a pesquisa deveria mudar?

Model

Focando em individualidade em vez de diferenças sexuais. Cada pessoa é única. Pesquisar isso é mais complexo, menos sensacionalista — mas é a verdade.

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